O povo dos talões

A medida da nossa mansidão, ocorreu-me há dias, está também no zelo quase religioso com que usamos os talões de desconto.

Somos gente que conserva com desvelo de coleccionador os talões de desconto na carteira, para logo desenrolá-los como pergaminhos de cada vez que chegamos à caixa do supermercado. Só um povo paciente como nós é capaz de conservar talões na carteira durante semanas, ou mesmo meses, para que nos descontem vinte cêntimos num pacote de arroz ou nos ofereçam um pacote de leite a juntar aos seis que levamos. É preciso um povo assim para aguardar, serena e solidariamente, que quem está à frente no caixa use todos os talões que juntou – o cartão de desconto, o vale que só dá para a embalagem de meio quilo de asinhas de frango, os pontos que se acumularam do material escolar do puto – sem bufar, sabendo que aqueles cêntimos fazem uma grande diferença no orçamento daquela família.

E é preciso um povo não só paciente mas generoso para fazer o sucesso dos grandes eventos de recolha de alimentos, oferecendo comida a quem deixou de poder comprá-la, e com esse gesto solidário engordar os lucros das grandes cadeias de supermercado (sempre as mesmas, incluindo as que pagarão à Holanda o imposto sobre o seu lucro), aumentar extraordinariamente a receita do IVA, esse imposto que, de tão justo, cobra cegamente o mesmo por uma garrafa de água ou por uma viatura topo de gama, e que a máquina fiscal não abdica de cobrar nem numa campanha como esta, e fazer girar a grande roda do negócio da miséria do qual viverão sempre os piedosos benfeitores deste país.

Paga o paciente povo uma taxa de IVA que é só a sexta mais alta entre os 28 países membros da UE, peregrina fielmente aos três ou quatro supermercados que controlam a venda grossista em Portugal, e vê a oferta de marcas reduzir-se a cada dia e em seu lugar ficar apenas a marca do supermercado e a outra que lá está só para que se veja que é mais cara. E no final ainda poderá esperar o que for preciso pelo troco, porque já há cadeias de supermercado que, apesar dos lucros milionários, não estão dispostas a pagar comissões pelo uso do cartão nas compras abaixo de 20 euros, e se acabarem as moedas de um euro ou de vinte cêntimos é preciso esperar que o gerente as faça chegar à caixa onde fazem falta. Se o cliente se distrai ainda leva as culpas por não facilitar os trocos, com essa mania das grandezas de pagar com notas de dez.

A mercearia do bairro encerrou, entretanto, porque não lhe compensava ter a porta aberta, depois de pagar a máquina registadora, o software certificado de facturação, as licenças, os seguros, as obras que a ASAE mandou fazer, para que a cadeia de supermercados da esquina esmague os preços numa superpromoção e arrase tudo à volta num fim-de-semana. Se ao menos a Autoridade da Concorrência funcionasse tão bem quanto a ASAE, isso é que era bom.

A pescada vem do Chile, as curgetes da Andaluzia, as bananas da Colômbia. Já dei por mim a comprar peixe do Pacífico pensando que era de Matosinhos. Multiplicam-se os sites de descontos e promoções, talõezinhos e descontinhos, espera-se o próximo feriado com direito a grande promoção – 1º de Maio? 25 de Abril? – e nós abarrotamos grandes superfícies (ah, o Natal está aí), compramos más importações porque os produtores nacionais ficam arredados do circuito, e, claro, juntamos talões criados a pensar em nós, satisfeitíssimos com a esperteza que nos permite poupar trinta cêntimos ou até, pasme-se, um euro inteiro.

Comments

  1. Nightwish says:

    ” Só um povo paciente como nós é capaz de conservar talões na carteira durante semanas, ou mesmo meses,”
    Não é verdade, os americanos pobres fazem o mesmo.

    De resto, é o retrato de vida de um país pobre que só existe para pensar no 1%. Viva a direita radical.


  2. É incrivelmente triste quando analisamos à lupa a politica das nossas mentalidades políticas e sociais

  3. Fernanda says:

    Ai, os talõezinhos!

    O país do talão à espera que lhe saia a lotaria!


  4. Não sou pobre (felizmente), mas não tenho problema em usar descontos. Por uma questão de escala não ligo muito para talões de desconto que se tenham que carregar na carteira, mas quando o Continente faz 75% de desconto, sou capaz de ir lá e gastar umas massas em açambarcamento. Mesmo os 50%, dependendo do artigo. Acho aliás que essa atitude é muito saudável para as minhas finanças (que em caso de dúvida informo que não estão más).
    E, quando lá ia buscar lotes de atum em azeite de 1,30€ que ficava por pouco mais de 0,30€, ficava triste por ver gente com obviamente menos dinheiro que eu a fazer as suas compras, comprando meia dúzia de latas de atum de baixa qualidade a 0,70€ ignorando os descontos em causa.

    Aliás, os ricos também andam atrás de descontos, só que é de milhões, basta ver a malta que está por trás do governo, dando-lhes promessas de futuros à catroga em troca da venda barata de tudo o que é do estado. CTT, Tap, etc, até os setores estratégicos das águas e afins pdoerem estar todos na mão dos chefes dos catrogas.

  5. portela says:

    O criador de galinhas, para ficar com os ovos usa o mesmo sofisma, apenas troca os talões por meia dúzia de sementes.
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    • portela says:

      Não foi Marx, mas foi o Papa João XXIII quem na encíclica Mater et Magistra escreveu; …”a riqueza económica de um povo não resulta somente da abundância global de bens, mas também e mais ainda, da sua justa distribuição efectiva, que há-de ter em vista assegurar o pleno desenvolvimento pessoal dos membros da comunidade, pois é este e não outro, o fim da economia”.
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      Se isto, que é da mais elementar moral cristã, fosse cumprido à letra, não seriam necessários mais talões. Acontece que os talões, fazem parte da estratégia de quem quer deitar a mão à carteira.
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  6. Carla Romualdo continua a saber escrever e dizer muito bem o que quer dizer – faz falta no AVENTAR Santo NATAL para todos

  7. Hugo says:

    Arrisco dizer que se passa assim em qualquer país. Este e quaisquer outros comportamentos que muitas vezes apontamos e apelidamos de “portuguesinhos”.

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