Democracia em tribunal

O afastamento dos pequenos partidos dos debates televisivos não é apenas uma questão de estações televisivas. É bem mais do que isso.

É evidente que o domínio dos partidos políticos com assento parlamentar em sede de debate televisivo e respectiva exposição mediática, aos mesmos aproveita para garantirem a sua coutada. Todos, da Esquerda à Direita, pactuam nessa garantia. A campanha eleitoral é deles, mesmo quando ainda não há campanha. E mais deles se torna quando abre oficialmente a caça ao voto. Os pequenos não têm lugar à mesa, nem os comensais estão dispostos a “aturá-los”.

A mim não me interessa se os partidos políticos excluídos são de Esquerda, Direita, respectivas extremidades, ecologistas, esotéricos, etc. Interessa-me o respeito pela Constituição e a não capitulação da República a pactos de poder. O não permitir que continue a haver quem queira escolher por pór, decidir por nós, ajuizar por nós.

Digo-vos: quando a democracia é dirimida nos tribunais, muito mal vai o país.

Não se escreve “acampada”, escreve-se “acampamento”.

Já percebemos que discutir a questão das acampadas (a propósito, acampada é termo que não se regista nos dicionários portugueses) é questão ingrata. Os que estão a favor, estão a favor, os que estão contra, estão errados. Não são admitidas contradições (até Torquemada era mais tolerante). A democracia gerida das escadas de uma estátua, ou das cadeiras do parlamento pode ser tão ou mais opressora consoante a habilidade oratória ou literária dos tribunos. A única coisa que os distingue mesmo é a água de colónia. Ou a falta dela. Que o diga Daniel Oliveira que acha anedóticos os 136 debates partidários exigidos pelo tribunal. Vejam lá o topete! A mudança operada nesta criatura, outrora sentada num frio degrau da praça (no tempo em que a liberdade era para todos) até ao assento de pele das tribunas parlamentares é de espantar. Quando o BE (ou aquele grupo heterógeneo de barbudos e oculizados trotskistas) precisava de apanhar beatas do chão para saciar o seu vício de poder, os pequenos partidos eram as forças oprimidas do sistema capitalista neoliberal. Hoje, já gordo e bem fornecido de todos os carregamentos de charutos habaneses acha que os pequenos partidos são um engodo do sistema capitalista neoliberal. O que chateia não são as acampadas em Lisboa, em Madrid e o diabo a 4. É que esta gente, ao fim de um ou dois banhos está igualzinha aos outros.

Televisões condenadas a realizar debates, só falta os partidos quererem

Já se sabe que os pequenos partidos querem debater. Têm razão, sem debate nunca deixarão de ser pequenos partidos. A questão é se os partidos com assento parlamentar aceitarão o repto. Apesar da notícia dar um belo título, a não ser que algum dos grandes partidos surpreenda, é de crer que as televisões não terão muito que se preocupar.

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