Quando um bom gráfico estraga uma má história

Tenho uma enorme admiração, um verdadeiro espanto, pela relação do Vítor Cunha com os gráficos em particular e a estatística em geral. Deixando para outra oportunidade explicar porquê, é uma cena poética, vejamos a sua última obra de arte:

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O Vítor Cunha desenvolveu uma tese: os maus resultados da Suécia no PISA seriam uma consequência da imigração que por ali grassa, uma boa forma de contornar a realidade: os testes PISA demonstram que as coisas correm muito mal onde se privatizou o ensino.

Tal imigração, proveniente de países com um baixo nível sócio-cultural é que lhes anda a dar cabo dos resultados, uns suicidas, os suecos. Ora vamos lá ver quem de onde vêm os imigrantes na Suécia (dados de 2010):

  • Finland (163,867)
  • Former Yugoslavia (157,350)
  • Iraq (127,860)
  • Iran (65,649)
  • Poland (49,518)
  • Germany (48,731)
  • Turkey (45,085)
  • Denmark (44,209)
  • Somalia (43,966)
  • Norway (42,884)
Fonte

Temos então uma forte presença de malta subdesenvolvida e analfabeta, como a finlandesa, a ex-jugoslava, e depois lá aparecem os iraquianos (que por acaso até tinham um razoável sistema de ensino para a região, dinheiros do petróleo).

Ora considerando a proveniência da nossa imigração, maioritariamente brasuca-palopiana, mesmo descontando o que sobra da proveniente da Europa, temos de convir que a escola pública em Portugal faz verdadeiros milagres.  Ou como disse agora, perante a catátofre, o ministro da educação sueco* – eles deveriam era ter nacionalizado o que privatizaram.

Uma última nota: acho despropositado meter a xenofobia ao barulho nesta discussão. Se a estrutura sócio-cultural da família é determinante nos resultados obtidos, como se sabe desde Bourdieu, tal com a História da Educação de cada país, é óbvio que tendencialmente uma imigração proveniente de um país com uma maior taxa de analfabetismo e etc. etc. iria alterar os resultados num dado país.  O problema está em que, como o gráfico demonstra, uns com a escola pública conseguem, outros, privatizando, não.

*obrigado ao comentador anónimo que me deixou esta ligação.

Comments

  1. vitorcunha says:

    Faz milagres: um deles é nem ter que ensinar português a iraquianos.


    • Tão complicado como ensinar sueco a filandeses, por exemplo.

      • vitorcunha says:

        Ou inglês a portugueses.


        • Por acaso já tive de ensinar português a caboverdianos, ou explicar a uma sãotomense como os fusos horários que lhe complicavam os telefonemas para o primo nos States não eram uma mania dos políticos. E gostei da experiência, ainda bem que nunca trabalhei num colégio onde não teria tido tal oportunidade.

          • vitorcunha says:

            É uma opção: ninguém é obrigado a trabalhar em colégios. Nem na escola pública, já agora.


          • Não é só uma opção: os colégios não contratam ateus. Até têm regulamentos internos que obrigam os seus funcionários a participarem na oração matinal. Tudo gente livre, portanto.

  2. vitorcunha says:

    Também não contrata comunistas. Já viu o que seria, distribuir equitativamente as notas dos alunos? O “de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades” só tem piada na retórica, não cabe na sala de aulas.

  3. Eduardo says:

    A estupidez e a mesquinhez desta discussão é própria de pessoas insignificantes e torna insignificante quem com ela se preocupa. Toda a conversa se resume à ideia de que este governo ou o anterior têm alguma responsabilidade na matéria, o que é falso. Até o mais idiota sabe que o sucesso escolar (ou o insucesso) decorre de inúmeros factores e de um enquadramento espacial que abarca os jovens desde o seu nascimento e os seus pais. É, pois, resultado de DÉCADAS e não mérito súbito de um determinado governo coetâneo.
    Xiça, que até apetece esbofetear esta elite comentadeira e bem paga, com empregos e vidas confortáveis, mas que parece não ter mais do que serradura no lugar dos miolos. É esta mesma ignorância e a presunção de saber de tudo que caracterizam os nossos políticos e são a primeira causa da crise infinita em que caímos


    • Não por acaso, e sobre o PISA, prefiro discutir esta vertente a perder tempo com as imbecilidades socretinas que por aí andam. Uma questão de higiene perante a ignorância, precisamente.

  4. nightwishpt says:

    Esta direita mete nojo e não percebe nada de nada.Infelizmente, grande parte dos portugueses também prefere desligar o cérebro e acreditar em “factos” que simplesmente não existem.


  5. Ó João José, aí os privados também já começaram a contratar “professores” – perdão, “auxiliares educativos”, i.e. “teaching assistants” – com o 12o. ano, pagar-lhes metade do salário dos professores estagiados ou pô-los em “contratos de zero horas”, e depois atirá-los ao charco com 7 e 8 e 10 turmas e sem formação – e isto porque entretanto, com os cortes e poupanças da praxe, metade dos professores, ou seja, os a sério, com habilitações e formação pedagógica e estágio, i,e,, licenciatura de ensino [ou licenciatura + PGCE (pós-graduação em ensino)] e QTS (Qualified Teacher Status), foram despedidos…? E já se começou a exigir que os professores, seja de que disciplina forem, se prestem a dar aulas seja do que for quando tal seja necessário ‘para tapar buracos’ – por exemplo, um professor de matemática dar aulas de geografia, ou drama, ou francês, ou história? Sabendo que se o não fizer será avaliado negativamente e tornar-se-á automaticamente o primeiro em fila de espera para o novo surto de despedimentos?

    E vamos a ver, daqui a uns anos, quando pelas terras da sua majestade (e creio que pela mesma altura, mais coisa menos coisa, também por Portugal) começarem a chegar ao PISA os frutos destas “reformas”, ou seja, as criancinhas totalmente educadas debaixo deste sistema… ai, aí é que vai ser! O que eu sei é que, pelos meus círculos pelo menos, até ficámos bem admirados do nível que a Inglaterra atingiu, porque sinceramente toda a gente que eu conheço ligada ao ‘secundário’ acha que os alunos estão bem aquém dos resultados, e os que nos chegam ao primeiro ano da universidade… enfim.

    Espere(mos) para ver. Assim como assim, é absurdo (e há muito que deixou de ser hilariante ou mesmo só anedótico) o modo como Portugal e a Inglaterra (e não só…) parecem andar a jogar ao apanha em termos de políticas desastrosas… E já agora: porque é que anda certa gente tão caladinha sobre os EUA (onde se não me engano as tais ‘políticas’ foram introduzidas algum tempo antes das nossas) …? Será que é de repente invisível, esse paraíso neo-liberal aspiracional?

  6. UI10 says:

    Não tem de agradecer o link, caro João José Cardoso.

    Os resultados dos estudos PISA, apesar de válidos, não podem ser tidos como a derradeira ou a única forma de análise do ensino. A “qualidade” ou a “competência” são conceitos de uma mais complexa dimensão. E essa é a perversidade dos rankings, apesar de estes não serem um atentado à mais elementar metodologia científica (como acontece com o dito “ranking” das escolas)

  7. frety says:

    Este vitor faz justiça ao nome. Deve ter uma bela cunha para que lhe paguem uma avença a escrever textozinhos, comentariozinhos. Ah e a jogar futebol, a julgar pelas vezes com que chuta para canto. E agora nem empresta a bola dele se os outros mininos nao jogarem como ele quer. Rapaz, és mesmo menino, mas nao brilhante. Fica bem, que ja nao te incomodo mais.


  8. Sempre ouvi e cada vez penso que encerra muita sabedoria a frase de que se é mau juiz em causa propria. Como se pedeem todas as areas transparencia e escrutinio claro e constante, só posso atribuir a tanta narrativa e pouca substancia os comentarios sobre avaliação e educação. Ao repetirem as mesmas letras tanta vez até se autoconvencem que dizem coisas importantes.Sejam humildes e aceitem que sejam os outros a julgarem dará uma imaagem mais aproximada do que tem que mudar.

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  1. […] que veio à liça em defesa desta dama: do cálculo de propriedades à História, passando pela demografia e terminando em gráficos que saltitam da Matemática e das Ciências Sociais para o desenho livre […]


  2. […] Electrotécnica, com fotografia e tudo. Quero desconfiar que quem escreveu barbaridades a este nível, ou este, ou se espalha na matemática desta forma, a ensinar engenharia electrotécnica das […]

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