Diferença no detalhe

No confronto entre Seguro e Costa é, hoje, consensual a constatação do vazio de propostas concretas ou de um debate conceptualmente interessante. Como era de esperar, os discursos de Costa no American Club e no Tivoli foram simples exercícios de oratória em que a ausência de ideias se escondia sob a muralha das palavras. Todavia, por ser de justiça, gostaria de relevar uma das pouquíssimas diferenças de substância entre eles: interpelado pela torpe golpaça eleitoral tentada por Seguro (redução para 180 deputados na Assembleia da República e alteração “ao conveniente” das leis eleitorais), Costa refutou e rejeitou tal proposta, garantindo que, na sua perspectiva, ela era inaceitável por ferir o principio da proporcionalidade – que considerou intocável – e consistir numa ilegítima tentativa de “ganhar na secretaria o que se perdeu nas urnas”. Mau grado a pobreza da analogia futebolística, louve-se e grave-se na pedra esta declaração de António Costa, já que aquele vai ser um caminho tentado pelos sectores mais golpistas do “bloco central”, com previsível efeito catastrófico sobre a legitimidade da representação parlamentar.

Comments


  1. É um detalhe importante, de facto. Mas a prova maior, no imediato, é saber o que diz Costa sobre os seguintes assuntos:
    Tratado Orçamental que o PS assinou – recusa ou não?

    Reestruturação da dívida em prazos, juros e montantes em condições que permitam que a dívida se aproxime dos 60 % do PIB rapidamente, que é a % estabelecida no tratado mirabolante, para nós, já que há quem lucre imenso com isto – tem ou não coragem de assumir uma mudança profunda que o PS recusou sempre?

    Está preparado para impor uma posição unilateral à troyka na defesa dos interesses da maioria dos portugueses, agindo em conformidade?

    O acordo transatlântico entre a UE e os EUA uma vez aplicado e estando nós sujeito a ele, acrescido destas condições, deixam Portugal ao nível de um Burkina Faso, com quem eu sou solidariamente patriota, e onde a Monsanto, a herdeira do napalm sobre o Vietnam, destrói a agricultura e a biodiversidade deste país (por sinal, a UE, passivamente, já permitiu que a Monsanto venha a comercializar mais OGM’s na UE).
    O Costa está disposto a recusar liminarmente este acordo?

    Está preparado para assumir a saída de Portugal da UE face ao risco de Portugal se tornar um país impossível para viver, com as condições que temos e que se perspectivam manter, sem qualquer melhoria antes pelo contrário?

    Estes são tópicos base para qualquer debate minimamente sério para encontrar soluções que nos tirem o garrote que a troika e os partidos do arco da governação nos enfiaram. É a estas questões que Costa tem que começar por responder.


    • Concordo consigo, mar. Este detalhe que abordei ficou-se por aqui pelo facto de eu considerar este ponto importantíssimo, pois pode estar aqui a destruição do nosso sistema político em nome da expedita golpaça que bem conhecemos da história (basta lembrarmos a França do pós-guerra e as manigâncias de De Gaulle) e por, além do mais, ter sido escrito imediatamente após a questão ter sido levantada. Mas quanto à matéria substantiva que está em questão, tem razão nos pontos que enuncia, o primeiro dos quais, o T.O., tem motivado dos candidatos um ballet retórico que seria cómico não fora a gravidade do que está em causa.

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.