Saudade

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© Sofia Martins, Praia da Granja, Dezembro de 2006

Sempre que um colega estrangeiro me pergunta o que é a saudade, recordo-me de Sophia e do rapaz da Menina do Mar:

A Menina pôs a sua cabeça dentro do cálice da rosa e respirou longamente.

Depois levantou a cabeça e disse suspirando:

– É um perfume maravilhoso. No mar não há nenhum perfume assim. Mas estou tonta e um bocadinho triste. As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas.
– Isso é por causa da saudade – disse o rapaz.
– Mas o que é a saudade? – perguntou a Menina do Mar.
A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora.

Lembrei-me da saudade, ao ler, no Público de hoje, a crónica de Esteves Cardoso acerca da tradução inglesa (2014) do Vocabulaire Européen des Philosophies, Dictionnaire des intraduisibles (2004), organizado por Barbara Cassin.

A parca presença da língua portuguesa no Vocabulaire, com quatro verbetes, da responsabilidade de Fernando Santoro, foi objecto de umas “breves e despretensiosas nótulas” de Marisa das Neves Henriques (2010) e o próprio Vocabulaire mereceu uns interessantes parágrafos de Mario Perniola (2006: 115-8). [Read more…]

Parasitólogos

Francisco da Cunha Ribeiro

fotografia-1A independência crítica é o bilhete de identidade que dá foro de cidadania ao  ser humano. O seguidismo ideológico, ou a simples e quotidiana aversão à crítica caracteriza o grau zero do racionalismo. É preciso muito esforço e um enorme amor ao pensamento livre para nos comportarmos como seres racionais. Julgo que essa é também a única forma de sermos fiáveis perante os outros. A preguiça do pensamento é a melhor amiga do irracionalismo. Não significa isto que quem não pensa deixe, só por isso, de ser homem ou mulher, e passe a ser uma besta, nada disso. Quem, por exemplo, passa os seus dias a trabalhar, a discutir futebol, e a jogar a sueca pode não treinar o pensamento, mas não deixa de ser capaz de gostar ou de amar. Mas esse amor tanto pode subir à altura do céu, como descer  ao fundo do Inferno. Quem pensa e ama nunca ama de mais, mas também nunca chega a odiar ninguém. Porquê? Porque sabe melhor relativizar emoções, sentimentos e equilibrar os valores. O homicídio sentimental (pelo ciúme) é, a meu ver, o exemplo mais veemente do que a falta de exercício do pensamento lógico pode ter como consequência.
 Aos que pensam pela cabeça dos outros poderíamos chamar  “parasitólogos”. Os parasitólogos são, pois,  seres racionais  que  alimentam as suas ideias com as ideias dos outros. E como as suas são, afinal,  as dos outros,  podemos dizer que este tipo de gente não muda nada, não cria nada, apenas copia.  Cerebralmente não evoluíram muito além do homo-sapiens. Por isso os poderemos também designar de “macacos de imitação”, sem qualquer desprezo pelos macacos. [Read more…]