Ser humano é praticamente impossível

Graças ao magnífico programa de Joanna Lumley sobre o Reino Unido, fiquei a conhecer a história de Richard Moore, o homem que ficou cego aos 10 anos, em Derry, atingido por uma bala de borracha saída da espingarda de um soldado britânico na Derry (Londonderry para os unionistas) de 1972, no mesmo ano do Domingo Sangrento. Na mesma cidade do Domingo Sangrento.

Moore foi o rapaz que nunca mais viu os pais e que soube ser humano quase até à impossibilidade. Quem não ficaria prisioneiro de um ódio compreensível, tolerável, quase necessário? [Read more…]

Perdoa-me

Enquanto uns lutam por perdões de dívida, outros conseguem-no nos tribunais portugueses. Hoje foi a vez (outra vez) de João Rendeiro. A culpa continua a morrer solteira.

os trabalhos que dou à mulher que amo

a cor desta flor é a do amor distraído

Nós, homens, mal sabemos tratar das nossas pessoas.

Não escrevo esta frase com desapreço a nós varões, de qualquer orientação sexual. Em tarefas domésticas, somos um desastre. Em relações amorosas, desatinados. Oferecemos uma flor e justamente escolhemos a que a nossa mulher não gosta. Não é por maldade, é por andarmos sempre a pensar no Benfica, no nosso trabalho, ou, ainda, a olharmos para uma mulher bonita que passa, o que me cheira a um quase adultério.

As nossas mulheres tratam de nós e de todos estes dissabores para os quais nunca fomos ensinados. Assim como não há escola de pais, não existem escolas de maridos, amancebados ou amantes. O difícil é demonstrar à nossa mulher o quanto a amamos. Porque nós, homens, vivemos, desde o Concílio de Trento, numa eterna gaiola

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O Ramadão do Natal

o natal dos muçulmanos é o mes do arrepentimento e do perdão

Dois conceitos diferentes dentro de uma aparente contradição. Ramadão, luto islâmico para comemorar a festa da vida que salvaria o mundo ou concepção do Alcorão a Mamede pela sua divindade; Natal, festa cristã a seguir ao Anuncio ou Advento, a melancolia prévia à comemoração de um Nascimento que salvaria a vida humana. Como acontece no quotidiano da vida. Como acontece a esse puto que pergunta à sua avó: é verdade que vais morrer e ela responde: Gostaria que fosse possível salvar a minha vida e te acompanhar sempre!?. Ramadão e Advento do pequeno ao entender, com surpresa, que uma mulher nova e querida o vai abandonar e nada mais lhe vai contar, dizer, acarinhar, beijar. Contar essas histórias que entretêm o mais novo, acarinhar ao passar as mãos pelo cabelo, ao dizer que lindo que está meu menino, tão bem penteado por mim, e o puto orgulha-se dessa vida tão activa que trata da sua. Começa o Ramadão, talvez cumprido, talvez distante, mas de certeza triste. Jejum e abstinência, como no Advento. Porque é-lhe dito que a avó estará sempre com ele, em [Read more…]

Santo Padre

Santo Padre

Peço humildemente perdão de me dirigir a Vossa Santidade desta forma, mas penso que Vossa Santidade poderia visitar todos os países que quisesse, nomeadamente o nosso, a expensas do Vaticano, como peregrino e não como imperador. Penso que nem Vossa Santidade nem a Igreja ganham nada com isso em termos morais. Mas também penso que não é a moralidade, na sua verdade e essência que preocupa a Igreja, mas outras ambições bem menos louváveis.

Penso que Vossa Santidade, sobretudo depois do sermão do Angelus sobre ambições e bens materiais, não deveria aceitar luxos de qualquer espécie, nem sequer o palanque do Rui Rio, pago por nós, e rezaria missa em dois ou três daqueles bancos de jardim que o Siza Vieira arrancou da Avenida, arranjados e enfeitados para o efeito.

E pediria ao Siza Vieira para plantar junto aos bancos meia dúzia de metros quadrados de relva a fim de Vossa Santidade poder ajoelhar sem magoar os joelhos na pedra ou cimento duro daquela eira que ele ali estendeu. [Read more…]