Cartoline d’Italia (10) (da Napoli)

Elisabete Figueiredo

A vit e’ nu’ muorz, viratenn bene!*

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Cheguei ao centro ‘della terra del mezzogiorno’. Da terra do meio-dia. Deixo Capri para trás, e o seu mar azul e as suas escarpas longas. Deixo o quartinho branco e o terraço de ver o pôr-do-sol e chego a Nápoles às três da tarde. O calor é insuportável. Assenta bem na terra do meio-dia, é verdade. O mesmo não pode dizer-se das ruas estreitíssimas onde o sol entra com muita dificuldade e onde se pode apanhar a roupa que o vizinho da frente deixou a secar, bastando estender o braço. Estou numa rua dessas e consigo ver perfeitamente a televisão dos vizinhos, tocar os lençóis de flores que têm a secar. Mas prefiro deixar tudo como está e sair do hotel. [Read more…]

Da desigualdade

Agora e na hora da vossa morte.

Ignora o AO90

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Extensão para o Google Chrome que converte páginas escritas ao abrigo do acordo ortográfico de 1990 para o de 1945.

António Borges não era uma pessoa de bem

Porque me ensinaram que se deve respeitar um morto, hesitei antes de escrever este post.
A verdade é que não tenho qualquer respeito por António Borges e pela sua «obra». Sobretudo, não considero que António Borges tenha sido uma pessoa de bem. Quem vem defender a diminuição de salários no auge de uma crise que criou milhões de pobres e de famintos não pode ser uma pessoa de bem.
Portugal perdeu muito, nos últimos dias, com a morte de 3 bombeiros. Esses, sim, deram a vida pelo país. Com a morte de António Borges, Portugal nada perdeu. Pelo contrário, ganhou.
E mais não direi porque, apesar de tudo, foi um ser humano que morreu. Mesmo sendo o ser humano que era.

O Dr. Menezes e o Voto Diabético

A questãozinha caritativa que conspirativamente envolveu Luís Filipe Menezes e gerou essa grande inundação de virginais escandalizados, grau zero da indignação, absurdiza-se mais e mais nas redes sociais. Até farmacêuticos se atiram apaixonadamente ao silogismo, ao cálculo e à conjectura para apurar a coisa — 250 euros em medicamentos — e a sua verosimilhança. Quanto gasta em média um diabético em medicamentos?! Nem o pressuposto de um diabético acamado já não padecer apenas da diabetes, ou putativamente ter acumulado dívidas na farmácia, sustém, por exemplo, a dra. Isaura Martinho no seu choque anafilático psíquico com o caridoso gesto do candidato e seu entorno. Para a dra. Isaura Martinho, um autêntico TIR peremptório sem travões, não bastava o Dr. Menezes ter comprado o voto de todos os acamados e inquilinos pobres do Porto. Teve o desplante de aliciar o voto de todos os diabéticos do Porto. Por que não vai a dra. Martinho fiscalizar pessoalmente, no dia 29 de Setembro, quantos acamados, inquilinos pobres e diabéticos recompensam o Dr. Menezes com o seu voto?!

A Contagem dos Corpos

Custa-me ver portugueses a alegrar-se com a perda de outro português, António Borges, com valor reconhecido internacionalmente, apenas porque viveu as suas convicções a fundo, sem o cínico diplomatismo dos que deslizam no grande trânsito existencial sempre de bem com Deus e com o Diabo.

E em que é que Borges acreditava? Numa sociedade de mérito, na livre concorrência, com uma pitada de darwinismo económico, por oposição ao assistencialismo estatista-socialista alargado, bastante corrupto e decadente, o qual, depois de minar o autonomismo individual e a responsabilidade pessoal, tarde ou cedo, conduz os países à falência.

Então por que fazem festa e atiram foguetes os que, conotados com uma certa Esquerda Primária e Imbecil, se habituaram à contagem festiva de cadáveres adversários?! Vingança? Mas adianta? No limite, não haverá aí, caríssimos camaradas, uma base humanística mínima, sem Esquerda e sem Direita, sem Liberalismo nem Socialismo, que jamais celebre a morte de um adversário ideológico?!

Que os presos políticos e os mortos políticos de Fidel Castro vos perdoem, se puderem. Eu perdoo-vos a sanha perdulária de ir matar os que já morreram.

Este vale a pena chorar

Há 25 anos, morria Carlos Paião. O doutor e a Bailarina, pois claro.

A morte é como o sabão*

Depois da morte de António Borges, e do que já foi escrito aqui e que subscrevo, publico um artigo sobre a morte e José Hermano Saraiva, que se aplica a António Borges. Que a terra lhes seja pesada. [Read more…]

Cartoline d’Italia (9) (da Capri)

 Elisabete Figueiredo

«Il pommeriggio è troppo azzurro e lungo per me»* (Paolo Conte)


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A poesia. Como se a paisagem não fosse suficiente para nos atingir no centro do coração, aí onde acontecem todas as coisas e, tantas vezes, o vazio.
De manhã, a minha manhã, um pouco mais cedo que a minha manhã costumeira resolvo ir ao farol, na Punta di Carena, do lado de Anacapri. Antes de ontem o senhor do hotel disse-me que era imperioso ir… ‘il posto più bello dal mondo’. Uma vez, numa dessas vezes em que o coração se concentra, alguém me disse ‘il tuo sorriso è come um faro sul mare’** e se houve um sítio onde isso poderia ser verdade, quero dizer, um sítio para além do coração, esse sítio será seguramente aqui. Então, não há razões para não ir ao farol, certificar-me que encontro o meu sorriso. Certificar-me que é o lugar mais bonito do mundo.
Caminho devagar desde o hotel até à praça da estação de autocarros. Sempre estão 40 graus, ou mais, e eu já feita água, caminho. Devagarinho. Apanho o autocarro. Um autocarro muito pequenino. Tem oito lugares sentados e talvez uns 10 ou 15 em pé. Este minúsculo autocarro avança então pela estrada do farol, curva e contra curva, e alcança-o. Ao farol. [Read more…]