Ensino público e mama privada

Alexandre Homem Cristo chora o corte de 70 milhões nos subsídios ao ensino privado. Diz que é socialismo. E manda três argumentos para o ar sem ter medo que lhe caiam em cima, situação vulgar quando se fala do que não se sabe.

Primeiro acha as escolas com contratos de associação serviam para tapar buracos, e pergunta “se nessas zonas já existiam escolas a funcionar na rede pública, porque razão foi o Estado aí construir mais escolas?”. Eu explico-lhe: na maior parte dos casos não foi por falta que escolas da rede pública que se deu da mamar às privadas, foi porque as privadas e o Ministério da Educação inventaram essa necessidade. Na zona de Coimbra, e durante o reinado da viúva de Mota Pinto na DREC nasceram que nem míscaros  no Outono, concorrendo directamente com as escolas públicas. Como foram patrocinadas por PSD e PS nunca mais ninguém se lembrou que era uma absurdo a sua existência. Se for preciso faço-lhe um mapa. Acresce que há menos alunos no ensino básico por razões demográficas. Também se arranja um gráfico se for preciso.

Depois acha que saem mais baratas ao estado. “Estas escolas têm de prestar contas e correm o risco de não ver o seu contrato renovado em caso de má gestão. A isto chama-se accountability e, lamentamos informar, é algo que não existe nas escolas estatais.” Olhe que não:

– as escolas, públicas ou privadas, têm como principal custo fixo as despesas de pessoal. Ora estas são semelhantes no público e no privado. No privado há ainda uma despesa a não desprezar: o lucro, que é a razão de ser de uma escola privada.

– as escolas privadas não prestam contas financeiras ao estado: recebem x por aluno, e com isso é suposto prestarem o serviço, e arrecadarem o lucrozinho.

– arranje lá uma escola privada que tenha visto o seu contrato denunciado pelo estado por má gestão? uma chega.

– as escolas públicas prestam contas ao estado: têm um orçamento, estão limitadas na sua acção por ele, e seus directores são avaliados e sujeitos a procedimento disciplinar caso se excedam nas despesas. A ideia de que aquilo é só gastar pode viver na cabeça do Alexandre, não vive é na realidade deste mundo.

O terceiro argumento é o único válido: a célebre liberdade de escolha. É válido porque é ideológico, e isso respeita-se. Está é fora da realidade porque nestas escolas privadas a possibilidade de seleccionar os alunos está muito limitada, razão porque andam no fundo dos rankings, (um exemplo no concelho de Pombal) tal como as públicas, e porque nenhum pai consciente e informado faz especial questão de ali meter os seus filhos. As da liberdade de escolha são outras escolas privadas.

Claro que também tenho umas ideias, ideológicas, sobre o estado sustentar  empresas privadas, sobretudo quando pode prestar o mesmo serviço sem aparecer no meio o tal lucrozinho.  Mas nem vale a pena falar mais nisso, que começando na Lusoponte e acabando em hospitais bem conhecidos, a lista era longa e nunca mais acabava.

Sobre este assunto pode ainda ler-se a jornalista Barbara Wong a meter os pés pelas mãos numa caixa de comentários. Também queria ensino privado para os seus  meninos. Ah, e que eu lho pagasse.

Comments


  1. “Também queria ensino privado para os seus meninos. Ah, e que eu lho pagasse.”
    Ora, nem mais!!
    Já chega o Saque que o Piaget fez … não digo mais nada para não me irritar …


  2. “andam no fundo dos rankings”
    Olhe que não é bem assim. Umas nos fundos e outras sempre no topo (consecutivamente há muitos anos).

    Apenas uma pergunta. Se não fosse o tal de lucrozinho, com os inerentes impostozinhos, a impoluta actividade pública do Estado seria paga por quem?


  3. É assim: estamos a falar de escolas privadas que contrataram com o estado receber todos os alunos da sua área geográfica. As outras, que não são subsidiadas, escolhem os seus alunos, e naturalmente ocupam lugares no topo dos rankings.
    Quanto a quem paga o estado, não me venha dizer que são as empresas que usam todos os truques para não pagar impostos.

  4. Paulo Tomé says:

    Pois é!Todos os pontos de vista podem ser defendidos!
    Os professores do chamado público esqueceram que fizeram anos a fio para o estatuto e “fama” dos professores? Desde artigos a torto e a direito, dias livres, férias de 2 meses, programas leccionados a metade, incompetência na leccionação…
    Também é estranho que o DL75, obrigue os agrupamentos a assumir projectos de autonomia!!! Qual foi a escola,dita pública, que assumiu este dever (pelo menos intelectual) já decretado no 115?? Tiveram receio? Quantas vezes teve a DREC que nomear executivos? Porque razão os camaradas não assumem que há professores e professores? Que existe competência e incompetência? Os colégios escolhem os seus professores de acordo com a competência destes e têm resultados! Prestam melhor serviço público? Ou serão as escolas públicas?
    Que bom, entrarmos todos num concurso em que a bitola é a mesma!!!! É professor? Não se pergunta o que fez, o que pensa, o que quer para o ensino…nada!!!! Vem de que faculdade? Com que notas? O que fez entretanto? Nada!
    Andam uns gajos a gastar dinheiro em recursos humanos e nós, professores, com um sistema de recrutamento tão perfeitinho!!!!
    Enfim…


  5. Tive uma colega que depois de leccionar 26 horas numa escola pública ainda ia vender mais 10 horas a um colégio privado.
    Aquilo é que era uma qualidade de ensino…
    Já agora explique-me o que fazem os professores do privado quando não há actividades lectivas: limpam o pó?

  6. Paulo Tomé says:

    Teve um camarada que dava 36 horas lectivas!!!!!!!!!
    Foi na altura em que todos mamavam!!!!
    Tanto o fizeram que estamos onde estamos!
    Quando não há actividades lectivas trabalhamos pela qualidade de ensino! Sabe, o meu pai trabalhou a vida inteira com um motosserra na mão, ao calor, frio, chuva…acabou com o corpo todo destruído e como coração grande….demais! Ganhou a vida inteira o ordenado mínimo! Agora tem uma reforma para “gozar”,mas por pouco tempo, não se preocupe!
    Já o Dr. … Todo o trabalho honesto tem valor! Limpar o pó!? É assim tão demeritório?! Os drs. de Coimbra assim o devem pensar!
    Quanto à qualidade, meu caro, apresente dados! Por que razões não conseguem? Responsabilidades?! Não! O que querem? Avaliados? Não! Concorrer por resultados? Não! Assumir projectos de autonomia? Não! O que querem? Um eterno PREC??? Uma desresponsabilização total? Pois!

  7. Paulo Tomé says:

    Dr. João, eu sou um professor criado e nascido depois do 25 de Abril! Não tenho pruridos com ainiciativa privada! O que deveria pensar, desculpe o conselho, era como dotar, apetrechar o nossso ensino com qualidade…Todo o ensino! Deixe-se de guerrilhas sem sentido, de brigas de recreio! Uma charada, apenas mais uma charada de um governo que nunca devia ter vistoa luz do dia! Estão a partir, quase nazis, com a invasão soviética no encalço, tentando à pressa fazer o que nunca fizeram, apagar e destruir o que puderem, assasinando sem critério!!! Estranho?!?!!? Não?
    Deveria discutir os ataques feitos com o novo pacote que aí vem para a sua escola! Olhe que a mim isso preocupa-me!


  8. “É assim: estamos a falar de escolas privadas que contrataram com o estado receber todos os alunos da sua área geográfica”

    Eu, enquanto cidadão de segunda (porque professor da reles privada me confesso) percebi. O que afirmo e reafirmo é que existem escolas privadas que contratam com o estado, que recebem todos os alunos, mas mesmo todos, e continuam ano após ano no topo. E olhe que me dá cá um gozo…

    Quanto aos impostos temos então um verdadeiro enigma. Se não é a iniciativa privada que através dos lucros e dos bens e serviços produzidos sustenta o Estado, então quem é que o sustenta? Não me diga que são os mercados, os especuladores, os alemães ou outros que tais.

    Quanto aos seus colegas que iam aos colégios fazer uma perninha, o que já não acontece, folgo em conhecer a sua opinião. Os outros que não iam à privada, mas se fechavam em casa a dar explicações, a recibo incolor, é que devem ser considerados de verdadeiros exemplos.

    Para terminar, 5000 professores públicos do quadro no olho da rua é ainda pior do que no fascismo, 5000 professores do privado na rua é…secar a mama.

  9. Paulo Tomé says:

    “Eu, enquanto cidadão de segunda (porque professor da reles privada me confesso) percebi. O que afirmo e reafirmo é que existem escolas privadas que contratam com o estado, que recebem todos os alunos, mas mesmo todos, e continuam ano após ano no topo. E olhe que me dá cá um gozo…”
    Pois, eu também sou professor de 2ª! Neste sistema educativo há professores e depois há professores de segunda! Devem ter o 12.º ou são bacheréis, uma rapaziada que fez a profissionalização em serviço, rapaziada sem jeito para mais nada concerteza…daí serem de segunda!
    Prestaram serviço público? Não interessa.
    Prestaram melhor serviço público? Não interessa, são de segunda!
    Liberdade, igualdade e fraternidade entre os professores? Hããããã,???? O que é isso?!!?!?!!?!
    É bom saber o que somos e com que contamos! Basta ler o “fim da mama”….


  10. Até posso estar desactualizado, mas os professores do privado não podem concorrer ao público, sendo para isso contabilizado o tempo de serviço prestado?

  11. maria fidalgo says:

    Sr. João José Cardoso,

    não, não pode. um professor do privado que faz tudo o que é preciso na escola, de tudo mesmo e sempre de sorriso no lábios, a preço inferior ao do estado, se quiser concorrer para a escola pública poderá fazê-lo atrás de qualquer menino acabadinho de licenciar. uns trabalham os outros… são os bons!!

  12. Ricardo Santos Pinto says:

    Maria Fidalgo, isso não é verdade. O tempo de serviço no privado conta tanto como no público.
    Ainda no ano passado uma amiga, que dava aulas há uns 20 anos no privado, foi colocada numa escola pública. À frente de muitos «meninos acabados de licenciar». E muito bem.

  13. Coimbra says:

    Como se justifica que um colégio de Coimbra, em São Martinho do Bispo, com contrato de Associação, situado a menos de 8 km da escola oficial mais próxima (ao contrário do que a lei obriga para o estabelecimento destes contratos!!!!!!), beneficie dos subsidios previstos para as zonas carenciadas, e que continue a sugar literalmente os alunos da Escola Sec. D. Duarte (onde existem horários Zero em quase todos os grupos de ensino!!!) e de outras escolas publicas na região…

    Como se justifica o subsidio neste caso????? esta escola não supre nenhuma necessidade da rede de ensino, antes pelo contrário está a parasita-la!

    Onde estas escolas não forem essenciais para o serviço público, quem quiser ter um colégio privado que assuma o risco económico. Ou estarei a ver mal a questão?

  14. Laura Faro says:

    Olhe que não, Ricardo! Até pode ter ficado colocada, resta saber onde e a posição que lhe foi atribuída… Os professores do particular ficam no fim da lista durante dois anos!!! Leu bem: dois anos para desvincular! Acha bem?

  15. Ned Ludd says:

    Pelo que me parece, o Colégio S. Martinho, segundo os jornais, ficou no top 5 nos rankings do Distrito de Coimbra!
    E o tal D. Duarte??????
    Fazem ensino público de qualidade…pela lógica, deveria-se acabar mas era com os maus ….

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