A Barragem do Tua não é uma Barragem

Aborrece-me vir aqui desvendar segredos de estado mas, na verdade, não posso compactuar com as injustiças com que têm sido tratados os nossos iluminados governantes. O segredo tem permanecido guardado para não ser roubado pelo Duero espanhol, pela região francesa de Champagne ou, até, pelos italianos da Provincia del Chianti que, como sabemos, são sempre imitadores das boas coisas lusas.

Que a electricidade fornecida pela chamada Barragem do Tua será pouco mais do que residual, é facto conhecido. Claro – desvendo eu aqui -, precisamente porque aquilo não é, sequer, uma barragem, pelo menos tecnicamente falando. Aquilo, é a pedra de toque de um projecto nacional que ofuscará para sempre as Disneyland e as Isla Magica deste mundo: o Tualand, um gigantesco parque de diversões que encherá o Douro de turistas e de oportunidades sem fim.

Mas aproveito o balanço e revelo o segredo completo: há muitos anos que o Douro não consegue esgotar a totalidade dos seus vinhos, especialmente no que toca ao vinho fino, o chamado vinho do Porto. Os milhões de litros guardados em barricas, dispersos um pouco por todo o vale, têm, assim, pouca utilidade, para além das dificuldades logísticas e elevados custos de armazenamento.

Ora, o Tualand vem resolver todos esses problemas de forma absolutamente inovadora, criando a primeira albufeira de vinho tinto do mundo. Para além do grande lago de vinho a nascer junto ao muro de betão, onde, por quantias simbólicas, se poderá beber, nadar, praticar viela (desporto à vela em superfície de vinho), etc., haverá um sem fim possibilidades à escolha dos turistas.

O arquitecto coordenador do projecto, Souto Moura, tem entre mãos planos para Tualand Spa & Beauty, Tualand Pools (piscinas cheias de vinho do Porto, cobertas e ao ar livre), Tualand Golf Resort (golfe entre vinhedos), Tualand Fine Wine Hotels (um conceito de nicho), Tualand Magic Experience (um parque de diversões capaz de pôr a cabeça de qualquer um a andar à roda, especialmente no chamado “carrocel de tintos”) e os Empreendimentos Tualand (um projecto imobiliário de luxo com vista para o pôr do sol sobre um paradisíaco lago cor de vinho).

Segundo alguns especialistas, existe uma forte probabilidade de que o peixe aí pescado venha já temperado, pelo que se estuda a possibilidade de abrir, nas redondezas, alguns restaurantes Tualand Gourmet e, para turistas menos abonados, os futuramente famosos Tualand Grill e os McTualand.

Se soubesse tudo isto (que ainda não sabe) a UNESCO estava caladinha. O próprio Tualand há-de vir a ser Património da Humanidade, essa é que é essa.

Comments

  1. Silvério Coutinho says:

    Clap!Clap!Clap!Clap!Clap!
    Brilhante!

  2. maria celeste ramos says:

    É preciso muita “arte” para se ter feito o que se fez e apregoar as vantagens de ter feito e insistir a fazer mesmo depois da declaração unesco – só num país de indigentes políticos e culturais – indigência assustadora – e insistem – nem o mais atrazado país do mundo é tão indigente –


  3. Realmente se não aproveitarmos para fazer humor, não restará mada que se possa aproveitar…
    Vai vir charters de bêbad… alcoo…TURISTAS, para desfrutar do maior lago de vinho do mundo, e aproveitar para visitar a maior central eléctrica enterrada do Souto Moura, e conhecer os mais afoitos políticos, para os quais qualquer obra na terrinha é melhor do que manter e divulgar o que já têm de melhor!
    Qual património mundial qual quê, o que interessa é grandes construções de betão!

  4. Tito Lívio Santos Mota says:

    nadar em vinho do Porto dá dores de cabeça 🙂

    Espero que seja maduro tinto !

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