O comentador ignorante, uma espécie em vias de desenvolvimento

Mas afinal o que vem a ser isto?
Se a maior parte dos Portugueses que ficou sem trabalho, pode ser encaminhada para outras profissões ou emigrar, porque é que o pessoal que dá aulas, que enveredou, ou como se costumava dizer, seguiu a via de ensino, por não ter habilidade, habilitações ou pedalada para fazer outra coisa, não pode fazer o mesmo que os outros? Vá lá, se não os “colocam”, não estejam sempre à espera de ser “colocados”, atirem-se à vidinha, cá dentro ou lá fora.

Aqui

Diante de comentários como o que acima transcrevi, confesso que me sinto uma espécie de David Attenborough a observar o comportamento de elementos da fauna.

Assim, do mesmo modo que os leões cheiram sangue à distância, há, em Portugal, uma espécie a que podemos chamar commentator insipiens (qualquer coisa como ‘comentador ignorante’), que fica com as narinas frementes mal ouve um ruído conhecido por “queixas dos professores”. Não chegam, ainda, ao ponto de rugir como os leões, mas adoptam comportamentos tão previsíveis como estranhos. Ao contrário dos leões, no entanto, metem-se em assuntos que não dominam.

O commentator insipiens, como ser primário que é, começa, normalmente, por afirmar a sua indignação, chamando a atenção para o facto de que os professores não se devem queixar porque há outros que ainda estão pior (onde é que eu já escrevi isto? Ou terá sido aqui?). Ao espécime em causa não lhe passa pela cabeça que é de toda a conveniência que cada classe profissional se queixe do que a afecta ou do que afecta a sua área de actuação. Talvez o commentator fique mais descansado no dia em que os professores queiram explicar à humanidade os problemas que afectam os funcionários das Finanças. No fundo, é a transferência do comportamento típico das velhinhas que estão no centro de saúde a comparar as doenças: “A senhora partiu um braço? Olhe, teve sorte, que eu parti os dois e ainda tenho bicos-de-papagaio! A senhora devia era dar graças a Deus por ter partido um braço. O que eu não dava para ter agora um braço partido! Esteja mas é calada! Só porque tem o osso à mostra acha que pode estar para aí aos gritos!” [Read more…]

Com os Sindicatos não vamos a lado nenhum! Quem somos? Professores contratados. Quantos somos? Somos muitos !!!

“De todos os pontos de Portugal, 7 de setembro de 2011
Quem somos? Professores contratados.
Quantos somos? Somos muitos!!!
Este documento surge no âmbito da situação em que nos encontramos, graças aos sindicatos e ao Sr. Ministro da Educação Nuno Crato. Para a realização do mesmo utilizámos a informação recolhida no sítio da DGRHE (que nem sempre se encontra disponível) e este surge nesta fase por considerarmos que já não é possível espezinhar nem humilhar mais os professores contratados.
Quem diz que a tradição já não é o que era, com certeza não se referia ao Concurso de Docentes. Todos os anos a história se repete: dia 31 de Agosto é sinónimo de incerteza, stress, mudanças e, para os mais sortudos, de alívio (com o prazo de validade de um ano).
Ansiamos pela publicação das listas pela DGRHE e até apostas fazemos acerca da hora em que teremos acesso às mesmas. Este ano, tal como apareceram, desapareceram, dando lugar a um “engenheiro” de capacete amarelo, que apelidámos de “Bob” e que nos impedia de aceder, estando o portal “Em manutenção” durante várias horas.
Considerando a tradição, era previsível o aparece/desaparece das listas, mas e o “desaparecimento” de 3 mil e tal horários? Nem Houdini seria capaz de tal proeza! [Read more…]

Eternamente contratados, vigarizados e desesperados, ocupam ministério

Os professores contratados, o estado reserva-se ao direito de não cumprir as suas próprias leis, foram este ano vítimas de uma enorme vigarice, por via informática, que transformou as colocações em lotaria completa.

A isso acresce que muitas escolas já se permitem, descaradamente, à reserva de lugares para parentes, amigos, conhecidos e outras cunhas.

Em desespero um grupo de cerca de 20 vítimas ocupou hoje instalações do Ministério da Educação e Cunhas.

Fazem muito bem, e é sem dúvida uma das formas de luta mais eficazes, mesmo que iniciada por um pequeno grupo. Falo por experiência: em 1991  uma dúzia de professores provisórios de História e Filosofia, licenciados em 1985 e vítimas de uma golpaça da geração yupie que se licenciou a seguir, foi acampar às vésperas do Natal para a porta do ministério. Foi a salvação de todos, onde me incluo, embora à distância às vezes desconfie que se tivesse ido trabalhar para outro lado tinha ganho muito mais dinheiro e poupado imensas chatices.

Sobre a vigarice, ler por exemplo aqui.

Zé Carlos, professor contratado há 17 anos

Numa das minhas raras idas a casa, no último fim-de-semana, estive com o Zé Carlos. Um rapaz da província, como eu, que fez o Estágio Pedagógico em 1993 e desde então nunca conseguiu obter vínculo ao Ministério da Educação.
Passámos umas boas horas juntos na esplanada do Café Central. O Zé Carlos falou-me então da frustração que sente por, ano após ano, andar de escola em escola sem nunca saber como vai ser o seu futuro. Lembra-se como se fosse hoje da colocação extraordinária de todos os professores contratados com 5 anos de serviço que o Governo Guterres tinha decidido. O assunto ia ser aprovada no Conselho de Ministros, mas no Domingo anteriores Guterres demitiu-se e foi tudo por água abaixo.
Todos os anos, o Zé Carlos pede o subsídio de desemprego no dia 1 de Setembro e cancela-o poucos dias depois, logo que obtém uma vaga. Confiante, esperava ficar finalmente colocado, como professor dos Quadros, no concurso que o Ministério planeara para 2011.
Há 10 minutos atrás, o Zé Carlos telefonou-me a chorar. Ouvira na rádio que o Ministério, por razões orçamentais, decidira não fazer concurso em 2011. E ele, que todos os anos fica colocado logo no início de Setembro com horário completo, ficou desesperado. Afinal, se o Ministério precisa dele, porque não o colocam definitivamente? E se qualquer empresa é obrigada a efectivar um trabalhador ao fim de 3 anos, porque não faz o Estado o mesmo?
Frustrado, o Zé Carlos despediu-se de mim: Será que vou ter de esperar outros 17 anos?

O que o miserável Ministério da Educação está a fazer aos professores contratados

Não pode ser qualificado de outra forma senão desta: miserável. O que o Ministério da Educação, que por acaso é quem me paga, está a fazer aos professores contratados deste país ultrapassa todos os limites. Contratados inicialmente até 31 de Agosto, está a ser-lhes comunicado nesta altura que afinal o contrato não vai até 31 de Agosto e que terminou no momento da última reunião de avaliação.
Ou seja: assinas um contrato com uma entidade patronal até uma determinada data, mas de repente o patrão decide unilateralmente que o contrato vai terminar mais cedo. E avisa-te já depois dele ter terminado. E só te vai pagar até àquele dia. Qual direito a férias, qual direito aos prazos legais (aviso com uma semana de antecedência para contratos superiores a 6 meses), quais direitos laborais!
Num caso que me é muito próximo, a professora foi avisada que 5 dias antes, no dia exacto em que decorrera a última reunião de avaliação, o contrato tinha terminado. E ficou sem poder gozar férias porque o contrato acabou repentinamente. E por acaso estava em licença de maternidade.
Como é óbvio, os Sindicatos já entraram em acção.
Espera-se que algumas empresas privadas ajam dessa forma, aquelas de quem se espera tudo. Não se esperaria que fosse o próprio Estado a subverter desta maneira as regras do jogo. Há quem se esqueça que já foi professor, como a Ministra Isabel Alçada ou o director-regional do Norte, António Leite, que simplesmente ignorou as questões colocadas pelo Aventar – fosse um Encarregado de Educação a questioná-lo e o homem respondia no próprio dia.
É o mundo que muitos gostavam de ver concretizado. Trabalhadores sem qualquer direito e sindicatos simplesmente inexistentes. A Direita em todo o seu esplendor. Então não se vê, por este exemplo, como é forte a corporação dos professores?

P. S. – A propósito, na escola de um amigo, o funcionário encarregue dos vencimentos enganou-se no cálculo do vencimento de um professor e pagou-lhe 600 euros a menos. E agora? Pois, agora vai ter de esperar um mês para receber (sem juros) o que é seu por direito. E quem é que lhe vai pagar as contas durante o mês? Pois, os professores enquanto corporação são mesmo poderosos.