Mais uma voltinha, mais uma viagem

Dona Maria de Fátima Saraiva saiu, num certo sábado, da casa de seu marido, aproveitando a recente fuga fiscal dele (começara por ser apenas fiscal mas acabaria por obrigá-lo a ter de escapar-se para bem longe), para redescobrir, uns quantos anos depois, os mistérios da noite. A amiga que se oferecera para acompanhá-la avisou-a em cima da hora que tinha torcido um pé na hidroginástica, coisa que, de tão descabida, mais parecia desculpa esfarrapada, mas ela já tinha imaginado coisas a mais para contentar-se com uma noite em casa. Foi sozinha.

Procurou os sítios que lhe disseram ser os da moda, e descobriu que tudo era agora feito com lixo reciclado – caixotes, paletes, frascos de vidro a servir de candeeiros, cartões reaproveitados – e que, à falta de cartazes e letreiros se escrevia com giz na parede. Achou os lugares mais pobres e feios, mas as pessoas mais bonitas.

Foi pedindo coquetéis pela graça dos nomes que via na lista, sem saber o que lhe serviam, e achou-se entontecida em pouco tempo. Olhou em volta e sentiu-se tão só, tão dependente da bondade dos estranhos, que desejou não haver saído nunca de casa. Foi então que lhe apareceu, qual anjo protector que só resgata quem o merece, o senhor Fonseca, antigo colega de trabalho, homem íntegro e escrupuloso, que ocupava os tempos livres como guarda-livros de discotecas e bares. Não precisava desse dinheiro extra, era moderadíssimo nos gastos, mas tinha tempo a mais e pouca imaginação para preenchê-lo. Descobrira no mundo da noite um filão de empresários caóticos e perdulários, ansiosos por depositarem toda a confiança num homem de bem.

Não era meio que o tentasse e raramente se deixava sequer oferecer uma bebida à mesa do patrão. Saía pela porta das traseiras e afastava-se depressa, sem olhar para trás, não fosse acabar transformado em estátua de sal. E era ele que ia, nessa noite, a sair do bar onde se haviam misturado os coquetéis que atontaram a Maria de Fátima, caminhando muito lesto, quase encostado à parede, e com a pasta dos balancetes bem segura na mão. Reconheceu-a logo, embora lhe custasse acreditar que ela frequentava tais lugares. Mas percebeu tudo num instante e o certo é que ao silêncio já estava ele habituado. Ficasse ela descansada que ele não precisava de explicações.

Apoiou-se, pois, Maria de Fátima no braço solícito e desinteressado do Fonseca, e passearam-se pelo bairro da moda, subindo e descendo o passeio para desviar-se dos grupos de gente risonha e de copo na mão que irrompia à gargalhada a cada instante por motivos incompreensíveis, acima e abaixo iam eles, ela tropeçando nos copos de plástico no chão, ele segurando-a então com mais firmeza, caminhando ambos com lentidão como se fossem visitantes de outro país que se familiarizassem com os costumes invulgares que agora viam. Foram dando voltas ao quarteirão, passando sempre pelas mesmas ruas, por grupos semelhantes de gente, colunas a debitar músicas que mal se distinguiam umas das outras, e a ela parecia-lhe que andava num carrossel, e a cada volta tudo fazia menos sentido e era mais divertido, como acontece nos carrosséis, tudo se desprendia do chão e se fazia etéreo, e com mais uma volta tudo faria ainda menos sentido e isso seria algo de agradecer, dadas as circunstâncias.

Numa das voltas calhou então de encontrarem um grupo que irrompia da noite como se viesse inquietar um sonho sereno, uma aparição selvática e risonha, rapazes com altifalantes, tocadoras de bombos ao estilo das majorettes, com saias curtas e pernas musculosas, cuspidoras de fogo com cabelos de medusa e olhar devorador, bailarinas de dança do ventre, e a fechar o grupo, distribuindo sorrisos, moças esculturais com fatos coleantes, vermelhíssimos. Detiveram-se Maria de Fátima e Fonseca, como o fez a rua inteira, e seguiram com espanto a deambulação do grupo, ele com ar céptico e olhos cansados, ela sentindo que o carrossel rodava agora mais depressa do que nunca embora ela estivesse parada. O seu coração acertava as batidas pelos bombos das majorettes, o rosto iluminava-se-lhe com as chamas dos cuspidores, mas era a dança do ventre que a fascinava, os requebros de cintura, a espantosa mobilidade de ombros, a beleza estranha, quase inumana, desses movimentos.

E sem que o Fonseca tivesse tempo de travá-la, saltou do passeio para a rua e, apesar das calças demasiado justas na cintura, e dos sapatos que lhe apertavam os pés, juntou-se ao estranho grupo e dançou com as dançarinas que a acolheram com sorrisos enigmáticos, e agitou as ancas como elas, ou isso lhe pareceu, e só uma vez se lembrou de acenar ao Fonseca, que a viu, do passeio, iluminada pela labareda da medusa cuspidora de fogo, mais bela e assustadora do que nunca.

Fizeram-se muitas fotos, as malditas fotos que haveriam de estar por todo o lado no dia seguinte e nem o esforço do Fonseca seria suficiente para afastar dos olhos dela tudo o que se publicou, ou não fosse a sua dança o momento mais fotografado da noite. Mas àquela hora ela ainda não o sabia, nem se importaria se o soubesse, porque o carrossel rodava mais depressa do que nunca e à velocidade certa tudo é belo e imparável.

Ilustração: Manolo Hidalgo

Comments

  1. Paula Sofia Luz says:

    Gostei tanto, Carla. 🙂


  2. Adorei,obrigada


  3. Fico feliz por sabê-lo. Tenho um carinho especial por este carrossel.

Trackbacks


  1. […] Com as palavras certas, e justas – escritas com a justeza de uma escritora – também.  […]

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