2013

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Em 2013 aconteceu o inevitável, aquilo para que deveríamos estar preparados desde o momento em que começamos a tomar consciência do que nos rodeia, mas que nunca aceitamos bem. Perdi o meu pai logo, logo no início do ano. Embora fosse algo previsível, que aconteceria mais cedo ou mais tarde, e já aconteceu bem mais tarde do que os médicos previam, custou. Pela primeira vez, senti-me orfã de um dos progenitores. Agora, em Dezembro de 2013, pelo Natal, senti-me orfã dos dois, já que pela primeira vez em toda a minha vida tive ambos os progenitores ausentes. Um morto e outra a passar as Festas junto da sua família emigrada. Algo que compreendo, evidentemente. Nós, os filhos, não fazemos a companhia de que a minha mãe necessita e que merece e foram tantos os anos privada da companhia de pais e irmãos, que agora chegou o momento de recuperar algum do tempo perdido.

Em 2013 conheci duas equipas fantásticas de trabalho, ambas com uma dedicação excepcional a causas diferentes. Já aqui escrevi sobre ambas.

Uma delas, a primeira, a equipa ou o grande grupo de voluntariado a que tenho a honra de pertencer. Tendo já o hábito e a paixão de fazer voluntariado social, o outro tipo de voluntariado, em eventos, surgiu por acaso e como uma quase-brincadeira. Apaixonei-me!

Conheci pessoas fabulosas, gente de uma dedicação sem limites, malta desinteressada, capaz de fazer da felicidade dos outros a sua própria felicidade. Conheci pessoas que admiro e que sei que me admiram. É um sentimento mútuo porque aprendemos constantemente uns com os outros. Tornámo-nos companheiros, cúmplices, amigos. Passámos para lá do simples e saudável convívio em dias de voluntariado. Decidimos encontros, jantares, tardes desportivas, participação em provas… Temos surpreendido, pela nossa capacidade de trabalho, muitas das entidades com as quais colaboramos. Enfim, somos uma verdadeira equipa que aos poucos vai lutando para mudar o mundo e transformá-lo num lugar melhor para viver.

A segunda, de cariz mais sério, pretende declaradamente mudar o nosso mundo e corrigir os erros do passado. Pretende responsabilizar políticos corruptos e incompetentes e passar o poder para as mãos do povo, que é quem deveria ser respeitado.

Também aqui encontrei pessoas com uma capacidade de dedicação e de trabalho impressionantes. Pessoas desiludidas, como eu, pessoas inconformadas, jovens, menos jovens, todos incansáveis a lutar pelo mesmo objectivo.

Em 2013 reforcei laços com pessoas de quem gosto muito.

Em 2013 tive novas experiências, fiz coisas que nunca tinha feito antes, algumas das quais nunca tinha pensado sequer fazer.

Em 2013 estive pela primeira vez um ano lectivo inteiro sem ser colocada numa escola. Senti-me (e ainda sinto) triste, inútil, parasita. Senti que tudo o que sempre trabalhei e a forma como trabalhei não contavam para nada. Nunca, nem nos tempos de estudante, ganhei tão pouco durante um ano.

Em 2013, num Verão quente, muitos, demasiados, bombeiros perderam a vida desnecessariamente e quem manda no país desprezou aquelas vidas desperdiçadas, perdidas no calor dos fogos.

Em 2013 houve pais e mães que, desesperados, sem saber o que fazer das suas vidas, se suicidaram, uns sozinhos, outros levando o seu bem maior consigo. Mais uma vez, quem manda no país não mostrou a mínima solidariedade, não se preocupou, não quis saber destas mortes tão trágicas.

Em 2013 revoltei-me, e muito, contra as políticas avassaladoras que nos matam lentamente. Gritei, estrebuchei, esperneei, manifestei-me, mas acabei sempre derrotada. Este desgoverno não cai, aquelas baratas tontas não há meio de saltarem do poleiro.

Em 2013 senti-me impotente perante o aumento da pobreza,  da miséria, da mendicidade. Quero ajudar e não posso ou não sei como. Sinto-me sozinha no meio de tanta gente, sinto aquilo que a Carla Romualdo aqui tão bem descreve.

Em 2013 quase não tive trabalho, mas tive saúde e duas filhas maravilhosas que só quero poder ver crescer. Tive um marido que é o meu porto de abrigo, embora eu nem sempre seja fácil de aturar.

E para terminar em beleza, no último dia de 2013 tive uma queda aparatosa que me deixou com dores tremendas num dos joelhos e que ainda não sei que consequências terá. Isto antes de ter tocado numa gotinha que fosse de álcool. Há azares dos diabos! Aposto que se tivesse bebido, isto não teria acontecido.

Venha 2014, que, para mim, será um annus horribilis! Espero poder garantir comida e agasalho para as minhas filhas durante todo o ano.

Quero 2014 na minha vida tanto como quero o actual desgoverno, mas um e outro são inevitáveis.

A grande vantagem de ambos é que um dia chegarão ao fim.

Feliz 2014 a todos vós!

Comments

  1. Rui Moringa says:

    A Vida é mesmo assim, ou seja, tem muito daquilo que bem descreve. Perdemos pessoas que amamos, ganhamos outras quando reforçamos laços.
    E também temos quedas, mesmo antes de beber qualquer pinguita de álcool.
    Desejo que recupere do joelho que mantenha o seu porto de abrigo e que tenha possibilidades de granjear o pão de cada dia para as suas filhas.

  2. Carlos Fonseca says:

    Que merda de País é este? Com uma gentalha na governação sem sentimentos, impreparados politicamente, a não ser para espalhar a pobreza e a miséria, Ainda há quem defenda estes FdP.
    Partilho das tuas preocupações, nomeadamente quanto às tuas filhas. As minhas, mães como tu, lutam para defender as suas filhas (a mais velha) e o seu filho (a mais nova). Eu e a minha mulher lá vamos ajudando até ao dia da partida.
    Um país destruído que um dia há-de revoltar-se! O melhor 2014 possível.

  3. Fernanda says:

    Uma grande empatia com este texto da Noémia.

    Há pouco vi algumas imagens da passagem do ano por este país fora. Uma classe média que se aguentou à crise, em hotéis de 5 estrelas, desejando patriotismo para 2014 (talvez um consenso). No meio do espumante, dos chapéus e dos brilhantes, algum receio de descambar para a “3ª divisão” do campeonato social.

    Na rua, os mais jovens. Normalmente com uma grande “tosga”, lá vão desejando muito amor. Outros, desejam trabalho ou que o trabalho não lhes falte. E saúde. Muitos outros ficam em casa, procurando o apoio de conhecidos e familiares.

    Os mesmo pobres terão passado a noite, mais quentinhos, em lugares onde lhes deram comida. As TVs não mostraram ainda. Mas vão mostrar, após a euforia da rua e dos hotéis de 5 estrelas. É o alinhamento jornalístico.

    As dezenas dos descaradamente mais ricos do país talvez passassem a noite no recanto familiar, defendendo o património e a “1ª divisão”. A verdadeira riqueza não se ostenta.

    Abaixo os governantes da nação!
    Abaixo a corrupção!

    Por um Portugal democrático!

    Viva Portugal!

    Viva eu!

  4. portela says:

    O Mal existe? Não, existe o coelho!.
    Noémia, combate como pode, os efeitos da maldade alheia, e nesse desiderato merece todo o meu respeito. Mas se as causas não forem atacadas, vamos continuar no mesmo inferno para o resto dos nossos dias, enquanto os causadores das maldades, vivem no paraíso. A culpa é nossa!
    .
    Noémia, Bom Ano 2013.

  5. John Silva says:

    A Noémia é mais uma «piegas» que só se sabe lamuriar.
    «Gritei, estrebuchei, esperneei, manifestei-me, mas acabei sempre derrotada» talvez por não ter experimentado ser educada, cordata, dialogante, «2013 senti-me impotente perante o aumento da pobreza, da miséria, da mendicidade», sim porque em 2008, 2002 ou 1999, não havia pobreza, miséria ou mendicidade, afinal ela era «POTENTE», «senti que tudo o que sempre trabalhei e a forma como trabalhei não contavam para nada» é exactamente isso, afinal “a prática é o único critério da verdade”, «tive uma queda aparatosa que me deixou com dores tremendas num dos joelhos» costuma dizer-se “Deus castiga” ou na versão internacional “karma is a bitch”.

    Happy New Year!

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