O comentador ignorante, uma espécie em vias de desenvolvimento


Mas afinal o que vem a ser isto?
Se a maior parte dos Portugueses que ficou sem trabalho, pode ser encaminhada para outras profissões ou emigrar, porque é que o pessoal que dá aulas, que enveredou, ou como se costumava dizer, seguiu a via de ensino, por não ter habilidade, habilitações ou pedalada para fazer outra coisa, não pode fazer o mesmo que os outros? Vá lá, se não os “colocam”, não estejam sempre à espera de ser “colocados”, atirem-se à vidinha, cá dentro ou lá fora.

Aqui

Diante de comentários como o que acima transcrevi, confesso que me sinto uma espécie de David Attenborough a observar o comportamento de elementos da fauna.

Assim, do mesmo modo que os leões cheiram sangue à distância, há, em Portugal, uma espécie a que podemos chamar commentator insipiens (qualquer coisa como ‘comentador ignorante’), que fica com as narinas frementes mal ouve um ruído conhecido por “queixas dos professores”. Não chegam, ainda, ao ponto de rugir como os leões, mas adoptam comportamentos tão previsíveis como estranhos. Ao contrário dos leões, no entanto, metem-se em assuntos que não dominam.

O commentator insipiens, como ser primário que é, começa, normalmente, por afirmar a sua indignação, chamando a atenção para o facto de que os professores não se devem queixar porque há outros que ainda estão pior (onde é que eu já escrevi isto? Ou terá sido aqui?). Ao espécime em causa não lhe passa pela cabeça que é de toda a conveniência que cada classe profissional se queixe do que a afecta ou do que afecta a sua área de actuação. Talvez o commentator fique mais descansado no dia em que os professores queiram explicar à humanidade os problemas que afectam os funcionários das Finanças. No fundo, é a transferência do comportamento típico das velhinhas que estão no centro de saúde a comparar as doenças: “A senhora partiu um braço? Olhe, teve sorte, que eu parti os dois e ainda tenho bicos-de-papagaio! A senhora devia era dar graças a Deus por ter partido um braço. O que eu não dava para ter agora um braço partido! Esteja mas é calada! Só porque tem o osso à mostra acha que pode estar para aí aos gritos!”

O commentator insipiens recorre, quase sempre, à generalização, que é, no fundo, uma forma de não argumentar. Sempre com o objectivo de demonstrar que as queixas não têm razão de ser, aproveita, ainda, a oportunidade para demonstrar que, seja como for, os queixosos não têm virtudes que lhes permitam exprimir qualquer queixa. No caso em análise, o espécime que frequentou a nossa caixa de comentários descobriu que só é professor quem não consegue fazer outras coisas, e isso, só por si, já seria razão suficiente para não ter direito a protestar.

É claro que o commentator insipiens sempre existiu e não é um exclusivo da blogosfera. Os exemplares existentes na actualidade foram alimentados pelos yuppies dos anos 80 e crêem numa espécie de marialvismo darwinista que os leva a defender que a sociedade é uma selva em que sobrevivem os mais fortes, cabendo aos governos o papel de dificultar o mais possível a vida a quem trabalha. Aliás, “condições de trabalho” é, para o commentator, sinónimo de mariquice. A selecção natural será simples: os melhores sobreviverão porque se atiraram “à vidinha”; os piores vão dar aulas.

Fácil se torna perceber que o commentator é, ao que tudo indica, da mesma família de muitos ministros. Diante das queixas destes inúteis, lá aparecerão vários exemplares a ulular. Dispensando-se de pensar, o commentator parece homo, mas não é, com certeza, sapiens. Um portuga, portanto.

 

Comments

  1. Pedro M says:

    Não é só com os professores, é com qualquer profissão mesmo do sector privado, pode ir de maquinistas a farmacêuticos que a maioria dos portugueses baba-se com a aniquilação de qualquer sector profissional, que entende sempre como mais privilegiado do que o seu, até chegar a sua vez (e chegará a vez de todos não tarda nada).

    Não sei se existe uma ciência que cruze a antropologia e a psiquiatria mas seria um belo tema de tese.

  2. Nightwish says:

    Concordo consigo. O post nem era sobre as regalias dos professores, era sobre a maneira como é desrespeitada a sua carreira profissional.
    Esta gente só está contente quando vir os outros espezinhados, mesmo que isso não lhe mude em nada a vida. E, de facto, não muda, porque a sobrevivência da economia não passa por estas merdas e muito pouco por este governo.

  3. Konigvs says:

    O que eu gosto de ver nas televisões é o comentador especialista em todas as matérias!! Creio que terá sido Rebelo de Sousa que iniciou este tipo de comentador. O homem que sabe de tudo, seja política, futebol, economia, tenis, golfe, moda, literatura, etc etc etc…só for preciso ainda saca do baralho de tarot e faz as previsões para 2012!
    Mas este comentador geração-espontânea reproduziu-se rapidamente!! Sousa Tavares, Marques Mendes, Carrilho, Nuno Rogeiro, seguiram-se e deve haver muitos mais!!
    O que eu gosto de ver o Rogeiro (que nos disse que afinal o massacre na Noruega deveu-se ao heavy-metal) a comentar futebol na BenficaTv… acho-lhe graça!!
    A este tipo de comentador basta pôr-lhes um microfone à frente, seja qual for o tema, eles arranjarão uma qualquer explicação brilhante!!

  4. Talvez seja a causa da Internet estar a ganhar à televisão, como fonte principal de notícia ao público.

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