Autor convidado – Maria Helena Loureiro

“O dia inicial inteiro e limpo…”

Maria Helena Loureiro

25 abril
O rádio despertador acordou-me cedo, à hora do costume, que a primeira aula do dia era Inglês II com o John Byrne e eu não a perdia por nada deste mundo. Saltei da cama, fui tomar banho e, de regresso ao quarto, ouço “…desencadearam na madrugada de hoje uma série de acções com vista à libertação do País do regime que há longo tempo o domina” “Olha”, penso eu, “lá se lixou o Selassie!” que as coisas, desde janeiro, andavam sérias para aquelas bandas e logo ligo o secador de cabelo. Mas o barulho que abafava as palavras não disfarçava a música sem coro ou refrão e acabei por desligar o aparelho e ali ficar, especada, escova numa mão, secador na outra, ouvido na rádio.

“Conforme tem sido difundido, as Forças Armadas desencadearam na madrugada de hoje uma série de acções com vista à libertação do País do regime que há longo tempo o domina. Nos seus comunicados as Forças Armadas têm apelado para a não intervenção das forças policiais com o objectivo de se evitar derramamento de sangue. Embora este desejo se mantenha firme, não se hesitará em responder, decidida e implacavelmente, a qualquer oposição que venha a manifestar-se. Consciente de que interpreta os verdadeiros sentimentos da Nação, o Movimento das Forças Armadas prosseguirá na sua acção libertadora e pede à população que se mantenha calma e que se recolha às suas residências. Viva Portugal!”

Largo tudo e corro para o quarto dos meus pais. “Papá, papá! Ligue a rádio, ligue a rádio, já!!” Mas, agora, tinham voltado as marchas militares. O meu pai salta da cama enrola uma toalha à cintura e, com um pé de chinelo e o outro descalço, impaciente porque eu não conseguia, tin tin por tin tin, reproduzir o que ouvira, começa a abrir e a fechar gavetas, a tirar papelada e a preparar uma mala. “Vai buscar os Avantes que tens debaixo das almofadas!” “Mas, mas…” gaguejo eu ao mesmo tempo que me interrogo “como raio é que ele sabe que os tenho lá? Que mania!” “Já!” Vou buscá-los, claro, e quando aquelas palavras, há uma vida imaginadas, se soltam outra vez, já estamos os dois enfiados na casa de banho a rasgar em bocadinhos os Avantes de papel de Bíblia, a enfiá-los na retrete e a puxar o autoclismo. Foram precisos dias para que o coração se aquietasse e a canalização de lá de casa funcionasse.

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  1. Experiências pessoais de Abril e Maio …

    Eu, no dia 25 de Abril fui para a escola (LNAH, 3ºano Curso Geral, eq. 9º, 16 anos), cedo, como de costume. Tivemos a 1ª aula da manhã mas o 1º intervalo foi mais demorado e começaram a circular rumores, o professor da segunda aula nunca mais chegava, depois barulho … por fim anunciaram que todos deveríamos ir para casa pois já não havia mais aulas nesse dia, sem mais explicações. Gritos de “feriado”, alegria, berraria e correrias por toda a escola … só a caminho de casa (de autocarro) é que comecei a sentir que havia algo estranho nas pessoas, na rua. Chegado a casa, no rádio, ouvi a música diferente e depois os comunicados do MFA … passei o resto do dia (e seguintes) a ouvir notícias e a procurar saber mais sobre o que acontecera junto dos meus irmãos, pai, vizinhos, colegas …

    Na escola, na manhã seguinte, o ambiente estava diferente… alguns professores falaram sobre o golpe militar/revolução e sobre o regime de Salazar/ Marcelo. O reitor desaparecera, professores e contínuos estavam um pouco desorientados (em auto-gestão) e sob pressão dos alunos mais velhos, informados ou rebeldes.

    Depois vieram as ‘aulas práticas’ de política (dentro da sala, nos corredores, recreios e proximidades da escola), a formação de grupos de esquerda (UEC, MRPP,…), de direita (CDS), de indefinidos ou simpatizantes menos activos (de: LUAR, MES, PS, PPD, MDLP/ELP?, …), as muitas e confusas RGAs (reunião geral de alunos, no ginásio), os cartazes e os confrontos (verbais e empurrões). Até ao final do ano lectivo foi mais aprendizagem política (na escola e fora dela) do que matéria curricular. Hove algumas substituições de professores (com alguns “saneados”/ expulsos), “passagens administrativas” de ano (a algumas disciplinas e exames).

    No ano seguinte, em termos escolares, o que mais me marcou foram: leitura e resumo/crítica do livro de Josué de Castro «Geopolítica da Fome» (um ‘calhamaço’); a «Gestalt theorie» (complicada); as interessantes aulas e debates na disciplina de «Introdução à política (e organização da nação?)»; os debates na disciplina de Inglês sobre a «generation gap», …

    No 1º de Maio fui, como “todo o mundo”, para a manifestação na Av. Aliados/Praça da Liberdade. Nesse dia (ou seria antes?) a multidão passou em frente a um prédio-r/c donde estavam a atirar coisas pela janela… ao pé de mim chegou um volume da enciclopédia… Nesse dia (ou antes?) o movimento popular e de estudantes foi até a sede local da PIDE/DGS (próxima da nossa escola), onde houve alguma confusão … e depois foi dispersando.

    E em casa/família? Um irmão meu, mais velho e politizado (de esquerda) entrou em conflito com o meu pai (conservador) e o ambiente passou a ser pouco harmonioso… até que aquele teve de sair de casa. Não foi agradável.

    E na ‘vertente civil’? Marcaram-me “os retornados” (em 1975 e seguintes, sem conhecer nenhum durante anos), porque senti a “injustiça” de ser ultrapassado no acesso à universidade (com “numerus clausulus”), dos apoios (do IARN) que alguns (por fraude, conivência,…) receberam com menos necessidade do que muitos dos que já cá viviam e a dificuldade de ter acesso a um emprego decente (um vizinho podia meter uma “cunha” para ser ‘paquete’ num banco !). Também assinalo a minha participação voluntária nos primeiros tempos de um «centro social» local, a mudança de estilo de roupa e cabelo (comprido, às vezes com boina preta), … e a grande alegria que tive no dia que soube que tinha entrado para o Magistério …

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