Os ‘Réveillons’ da minha juventude

A qualidade dos ‘Réveillons’ que gozei na minha adolescência variava de local, música e género de miúdas, em função do material sonante que o meu grupo juntava nos bolsos – eramos solidários sólidos, desde o pagamento do café (‘bica’ aqui, ‘cimbalino’ aí) à comparticipação no custo das entradas para o baile.

E, então, no baile de fim-de-ano, estávamos em sintonia com a massa monetária disponível. Se os meios abundassem, escolhíamos lugar mais refinado: ‘Espelho de Água’ em Belém ou em ‘Belas Artes’ onde dancei ao som do ‘1111’ do José Cid, Mike Sergeant e outros – o baterista seria o Daniel Proença de Carvalho? Sinceramente não estou certo.

Nos anos de ‘tesura’, do mesmo tipo dos tempos actuais, seria obrigatório contentar-nos com os bailes de colectividade. O mais famoso dos conjuntos musicais dos bailaricos designava-se ‘Os 6 Latinos’. Onde eles tocavam, além das miúdas do bairro sob controlo materno, lá estavam os dançarinos de estilo profissional, elas e eles, mulheres e homens da noite lisboeta.

À distância, reflectindo sobre as alternativas decretadas por mais ou menos moeda no bolso, sinto saudades mais apertadas dos ‘Réveillons’ populares, do COL (O ‘Oriental’ do futebol) ou do Ginásio do Alto-Pina que ainda lá está, na Rua Barão de Sabrosa, a organizar anualmente a marcha do ‘Alto Pina’ e muito provavelmente as tradicionais sessões de dança.

Cada macaco no seu galho. Nas colectividades, e sem esquecer os meus ídolos de renome mundial, Beatles, Rolling Stones, Bruce Springsteen, Sting, Bob Marley (conheci-o pessoalmente) e até os próprios ‘Xutos’ e outros, a música eleita, ajustada ao gosto popular dos frequentadores, era precisamente do tipo ‘Patchouly’ do ‘Grupo de Baile’; grupo este, do Seixal creio, tão fulgurante a aparecer como célere a evaporar-se.

Em homenagem aos ‘Réveillons’ das sociedades recreativas e populares, ofereço-lhes a oportunidade de ouvir ‘Patchouly’ pelo ’Grupo de Baile’. Se quiserem, claro…

Comments

  1. Teresa Bizarro says:

    Quando esta música foi lançada, já os meus reveillons eram passados em casa, com três piolhos que se esganiçavam todos para a cantar…Além das saudades desses tempos de tesura que nos levavam aos bailes de colectividades, ou mesmo festas de garagem, tenho ainda mais saudades dos espectáculos de borla feitos pelos catraios…Bom ano!

    • Carlos Fonseca says:

      Teresa, se se refere, aos chamados ‘assaltos’ feitos na casa ou instalações de amigos (o pai do meu amigo Rodolfo cedia um armazém enorme), também tenho saudades. As meninas levavam os bolos e os rapazes os petiscos e bebidas. Belos tempos!
      Bom Ano para si também.


  2. O post fez – me sorrir, lembrei – me dos de garagem e dos de sala de jantar (arrumando tudo que estivesse no centro). Petiscos e bebidas eram as “multas”. As colectividades que mais frequentei foram o Orfeão da Foz e de Matosinhos e o Aurora da Liberdade na mesma localidade. Eram todos com orquestra e o Aurora tinha os Titãs que chegaram a editar pelo menos um disco.
    Pronto, já disse a minha idade. BOM ANO Carlos Fonseca

  3. portela says:

    A Terra do Go”o”gle, está a rodar ao contrário.

  4. Carlos Fonseca says:

    Obrigado. Também BOM ANO para si. Digamos ou não, é a idade que vamos tendo.

  5. Pisca says:

    Vamos lá meter um bocado de ordem historica a este post.

    o 1111 com o Mike Sergent já é de 2ª escolha, Tó Zé Brito incluído, a primeira teve por base o pessoal do Ex Conjunto Mistério, na bateria o Michel se não erro, o Proença de Carvalho foi em Coimbra e brincadeiras apenas

    Fim de ano com os 6 Latinos já seria coisa séria, Casa da Comarca de Arganil ou Alunos da Apolo, e não deveria ser barato, eram da 1ª divisão de honra das bandas de fim de semana

    COL (Oriental de Lisboa) e a sua famosa Verbena dos Santos Populares, no Alto Pina o referido Ginásio e mais acima o Vitória da Picheleira (depois a zona ganhou o nome fino de Encosta das Olaias

    • Carlos Fonseca says:

      Pisca, obrigado pela colaboração.
      Quanto ao ‘1111’, sem precisar bem as figuras a não ser o José Cid e o Mike Seargent, asseguro que fui a um ‘réveillon’ em ‘Belas Artes’ nas imediações do Hotel Altis, então inexistente.
      Sou da Avenida Afonso III, perto do Maria Pia, e conheço bem o Oriental de que não gosto – o meu avô paterno foi um dos vice-presidentes da fundação, em representação do Chelas do ‘Rogério Pipi’ que foi vendido do Benfica – ainda há tempos o vi na Avenida da Igreja. O Pedro Gomes, ex-lateral do Sporting, disse-me que ele estava com 91 ou 92 anos.
      O Oriental realizava bailes em dois locais: na sede, Poço do Bispo, os ‘réveillons’ e bailes de inverno. E na Verbena, como diz, na Rua Gualdim Pais, em Xabregas – campo de basquetebol. Vi lá, muito miúdo, com os meus tios, o conjunto ‘Os Lírios’, cujo instrumento predominante era o ‘banjo’ e o desfile de diversas marchas, entre as quais, lembro-me, a de São Vicente.
      ‘Os 6 Latinos’ viu-os em diversos locais, excepto nos Alunos Apolo onde nunca entrei. Lembro-me da ‘Casa do Alentejo’, da própria sede do Oriental, da Feira Popular e não tenho a certeza se também no Clube Estefânia.
      Há pormenores que a memória não retém, mas o que quis salientar foi o facto da festa ser escolhida em função do dinheiro de um grupo de amigos que parávamos no Café do Império. Alguns faleceram na guerra colonial – Guiné-Bissau (1) e Angola (2).
      Um abraço

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