O pior surdo é o que não quer ouvir a História

A História não permite, obviamente, adivinhar o futuro, mas, à custa de tantas repetições escusadas, já se percebeu que o Homem é um mau aluno da disciplina que Cícero considerou a mestra da vida.

O estudo referido pelo Diário de Notícias deve, portanto, ser lido, no mínimo, como um aviso, como mais um instrumento para compreender os dias em que vivemos. Os mesmos autores do estudo, escreveram acerca dos motins ocorridos este ano em Londres, analisados pela direita com um conveniente simplismo.

Entretanto, todos os dias se confirma que os governantes europeus e mundiais não são mais do que títeres dos muitos interesses privados que mandam na política, tudo assente em máquinas publicitárias poderosíssimas que tentam convencer o povo iliterato de que os direitos dos trabalhadores são privilégios intoleráveis e que foi graças a esses ditos privilégios – e não à corrupção institucional – que há dificuldades financeiras. O sempre disponível e hilariante Ramiro Marques chega, neste texto, a contar – eventualmente mal – uma história de excesso de fotocópias numa escola, deixando escapar a ideia de que foram atitudes destas que levaram o país à bancarrota, esquecendo os gastos que, ao longo de vários anos, os professores têm tido, para que possam exercer a sua actividade.

O entremez em que o PS aceita participar, abstendo-se de votar contra o orçamento, tem em Miguel Relvas um compère à altura, anunciando a possibilidade de, afinal, cortar apenas um dos subsídios dos funcionários públicos. Como é evidente, trata-se da velha estratégia de anunciar o péssimo para que o mau pareça bom. Vindo de quem vem não me espanta e não me espantará que muitos continuem a deixar-se enganar, agradecendo a Passos Coelho o favor de cometer apenas uma inconstitucionalidade em vez de duas.

Comments

  1. Carlos says:

    Amigo Nabais: pretende convencer-nos de que não há desperdício na administração pública? Olhe que há desperdício, e muito. E também há quem, frequentemente, se julgue no direito de tirar fotocópias para os filhos, evitando comprar as sebentas. Nos filhos que têm a estudar na universidade, claro. E fotocópias de receitas de cozinha, e de piadas de caserna, e de tudo, porque tudo é nosso. Mas o povo é que paga, a maioria não comendo à mesa do orçamento. Essa é que é essa!

    • António Fernando Nabais says:

      Há, com certeza, desperdício, mas quererá o amigo Carlos convencer-nos de que foi o chico-espertismo dos que fotocopiam sebentas para os filhos que levou o país à bancarrota? O que o povo está a pagar é a destruição cavaquista do tecido produtivo, as obras megalómanas como o CCB ou os estádios do Euro, as parcerias público-privadas, os contratos leoninos com as concessionárias das SCUT, etc. Do ponto de vista ético, aproveitar uma fotocopiadora pública em proveito privado é feio, mas, por outro lado, o meu carro já transporta um funcionário público para o emprego há anos e o Estado não me deu um tostão por isso.

  2. MAGRIÇO says:

    Claro que há desperdício na administração pública, por parte de funcionários, que deve ser combatido, mas referir isso e esquecer as mordomias – perdão, as “subvenções” – dos directores, dos chefes, dos políticos retirados ou no activo, dos ex-governantes e outros figurões que acumulam grandes reformas, é mostrar a árvore e esconder a floresta.