O santo conveniente

Desde a sua prematura morte em 1980, que Sá Carneiro tem sido usado como evocação reverencial pela Direita portuguesa. Dado seu papel fundador do PSD, partido de referência no arco governativo e nessa invenção de impacto maior na política nacional chamada “Bloco Central”, com naturalidade que muitos foram os “sociais-democratas” que invocaram o seu pensamento político e o citaram em frases mais ou menos exactas em relação às originais. O mesmo se dizendo do CDS, com qual foi estabelecida a impactante AD, por vontade e esforço conjugados entre Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, e decorrente da comunhão trágica da morte de ambos.

Com o passar do tempo, assistiu-se a uma lógica de santificação política de Sá Carneiro, enquanto pensamento, acção política, intervenção histórica, etc. Algo perfeitamente natural, até porque houve um considerável período de sentimento de orfandade por parte do PSD que viu o seu líder fundador morrer em tão trágicas e prematuras circunstâncias.

Com a fragmentação da Direita nos últimos anos, donde emergiu o Chega e a Iniciativa Liberal, Sá Carneiro passou a ser uma espécie de santo conveniente, sendo invocado por tudo e por todos, de acordo com as conveniências de circunstância, as ambições de cada um. Todos querem ter na sua posse, uma imaterial relíquia de Sá Carneiro, legitimadora para o que dizem, defendem, propagandeiam, em exibição pública perante os fiéis. Não sendo um dente, um fio de cabelo, um sudário ou um pedaço de roupa, as relíquias são frases e, mais do que isso, certezas legitimadoras de que, se Sá Carneiro fosse vivo, ele pensaria da mesma forma, agiria do mesmo modo, e estaria ao lado de quem o invoca. [Read more…]

Arranja-se já um!

Falta só um milagre a João Paulo II para ser Santo

Santo Padre

Santo Padre

Peço humildemente perdão de me dirigir a Vossa Santidade desta forma, mas penso que Vossa Santidade poderia visitar todos os países que quisesse, nomeadamente o nosso, a expensas do Vaticano, como peregrino e não como imperador. Penso que nem Vossa Santidade nem a Igreja ganham nada com isso em termos morais. Mas também penso que não é a moralidade, na sua verdade e essência que preocupa a Igreja, mas outras ambições bem menos louváveis.

Penso que Vossa Santidade, sobretudo depois do sermão do Angelus sobre ambições e bens materiais, não deveria aceitar luxos de qualquer espécie, nem sequer o palanque do Rui Rio, pago por nós, e rezaria missa em dois ou três daqueles bancos de jardim que o Siza Vieira arrancou da Avenida, arranjados e enfeitados para o efeito.

E pediria ao Siza Vieira para plantar junto aos bancos meia dúzia de metros quadrados de relva a fim de Vossa Santidade poder ajoelhar sem magoar os joelhos na pedra ou cimento duro daquela eira que ele ali estendeu. [Read more…]