O coração do Porto

take away coração

As gentes do Porto sempre tiveram bom coração.
Mostraram-no quando ficaram com as tripas e ofereceram todas as carnes nobres aos seus navegadores que partiam para conquistar Ceuta.
Provaram-no quando apoiaram incondicionalmente a luta liberal, mostrando uma bravura e uma invencibilidade únicas durante o cerco das tropas de D. Miguel – O Cerco do Porto – agora nome de uma zona considerada pouco nobre. Esta coragem valeu-nos outro grande coração, o de D. Pedro IV que, na hora de partir, doou o seu, apaixonado que estava pela paixão dos portuenses em defender aquilo em que acreditavam.
Fazem dele prova diariamente, quando, sem esperar agradecimentos, auxiliam um semelhante, alguém que necessita de apoio, ainda que seja com o simples gesto de ajudar a atravessar a rua ou indicar aos forasteiros como se vai para qualquer lado.
Quando me encontro ou simplesmente falo com pessoas de outras regiões ou mesmo com estrangeiros ou residentes noutros países, a ideia que me transmitem é sempre a de uma cidade granítica, escura, misteriosa, apaixonante, com habitantes airosos, simpáticos, prestáveis que, embora apressados, estão atentos aos outros e tentam ajudar conforme podem.
Tenho um primo que, embora Francês, sempre que pode regressa a Portugal, não às belas e aprazíveis praias Algarvias, não à luminosa e grande Lisboa, não à magnífica e ilustre Coimbra, mas ao Porto. O Porto é quase um dependência. Um vício que ele não consegue evitar. Veio aqui concluir a sua primeira maratona. Fez questão de que assim fosse.
Foi a primeira cidade Portuguesa que apresentou à sua amada, a mulher com quem partilha a vida e dois filhos.
Será a primeira cidade Portuguesa a quem apresentará os seus filhos, orgulhoso de lhe correr e de lhes correr sangue Português, sangue portuense nas veias. Esse sangue que contribui para que todos eles tenham também um grande coração.
As manifestações de amor ao próximo tão indissociáveis de ser portuense estão diariamente presentes em diversos gestos.
E é esse grande coração que dá nome a uma das mais conhecidas instituições da cidade. Essa instituição, que diariamente alimenta quem dela precisa, abriu recentemente um novo serviço que pretende ajudar muitas famílias a conviver com algo que é sinal dos tempos modernos e da nova escravatura social: a precariedade e o desemprego.
O serviço de Take-Away do Coração da Cidade apoderou-se de um conceito que surgiu de forma galopante em Portugal, procurado sobretudo por famílias de classes médias, com progenitores, sobretudo mães, que trabalham arduamente durante muitas horas, demasiadas horas e ficam sem tempo para cozinhar para a família. Trata-se de um conceito burguês? Claro que sim, mas se temos pouco tempo para as tarefas domésticas e se há locais onde comprar refeições de alguma qualidade a preços pouco elevados, por que não aproveitar? Por que motivo havemos de ser como as nossas mães que se levantavam às seis da manhã para adiantar o jantar? Ou que se deitavam às duas da manhã para nos deixarem o almoço do dia seguinte já prontinho e o jantar adiantado?

Pois o Take-Away do Coração da Cidade nada tem de burguês. Destina-se a famílias apanhadas pela crise, abandonadas pela Segurança Social, escravizadas pela precariedade dos trabalhos temporários e/ou a recibos verdes e sempre, sempre mal remuneradas. Estas famílias, muitas vezes já sem electricidade ou gás que lhes permita cozinhar as refeições, poderão, agora, recorrer a este serviço, adquirindo as suas refeições a preços simbólicos: 1,50€ para uma pessoa e mais 0,50€ para cada elemento extra. Ou seja, se se adquirir uma refeição para duas pessoas, esta terá um custo de dois euros. Para três pessoas, o custo será de 2,50€.
Para poder usufruir do serviço, é necessário que as famílias se inscrevam, apresentando documentos que atestem a situação de carência. É-lhes, então, fornecido um cartão com o qual podem ir buscar o jantar para o agregado familiar e comê-lo em sua casa. A refeição é composta por sopa, prato principal (60 pratos variados ao longo do mês), sobremesa e pão.

Transcrevo excerto do email que me foi enviado em resposta ao meu pedido de esclarecimento sobre a forma como se processa o serviço:

«este serviço de TAKE AWAY é dirigido às pessoas que recentemente se encontram numa situação económica muito difícil decorrente de uma acção de desemprego ou de emprego precário…,
oferece refeições num horário entre as 18 e as 20h, de segunda a sábado…
Os utentes que nos procuram são de diferentes localidades desde que estejam em situação de se poderem deslocar até nós… (…)
Neste momento necessitamos com urgência de óleo alimentar…
(…)
Em termos de equipamentos, fazia falta uma SERRA OSSOS, para partir carne ou peixe, congelados…e um balcão ou armário de sobremesas com frio…
(…)
os apoios financeiros para nós também são necessários, já que as despesas fixas mensais são muito elevadas… quem pretender ajudar pode fazê-lo para 0033000000 239551298 05 … banco Millenium BCP…»

Pelo que sei, para além do dinheiro sempre necessário e do óleo alimentar, todos os ingredientes para cozinhar uma refeição fazem falta, assim como as embalagens de alumínio nas quais as refeições são embaladas. E fazem falta também braços que possam ajudar durante a tarde. Para já, são 12 os voluntários que se dedicam a preparar as refeições das famílias, mas mais fazem falta. Até porque se pretende alargar o fornecimento de refeições ao almoço, logo que se consigam ingredientes para tantas refeições.
Reafirmo a minha profunda convicção de que os Portugueses são pessoas extremamente solidárias, que se preocupam com os seus semelhantes.
Apelo ao grande coração das gentes do Norte, por ser aqui que se encontra esta instituição, para que ajudem o Coração da Cidade a fazer da crise uma nova oportunidade, como alguém, cujo nome não recordo, antes já disse. A oportunidade de darmos a esses empertigados e empertigadas uma bofetada de luva branca. Façam dos vossos tempos mortos tempos vivos noutras vidas. O povo está em baixo, mas continua a ter braços e forças para ajudar os seus semelhantes!

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