Quem percebe de Educação? Os gestores, claro! (3)

Carlos Guimarães Pinto (CGP), apesar de se ter sentido ofendido com as minhas críticas, ainda se deu, generosamente, ao trabalho de contestar um outro texto meu.

Nesse seu sofrido comentário, continua a não responder a nenhuma das perguntas que lhe coloquei em qualquer um dos textos anteriores e faz deduções que são, no mínimo, cómicas.

Desta vez, vem armado até aos dentes com gráficos que, no seu entender, são suficientes para explicar a realidade, gráficos cujos dados, aliás, dependem da informação transmitida pelos governos, que, como se sabe, são entidades absolutamente competentes, impolutas e desinteressadas.

Em primeiro lugar, continua a não resistir ao fascínio do “rácio” professor-alunos, “rácio” esse que é suficiente para concluir que há professores a mais. É claro que, mais uma vez, CGP não explica, por exemplo, de que modo são contabilizados os professores. No entanto, a decisão de contratar mais ou menos professores não se pode limitar à comparação com outros países, mas, para compreender isso, lá está!, CGP teria de estudar mais. Ou melhor: teria de estudar.

Depois, atira mais umas tiradas, declarando, por exemplo, que os professores passam pouco tempo nas escolas a desempenhar outras funções para além das docentes, (como se fosse possível saber isso com base nos dados que utiliza), que os professores ganham mais do que alguém com as mesmas habilitações (o que não é o mesmo que dizer que os professores ganham bem) ou que os professores não andam a perder poder de compra. Continuar a ler “Quem percebe de Educação? Os gestores, claro! (3)”

Vítor Cunha rumo à Lua

rumoaluaConfesso que tenho um preocupante fascínio pela tendência do portuguesinho para se sentar a uma mesa de um café e discorrer, com mais ou menos álcool no bucho, sobre qualquer assunto, especialmente se não o dominar. Os blogues, na maior parte dos casos, não são mais do que tascas em que o mais ébrio tem a possibilidade e reclama o direito de falar sobre tudo aquilo que não entende. É, aliás, frequente, o bêbedo gritar “Eu sei muito bem o que estou a dizer e sou capaz de conduzir até casa ferpeitamente!”

Vítor Cunha talvez não beba, mas raramente está sóbrio e se há substância que o excita é o discurso da esquerda, especialmente se comunista. Se o comunista for sindicalista e se se chamar Mário Nogueira, Vítor Cunha – e a honestíssima trupe blasfemo-observadora, de uma maneira geral – fica num estado semelhante ao de Maradona depois de fungar aquilo que não era rapé. Se a religião é o ópio do povo, Mário Nogueira é a cocaína de Vítor Cunha: basta uma linha e a realidade é outra coisa.

Sob o efeito do seu estupefaciente preferido, Vítor apoiou-se ao balcão da tasca e arriscou umas alegorias com que julga explicar a questão da prova dos professores contratados. Apesar do meu fascínio pela miséria humana, é sempre com um misto de prudência e de compaixão que me afasto de quem não está em condições de perceber. De qualquer modo, a ignorância atrevida é uma outra forma de bebedeira. Continuar a ler “Vítor Cunha rumo à Lua”

O comentador ignorante, uma espécie em vias de desenvolvimento

Mas afinal o que vem a ser isto?
Se a maior parte dos Portugueses que ficou sem trabalho, pode ser encaminhada para outras profissões ou emigrar, porque é que o pessoal que dá aulas, que enveredou, ou como se costumava dizer, seguiu a via de ensino, por não ter habilidade, habilitações ou pedalada para fazer outra coisa, não pode fazer o mesmo que os outros? Vá lá, se não os “colocam”, não estejam sempre à espera de ser “colocados”, atirem-se à vidinha, cá dentro ou lá fora.

Aqui

Diante de comentários como o que acima transcrevi, confesso que me sinto uma espécie de David Attenborough a observar o comportamento de elementos da fauna.

Assim, do mesmo modo que os leões cheiram sangue à distância, há, em Portugal, uma espécie a que podemos chamar commentator insipiens (qualquer coisa como ‘comentador ignorante’), que fica com as narinas frementes mal ouve um ruído conhecido por “queixas dos professores”. Não chegam, ainda, ao ponto de rugir como os leões, mas adoptam comportamentos tão previsíveis como estranhos. Ao contrário dos leões, no entanto, metem-se em assuntos que não dominam.

O commentator insipiens, como ser primário que é, começa, normalmente, por afirmar a sua indignação, chamando a atenção para o facto de que os professores não se devem queixar porque há outros que ainda estão pior (onde é que eu já escrevi isto? Ou terá sido aqui?). Ao espécime em causa não lhe passa pela cabeça que é de toda a conveniência que cada classe profissional se queixe do que a afecta ou do que afecta a sua área de actuação. Talvez o commentator fique mais descansado no dia em que os professores queiram explicar à humanidade os problemas que afectam os funcionários das Finanças. No fundo, é a transferência do comportamento típico das velhinhas que estão no centro de saúde a comparar as doenças: “A senhora partiu um braço? Olhe, teve sorte, que eu parti os dois e ainda tenho bicos-de-papagaio! A senhora devia era dar graças a Deus por ter partido um braço. O que eu não dava para ter agora um braço partido! Esteja mas é calada! Só porque tem o osso à mostra acha que pode estar para aí aos gritos!” Continuar a ler “O comentador ignorante, uma espécie em vias de desenvolvimento”

Miguel Sousa Tavares: ignorante, irresponsável, inimputável ou pior?

O conteúdo da última crónica de Miguel Sousa Tavares já foi comentado aqui e aqui. Resumidamente, o cronista do Expresso comete duas inexactidões em duas afirmações, numa ilustração do adágio que diz “cada cavadela, cada minhoca”: os professores recebiam 25 euros por cada exame corrigido e, ao que parece, corrigiam os exames dos seus próprios alunos.

Para lá da necessária discussão sobre as novidades impostas pelo Ministério neste âmbito, fica, mais uma vez, demonstrada a irresponsabilidade de alguns comentadores pagos pelos meios de comunicação social. O mesmo Miguel Sousa Tavares que, ainda há pouco, proferira imprecisões sobre a manifestação de dia 12, volta a falar do que não sabe.

O poder não constitui um privilégio; é, antes, uma responsabilidade. Miguel Sousa Tavares junta a uma formação de jurista uma longa carreira de jornalista. Presentemente, exerce funções de comentador, o que é uma forma de poder. Se é certo que de um comentador se espera, evidentemente, uma opinião, isso não o exime de rigor na busca e na confirmação dos dados em que vai basear essa mesma opinião.

Miguel Sousa Tavares é lido por milhares de portugueses que ainda acreditam que estão a ler as opiniões de um antigo jornalista, ou seja, de alguém que sabe do que fala, de alguém que só fala do que sabe, de alguém que só fala quando sabe. Puro erro: Miguel Sousa Tavares faz um uso irresponsável, eventualmente inimputável, do poder que não sabe merecer.

Aconselha-se, portanto, os leitores do ex-jornalista a fazer, semanalmente, um trabalho que devia ser anterior à escrita e da responsabilidade de quem escreve: confirmar os factos.