Remendos

Um dos sinais da crise é o regresso dos sapateiros. Não sei que fizeram durante aqueles 10 ou 15 anos em que nem quisemos ouvir falar de semelhante coisa, pôr meias-solas, que miserabilismo, mas aí estão eles de novo. Nunca deixei de ir aos sapateiros, sobretudo por causa daquele prodigioso alicate de estrela que abre furos nos cintos, mas nem sempre foi fácil encontrá-los na cidade.

Custa a crer que, na minha infância, o sapateiro mais importante da zona tivesse uns quantos ajudantes, que não eram mais que futuros profissionais que os pais entregavam nas mãos do sapateiro experiente para que ele os formasse ao longo dos anos. A oficina do Faria, o tal sapateiro, parecia saída de um romance de Dickens. Os clientes não entravam na oficina, assomavam-se ao balcão, e daí via-se todo o espaço. No centro, estava o Faria, ocupadíssimo, sem nunca se permitir uma brincadeira, segurando com os lábios finos os pregos que ia cravando num tacão, e com olhos inquietos, controlando tudo o que acontecia na oficina, sem nunca poder tranquilizar-se. Vestia uma bata que eu recordo azulada e cheia de remendos, usava óculos de lentes grossas e tinha um cabelo ralo e triste, muito pegado à cabeça.

Entre os sapateiros e aprendizes havia sempre azáfama e a percepção de estarem a todo tempo a ser escrutinados pelos clientes, qualquer um se assomava e via o que se passava na oficina, e o que tinha para ver era um conjunto de homens, novos e velhos, invariavelmente sérios e atarefados. Eu gostava de pôr-me em bicos de pés, e ficar a observá-los, pela moldura do balcão, um espectáculo de eficiência e seriedade, toldado pelos vapores da graxa e da cola de contacto.

De entre todos, eram os aprendizes que sempre me chamavam mais a atenção, provavelmente porque não passavam de miúdos, desses que a Juventude Popular quer de volta às oficinas, e porque me pareciam sempre infelizes, embora pudesse ser dos meus olhos. Tão atarefados estavam sempre e nada do que saía das suas mãos brilhava, os sapatos velhos continuavam a parecer velhos, as botas continuavam deformadas pelos joanetes. Tinham as mãos e, por vezes, o rosto sujos de graxa, e o cheiro da cola deveria deixá-los tontos, ou assim me parecia. Eram pouco mais velhos do que eu mas tinham uma vida assombrosamente diferente, de tão adulta, de tão dura. O fruto do seu trabalho alinhava-se atrás deles, nas prateleiras, pares de sapatos feios, deformados, baços, mas com a forma dos pés que os fizeram seus e que haveriam de dar ainda muitos passos mais.

Na parede em frente ao balcão estava o aviso que me parecia estranho, em que se dizia que ao fim de seis meses se venderiam os sapatos não levantados. Estranho porque me parecia incompreensível porque haveria alguém de levar uns sapatos para consertar e logo não ir buscá-los, e tampouco achava que alguém pudesse estar interessado em comprá-los, assim velhos como eram, afeiçoados a pés alheios, mas pelos vistos era isso que acontecia.

Os donos não vinham reclamá-los e eles acabavam noutros pés, ou então na prateleira dos não reclamados, uma que tinha botas negras de cano alto, de camurça muito coçada, e sandálias vermelhas de saltos fininhos, e muitos sapatos sem graça, cujos donos os tinham esquecido ou morrido, sabe-se lá. Por essa altura eu ainda não conhecia o provérbio: não há sapato bonito que não dê em chinelo feio. Quando se usam sapatos de outros pés, alteram-se os nossos passos?

Na oficina do Faria sapateiro podia, vejam bem, chegar a haver fila de espera para meter um filho como aprendiz de sapateiro, tais eram as perspectivas de que nunca faltaria trabalho, mal pago mas abundante. Nos últimos anos, durante o declínio do ofício, pensei algumas vezes nesses miúdos que já seriam adultos, e a que se dedicariam entretanto, vítimas como tinham sido do desacerto dos pais na escolha da profissão.

Não sei se o Faria seria capaz de fazer calçado, ou apenas de remendá-lo, talvez tivesse um enorme talento de criador jamais explorado porque quem só tem clientes pobres nunca deixa de ser remendão.  Por causa do Faria e dos seus aprendizes, fiquei a gostar de sapateiros e a ver com maus olhos que a sabedoria popular tenda a rebaixá-los – “Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?” – como se enroupar os pés que nos levam pela vida não tivesse tanto de meritório e, se estiverem para aí virados, até de belo.

Na imagem, Elias Vicenci, sapateiro em Lages, Brasil. Foto de Álvaro de Azevedo Diaz, projecto “Retratos do Comércio”.

Comments


  1. Em criança, eu gostava de ver o sapateiro a trabalhar, principalmente, quando punha capas novas em saltos finos. Aquela precisão de corte…

    Mas este excelente retrato dos ajudantes que a Carla fez lembrou-me que os velhos tempos nem sempre foram bons (na verdade, quase nunca foram bons; limitamo-nos a recordar com saudade tempos em que éramos bem mais novos, o que nos turva a visão).

  2. João Paz says:

    “como se enroupar os pés que nos levam pela vida não tivesse tanto de meritório e, se estiverem para aí virados, até de belo.
    Mais uma BELA crónica cheia de realismo e com muita promessa de futuro.
    Obrigado Carla Romualdo

  3. maria jose says:

    vc fabica sapatos masculinos anos 70???
    modelo cavalo de aço

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