Os arrumadinhos e os nem por isso

Nos três dias que antecederam a abertura do Mundial de Futebol, a febre começou a subir na pacatíssima Toronto: muitos carros desfraldaram bandeiras de países vários e, numa terra em que a buzina só é usada in extremis, os latinos começavam a cortar o fluir tranquilo da cidade. E como no dia 12 de Junho foram as eleições para o governo do Ontário, província onde vivem uns milhões de pessoas vindas de 180 países e que goza do estatuto de praça financeira do Canadá, a mistura deu em nervoso miudinho. Daquele que, mesmo assobiando para o lado, se vê à légua.

Durante o dia, percebeu-se o que ia na alma dos anglo-saxónicos: as televisões repetiam as reportagens a partir do Brasil, cobrindo as manifestações populares e os confrontos com a polícia, mas sobretudo sublinhando as equipas de operários que, à lufa-lufa, acabavam as obras e punham relva nos estádios que iam ser utilizados dali a poucas horas. Não se faziam comentários, mostravam-se demoradamente essas imagens num grande pasmo. Fosse o Mundial no Canadá e a planificação tinha começado três anos antes, tudo a régua e esquadro, tudo direitinho, sem curvas nem linhas tortas, tinham-se avaliado impactos ao milímetro e despesas ao cêntimo, e tudo estaria pronto dias antes da data marcada para a inauguração. Coisa sensaborona, sem angústias nem sobressaltos, coisa de “bifes” arrumadinhos… É claro que não entendem o funcionamento daqueles que deixam tudo para a última hora, desenrascando e não planificando, gastando o triplo do previsto.

Dali a horas, tomando a bica no Café Balzac com amigas canadianas, guardei um silêncio prudente acerca do assunto, mas foram elas que o abordaram, sideradas com a maratona dos operários brasileiros e deslumbradas com a beleza da abertura dos jogos. Rematando com a sacrossanta observação: “vocês sabem viver”. No vocês vão os latinos todos, mas muito especialmente aqueles povos da Europa do Sul de que a senhora Merkel e outros quadrados não gostam. Os canadianos gostam, embora não percebam, e às vezes até dão a entender que preferiam ser assim. Isso nota-se quando dois ou três europeus do sul põem em cima duma toalha branca um pão, uma malga de azeitonas, uma tábua de queijos, umas fatias de presunto e uma garrafa de vinho, e se quedam por ali durante horas a palrar e a rir como perdidos
Prazenteiramente, os canadianos acompanham e lá vem a conclusão: “vocês sabem viver”.

Desconfio que Toronto resolveu dar o corpo à curva. Há 30 anos, não se viam esplanadas, para se tomar uma bica não era fácil, as noites esvaziavam as ruas. Agora, não. Há esplanadas por todo o lado. Muitos restaurantes têm pátios debaixo de grandes árvores, onde nas noites quentes de verão sabe bem jantar e estar com amigos. A bica passou a ser uma coisa fácil e banal. Os espanhóis, sempre rápidos para o negócio, têm instalado bares de tapas por todo o lado. As churrasqueiras portuguesas vendem a granel. Até o meu bairro, que é no centro histórico de Toronto e tremendamente “bife”, anda numa grande animação de novos cafés, restaurantes de dieta mediterrânica, tascas de tapas
e outros lugares de garantida rebalderia que não tem o decoro vitoriano de esperar pelo fim de semana. O que é uma boa notícia.

Já agora, digo que as eleições foram largamente ganhas pelo Partido Liberal (centro-esquerda), com derrota significativa dos conservadores, o que pode ser um lamiré do que vão ser as eleições federais num tempo em que estamos todos cansados do actual governo. O governo do Ontário, que é agora de maioria absoluta, será presidido pela senhora Kathleen Winne e é praticamente certo que contará de novo com o luso-canadiano Charles de Sousa, o ministro das Finanças do anterior governo que actuou com competência e bom senso.

Comments


  1. Então o Canadá humanizou ?? ai portugueses ?? Pena serem de vez em quando mandados para o país de origem – como foi família em 2013 de filhos já nascidos em Toronto

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