Nem mentir sabem ou só sabem mentir

 A austeridade imposta pelo governo é necessária, como já foi amplamente demonstrado e como o futuro demonstrará. Vivemos todos acima das nossas possibilidades. Os sacrifícios estão distribuídos de maneira equilibrada pelos cidadãos portugueses. Estas e outras mentiras foram afirmadas por membros do actual governo, depois das promessas de Passos Coelho em campanha eleitoral.

Tinha ficado estabelecido que os cortes dos subsídios de férias e de Natal teriam lugar em 2012 e em 2013. O Ministro das Finanças, hoje, confirmou isso. Passos Coelho, posteriormente, declarou que a reposição desses mesmos subsídios só terá lugar em 2015 e disse-o como se nunca tivesse ficado estabelecido que o corte terminaria em 2013.

Na televisão, dois comentadores, face a esta situação, começaram por se preocupar com a descoordenação do governo e soltaram alguns lamentos compreensivos. [Read more…]

O pior surdo é o que não quer ouvir a História

A História não permite, obviamente, adivinhar o futuro, mas, à custa de tantas repetições escusadas, já se percebeu que o Homem é um mau aluno da disciplina que Cícero considerou a mestra da vida.

O estudo referido pelo Diário de Notícias deve, portanto, ser lido, no mínimo, como um aviso, como mais um instrumento para compreender os dias em que vivemos. Os mesmos autores do estudo, escreveram acerca dos motins ocorridos este ano em Londres, analisados pela direita com um conveniente simplismo.

Entretanto, todos os dias se confirma que os governantes europeus e mundiais não são mais do que títeres dos muitos interesses privados que mandam na política, tudo assente em máquinas publicitárias poderosíssimas que tentam convencer o povo iliterato de que os direitos dos trabalhadores são privilégios intoleráveis e que foi graças a esses ditos privilégios – e não à corrupção institucional – que há dificuldades financeiras. O sempre disponível e hilariante Ramiro Marques chega, neste texto, a contar – eventualmente mal – uma história de excesso de fotocópias numa escola, deixando escapar a ideia de que foram atitudes destas que levaram o país à bancarrota, esquecendo os gastos que, ao longo de vários anos, os professores têm tido, para que possam exercer a sua actividade.

O entremez em que o PS aceita participar, abstendo-se de votar contra o orçamento, tem em Miguel Relvas um compère à altura, anunciando a possibilidade de, afinal, cortar apenas um dos subsídios dos funcionários públicos. Como é evidente, trata-se da velha estratégia de anunciar o péssimo para que o mau pareça bom. Vindo de quem vem não me espanta e não me espantará que muitos continuem a deixar-se enganar, agradecendo a Passos Coelho o favor de cometer apenas uma inconstitucionalidade em vez de duas.

O lobo com pele de Coelho

São várias as razões, das altruístas às egoístas, que me levam a pensar em todo o vernáculo que deveria usar para exprimir aquilo que penso e aquilo que sinto, duas coisas que normalmente distingo, ao contrário do que acontece hoje, depois de ter sido, mais uma vez, roubado pelo mesmo bando que me anda a roubar há mais de trinta anos, alternando siglas. Passos Coelho nem sequer é o macho alfa da alcateia, é apenas um pobre roedor que os chefes mandam à frente.

Entretanto, podemos ver aqui alguns pobres assalariados que têm andando a perorar sobre a necessidade de nós, os outros, fazermos sacrifícios, sempre sentados no dinheirinho que têm retirado da máquina registadora, antes, quando estavam na gerência, e agora, quando mandam no gerente.

Ao melhor estilo abrantino, agora em tons laranja, Pedro Correia repete um refrão já conhecido: a culpa foi dos outros antes de nós. Os que se aproveitaram das corporações, sem sequer disfarçar o cheiro salazarento, exigem que o povo aguente. Pois.

De repente, apetecia-me que o voto deixasse de ser secreto e que os votantes se submetessem a pagar o dízimo exigido por aqueles que elegessem, já que tanto acreditaram que esta seita iria resolver-lhes a vida. Pela minha parte, vivo com a consciência tranquila: eu não tenho culpa, não votei neles. Em nenhum deles.