Fernando Ruiz Vergara 1942/2011

Só hoje soube da morte do meu amigo Fernando Ruiz Vergara, realizador do único filme censurado e sequestrado durante a transição espanhola, ainda hoje proibido em Espanha na sua versão integral.

Conheci o Fernando há quase vinte anos. Durante praticamente dezena e meia tivemos uma relação de grande proximidade. Conhecemo-nos bem, dentro daquilo que é possível uma pessoa conhecer de outra pessoa. Vi-o rir-se, zangar-se, comover-se, chorar, ouvi-o contar histórias, muitas histórias, ouvi-o contar a sua história, ouvi-o contar a história de Rocio.  O Fernando fez um filme que o fez “exilar-se” outra vez em Portugal, já no pós-franquismo.

Ainda  se enchia de raiva e de comoção quando falava nisso.

Fomos amigos.

Às vezes zangávamo-nos.  Tudo com o Fernando era intenso, as alegrias, os deslumbramentos, as raivas, as revoltas, as inquietudes, as amizades, as recusas.

O Fernando, às vezes, exilava-se a ele próprio, uma espécie de exílio dentro do exílio. Foi, creio, num desses processos que um dia foi viver para Escalos de Baixo, na Beira Interior. Visitei-o aí, passámos uns dias juntos numa casinha submersa por enormes sobreiros mas onde se pressentia que, partidas as visitas, regressaria uma enormíssima solidão. Foi a última vez que o vi, tinha projectos, o Fernando tinha sempre projectos, mas desta vez, mais apaziguado, para um novo filme.

Curiosamente foi durante esse período que começou a ser relembrado, especialmente no seu país natal, onde não queria voltar a viver (tal como Saramago e pelo mesmo tipo de razões, migrando cada um em sentido contrário). Aqui e ali começaram a fazer-lhe homenagens, a convidá-lo para conferências, a mostrar Rocio e a recordar a sua luta, etc. A sua morte trouxe-lhe o reconhecimento tardio e um lugar na história do cinema espanhol.

Homenagear-te, Fernando, posso apenas de duas maneiras:

Passar o teu filme proibido (infelizmente só tenho acesso à versão censurada)

e imaginar-te onde quer que te encontres, com esse feitio extremo que tinhas, a rir até às lágrimas ou comovido que nem uma madalena, ou então a barafustar, sério e enraivecido, no teu velho portunhol – no me rompas los cojones, macho, caralho!

PS: Devíamos ter feito aquela viagem à Austrália que levámos meses a planear com a Sónia, caraças. Assim que for possível, prometo-te comer uns boquerones de Huelva, com um vinho tinto alentejano e umas fatias de pão caseiro algarvio, essa mistura dos lugares de que gostavas. Descansa em paz, Fernando.

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