A Contagem dos Corpos

Custa-me ver portugueses a alegrar-se com a perda de outro português, António Borges, com valor reconhecido internacionalmente, apenas porque viveu as suas convicções a fundo, sem o cínico diplomatismo dos que deslizam no grande trânsito existencial sempre de bem com Deus e com o Diabo.

E em que é que Borges acreditava? Numa sociedade de mérito, na livre concorrência, com uma pitada de darwinismo económico, por oposição ao assistencialismo estatista-socialista alargado, bastante corrupto e decadente, o qual, depois de minar o autonomismo individual e a responsabilidade pessoal, tarde ou cedo, conduz os países à falência.

Então por que fazem festa e atiram foguetes os que, conotados com uma certa Esquerda Primária e Imbecil, se habituaram à contagem festiva de cadáveres adversários?! Vingança? Mas adianta? No limite, não haverá aí, caríssimos camaradas, uma base humanística mínima, sem Esquerda e sem Direita, sem Liberalismo nem Socialismo, que jamais celebre a morte de um adversário ideológico?!

Que os presos políticos e os mortos políticos de Fidel Castro vos perdoem, se puderem. Eu perdoo-vos a sanha perdulária de ir matar os que já morreram.

Comments

  1. Ricardo M Santos says:

    Não me alegra nem me entristece. É-me indiferente. Isso de um português celebrar a morte de outro português deixa parecer que todos os portugueses merecem ser chorados. Os que lamento, lamento, independentemente da nacionalidade.

    • Joaquim Carlos Santos says:

      Claro que nem todos merecem ser chorados, Ricardo, e a perda de um Madela seria sempre mais custosa que a de um príncipe inglês.

      Há várias maneiras de se ser português e de se lutar pelo bem comum. Acredito que Borges, à sua maneira, sofria pelo bem de Portugal. É nessa base mínima que me uno a ele, tal como me uno a ti no lado puro e genuíno das tuas causas cívicas ou políticas.

      • Ricardo M Santos says:

        Está aí a diferença. Não creio que o que o moveu, do que conheço da sua vida pública, fosse o bem de Portugal mas sim o dele.

  2. Deus perdoa, eu nao! says:

    a mim custa-me perder 6% do subsídio de desemprego que ele me tirou… à conta disso não lhe posso colocar umas flores baratas na campa… é a vida.

    • Joaquim Carlos Santos says:

      Atribuo o meu desemprego a factores Pré-Troyka.


      • Nesse período pré-troika o senhor Borges já fazia parte dos quadros da Goldman Sachs. Admira-me que nunca tenha sugerido enganar a UE com “cosmética financeira” como se fez com a Grécia…


  3. Este post é o exemplo acabado de “diplomatismo” moralista.
    Quem exprime o que sente é apenas sincero.
    Ou será que temos que entoar loas a todos os mortos?

    • Joaquim Carlos Santos says:

      Também gosto de sinceridade e pratico-a, mas uma Inquisição ideológica, com assassínio moral de mortos, dispensa-se.

  4. nightwishpt says:

    O seu desemprego é o progresso, meu caro. O seu produto não chega e você não dá lucro, extinga-se de vez.

    • Joaquim Carlos Santos says:

      O meu desemprego é um desafio. Enquanto posso, enfrento-o poupando como um tio Patinhas e saboreando uma vida feliz com pouco, como S. Paulo que epistolou saber viver na penúria e na abundância sem que a alegria e a confiança em Deus lhe faltassem.


  5. Agora vais fazer-me um favor, humanístico, Joaquim: reler o meu artigo, e o do Ricardo também, e explicar-nos onde é que se celebrou ali a morte do canalhita internacional, responsável por vários genocídios modernos na missão a que dedicou sua vida, diminuir o número de pobres na terra através da respectiva morte, pela fome ou pela doença. Pitadas, portanto.
    Depois conta, que a malta gosta pouco de ser treslida,

    • Joaquim Carlos Santos says:

      João, basta-me interpretar latamente a tua deliciosa ironia subliminar «Fico sempre triste quando morre um homem da Goldman Sachs». Dou-te razão quanto às responsabilidades dessas instituições na fome e na morte de milhões, mas concede-me alguma quanto insisto na responsabilidade ainda maior dos governantes corruptos [gregos ou portugueses] que colocaram os seus estados a jeito.


      • Ironia, os culhos do padre inácio, como de resto lá deixei num comentário. Um filhodaputa que morre sem ser castigado pelo que fez em vida é para mim uma imensa tristeza. Não defendo a pena de morte, defendo as penas em vida. Neste caso agonizar numa cela ter-lhe-ia dado bom proveito: é que o cancro dói, e dói mais ainda quando a medicação é escassa, como sucede com todos os nossos compatriotas que neste momento não têm dinheiro para pagar os paliativos ou passar pelos tratamentos da fundação do ChampaliMelo.

  6. nabantina says:

    Do insuspeito Nicolau Santos: “Convidado pelo Governo para o assessorar no processo de privatizações, teve uma intervenção particularmente polémica no caso da venda da participação da Caixa Geral de Depósitos na Cimpor, ao obrigar por via telefónica a administração do banco público a vender ao preço que os brasileiros da Camargo Côrrea ofereciam, quando a posição valia claramente mais e havia outros interessados que o poderiam fazer subir. Mas para ele – e essa era a base das suas ideias – o Estado deveria sair das empresas e da economia em geral, deixando o mercado funcionar, porque ele (mercado) se encarregaria de tornar a economia mais competitiva, moderna e dinâmica. No caso em apreço, não só a Cimpor deixou de ter a sua sede de decisão em Portugal, como a sua capacidade de criar empregos qualificados para portugueses se está a reduzir drasticamente.”
    Porquê, então, esta venda apressada, quando havia outros interessados que podiam oferecer mais? Dá que pensar!
    A justificação terá sido a dimensão das luvas?
    Que outra justificação oficial existe?
    Se é que existe alguma justificação oficial em casos como este.


  7. Os traidores e mercenários nunca tiveram pátria.
    Horripila-me sempre que algum escapa antes de ser julgado.

    mário

  8. nabantina says:

    Exactamente, Mário Martins. No entanto considero não haver pior do que o julgamento popular. Este, que andamos a fazer há anos. Os tribunais portugueses não teriam feito melhor…levam a julgamento os pilha galinhas!

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