Whisky ou chá de cidreira?

Comprei uma garrafinha de whisky (eu gostava de escrever uísque, mas não consigo) com uma bela imagem de um veado, daquelas de bolso que se levam para a caça. Como eu não caço nem bebo whisky, as pessoas que me conhecem acharam que isto era um sintoma de insanidade mental e começaram a preocupar-se e houve logo quem me dissesse que não há que ter vergonha de pedir ajuda e que toda a gente beneficiaria muito da consulta com um psiquiatra. É claro que metade da piada da garrafa era observar a reacção que ela desperta, por isso resolvi enchê-la de chá de cidreira, e trazê-la sempre comigo. Nestes dias de Inverno, deito a mão à mala e tiro de lá a minha garrafinha, bebo um gole contido (nestas coisas, a contenção é indispensável, ou lá se vai a piada toda), e solto um “Aaahhh” sonoro, quase mal-educado. O ar de espanto à minha volta parece-me tão hilariante que lamento não ter feito isto há mais tempo.

A garrafinha tem o tamanho certo para o bolso interior de um casaco, mas os meus casacos não têm bolsos interiores, uma falha a que estarei atenta nas compras futuras. Nos velhos filmes do Oeste selvagem, a garrafinha era coisa de homem, cowboy cavalgando em direcção ao sol poente, mas lembro-me de ver alguma durona, dessas que levam anos a trabalhar num saloon e têm sempre resposta rápida e afiada, que também guardava a sua garrafinha e lançava mão dela quando se recordava de alguma coisa que deveria manter-se esquecida. A Vienna não teria uma?

Como já ninguém vê filmes de cowboys, e o cowboy até se tornou bastante impopular (fumador, machista, violento, bebedolas, chacinador de minorias étnicas), todos vêem na minha garrafa, apesar do seu encantador bambi, um mau sinal.

Depois de muita insistência, lá acedi a ir à consulta, não do psiquiatra a quem temo o poder de receitar coisas, mas de um psicólogo, que não se interessou nada pela garrafa mas quis saber coisas sobre a minha infância. Eu insisti que na infância não tive garrafas de whisky, tampouco nenhum veado, nenhuma experiência cinegética, nenhuma tragédia com armas, mas que me fartei de ver filmes do John Wayne, de quem até não gosto por aí além. Também não gosto do meu psicólogo porque ele usa aspas para disfarçar a imprecisão do seu vocabulário e levanta os dedos no ar para mostrar-me quando o que está a dizer tem aspas, faz aquele gesto das orelhinhas de coelho com os dedos a mexer-se para cima e para baixo, e se há coisa que me irrita são as aspas mal aplicadas. “Não era bem isto que queria dizer, mas também não me ocorre a palavra certa, e por isso atiro-te com a palavra errada, mas amorteço-a com aspas para que não me tomes demasiado à letra.” As aspas são o pedido de desculpa do preguiçoso e eu prefiro um preguiçoso que não se lamente.

Quando chego à consulta, pouso a garrafinha em cima da mesa, mesmo ao lado do relógio da Ikea com que ele controla o tempo que me dedica, mas nem assim consigo chamar-lhe a atenção para ela.

Ele insiste que o que conta é o que eu estou a esconder (não mo diz assim, porque é psicólogo, mas percebe-se-lhe), eu explico que às vezes até um charuto é só um charuto e desenho orelhinhas com os dedos porque é uma citação. Ele toma notas. Eu sorvo um golito mas coíbo-me de soltar um “Aaahhh”. Como não saímos da minha infância, começo a inventar histórias e a contar-lhe coisas que não aconteceram. Ele toma nota, faz perguntas, é provável que não acredite, mas eu continuo a inventar enquanto penso que tanto me dá se ele acredita ou não porque já não estou preocupada com a verosimilhança.

E então dou-me conta que foi isso que me aconteceu, deixei de preocupar-me com a verosimilhança. Para a personagem a que nos vamos conformando, a nossa, há coisas que são verosímeis e outras que não, e tendemos a rejeitar as segundas. Até ao dia em que tanto nos faz. Sendo isto o mais parecido que consigo com uma epifania, levanto-me, recolho, com gestos amplos, a mala, o casaco, o cachecol sobre a cadeira, e estendo-lhe a mão.

– Obrigada, ajudou-me muito.

Ele fica a olhar para mim, por instantes com surpresa, em seguida com cara de quem conhece a reacção e espera ver-me regressar, de ombros caídos e melhor disposição para evocar a infância mãe-de-todos-os-males, e aceita o meu aperto de mão. Deixo-lhe a garrafa, talvez ele pense que é uma desculpa para eu poder voltar, mas também pode ser que comece a usá-la a partir de agora, a escondê-la no bolso interior do casaco, e a desconstruir-se perante os outros, para se reconstruir mais adiante. Whisky ou chá de cidreira?

Comments

  1. Francisco Miguel Valada says:

    Excelente!

  2. Fernanda says:

    Ah Ah Ahh!!!

    Sem aspas.

  3. Sarah Adamopoulos says:

    Muito bom!


  4. Como sempre, excelente, Calamity “Romulado” Jane!

  5. António Fernando Nabais says:

    Quem escreve assim merece o chá de cidreira que bebe. Ainda por cima, contém o pormenor das aspas com os dedos, ódio partilhado. Já expliquei aos meus alunos que só os deixarei fazer esse gesto horripilante, se passarem a fazer o mesmo com todos os sinais de pontuação, enquanto falam. Ainda não houve um que me desse esse gostinho, pá!


  6. Uauuuu. Adorei.

  7. Ana Cristina Leonardo says:

    Muito bom. Partilho com a sua personagem o ódio ao gesto do coelhinho das aspas. 🙂


  8. Espectacular Carla, adorei 🙂

  9. Maria de Almeida says:

    Excelente texto Carla. Gosto de te ler.


  10. Cuidado… Entre cidreira e parreira pode acontecer uma descontração traiçoeira… Ainda por cima, se se tratar de água que queima seiva sagrada dos deuses…

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  1. […] Segundo o Público, o «imposto sobre o tabaco foi o ponto fraco das receitas fiscais», tendo sido a única cobrança a descer em 2017. Pelos vistos, aliás, o Governo contava com esta descida, mas de forma marginal, tendo a diferença ficado muito acima daquilo que se previra no OE, et pour cause, “oficialmente” (eis as aspas, na conhecida versão gráfica do gesto das orelhinhas de coelho). […]

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