The bomb will bring us together

Rui Curado Silva

explosão nuclear no atol de Bikini

A forma como a Associação Fórum Manifesto saiu do Bloco não foi bonita, aquilo não se faz nem numa associação de jogo de berlinde. Tenho muita estima por diversas pessoas da associação por isso preferi sair da Manifesto do que levantar conflitos com questões processuais que são secundárias perante a crise que enfrentamos.

Na última convenção do Bloco apresentei um texto intitulado “A desunião não faz a força”, onde lamentava a falta da união necessária da esquerda em Portugal e na Europa para combater a finança e a austeridade. Nessa convenção integrei a moção B, uma moção de oposição à direção, onde militavam alguns dos aderentes que viriam a sair do Bloco. Desde então essa moção B transformou-se em Plataforma 2014 que tem apoiado o diálogo à esquerda com Livre, 3D, etc., tentando combater o estigma do sectarismo de dentro do BE. Temos conseguido crescer e influenciar uma parte da moção maioritária onde não são poucos que também defendem essa abertura. Tomámos parte na defesa de alguns dos camaradas que saíram do Bloco, sendo frequentemente criticados por esse facto. É por isso desconcertante para todos nós que dentro do Bloco temos tomado estas posições a operação da Manifesto. Mas pior ainda foi esta saída ter alimentado a ideia de que só restam sectários dentro do BE. Essa não é nada justa. Com todos os seus problemas, o Bloco é um partido onde todos se podem exprimir livremente (lembram-se da Ruptura-FER?), bem diferente do PCP ou do PS que expulsou esta semana uma centena de militantes honestos e mantém a filiação de militantes condenados por corrupção.

Atualmente, no espectro político português temos o POUS que defende a união do PS com o PCP e o MAS que defende a união do BE com o PCP. Se a resultante da saída da Manifesto for um novo partido que defende a fusão de partidos à esquerda, desculpem camaradas, mas nem a CIA nos seus melhores dias conseguia ser tão eficiente a estilhaçar as esquerdas dos países em que intervia. A atomização das esquerdas está descredibilizar todo este espaço político e a minar aquele trabalho de formiguinha (com sindicatos, na implantação local, etc.) que leva anos a dar frutos.

Em relação ao conteúdo programático de um suposto partido (ou outra estrutura) que emergirá da Fórum Manifesto e do ex-Manifesto 3D é difícil vislumbrar grandes novidades em relação ao que é proposto pelos diferentes setores do BE. O que se nota é que as propostas anunciadas sofrem de defeitos típicos de propostas resultantes de divisionismos. São propostas que requerem mais trabalho, mais aprofundamento, mais gente a rever textos e não de menos gente, por muito iluminada que se considere. Às ambiguidades na gestão do Tratado Orçamental em conjunto com o PS junta-se a incerteza que paira sobre esta aliança sobretudo depois do namorico de hoje entre Rio e Costa. Não me parece que estes dois estejam disponíveis para um menage-à-trois. Além do mais, aquele discurso da defesa do país (ou dos portugueses) remete-nos para conteúdos programáticos do patriotismo de esquerda do PCP. Por exemplo, a UDP concorda com esse discurso pacificamente.

Não tenho grandes certezas sobre o que nos reserva o futuro, exceto que a partir de agora tudo será mais difícil para a esquerda e mais fácil para a finança e para o capitalismo austeritário.

Imagem: explosão nuclear no atol de Bikini, arquivo US DOD

Comments

  1. Gottlieb says:

    O título deste post poderia ser:
    Os sectários que ficaram no BE mais um.

    Aliás, quem compara Costa ao Rio e os dissidentes do BE à CIA, fica bem junto aos demagogos sectários.

    O meu amigo tem antepassados na orquestra que tocava quando o Titanic se afundava?

    • Rui Curado Silva says:

      Este comentário é bem ilustrativo do que descrevo na segunda secção, uma leitura na diagonal e lá está o Bloco todo a passar por sectário. Todos os que dentro do Bloco temos trabalhado (e continuremos a trabalhar) para um entendimento com forças como o LIVRE e o ex-Manifesto 3D, que defenderam em debates posições do Daniel e da Ana são passados a ferro. O meu texto da conveção “A desunião não faz a força” era sobre quê?
      Não se pode ter a opinião que dividir em nome da união das esquerdas pode ser um erro, sem se passar por sectário?

  2. Sarah Adamopoulos says:

    intervia não: intervinha.

  3. Rogério M says:

    Não sei o que seria para o Rui uma saída “bonita” mas sei que esta foi após as eleições e, portanto, menos penalizadora do que se fosse há uns meses atraz. E motivos fortes não faltavam após duas graves decisões: recusa de coligações autárquicas e resposta negativa ao 3D. Mas, como o Rui bem sabe, berlindes não são a especialidade da casa e o assunto foi bem mais ponderado do que aqui se dá a entender. Essas e outras posições já posteriores (v. a “carta às esquerdas”) é que “estilhaçam” as esquerdas porque são avessas a qualquer tipo de compromisso e indiferentes à (excecional) gravidade do momento. Afetam, de modo talvez irrecuperável, a credibilidade do Bloco e daqueles que, mesmo pensando de modo diverso, se desgastam nas lutas entre correntes e tendencias internas, sem fim à vista. Mas faz bem o Rui em lembrar o que dizem o velho POUS e o novo MAS porque, por estranho que pareça, é com eles que melhor rima a nova tática bloquista: namoro ao PCP e propaganda qb.

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  1. […] que «enfrentamos uma crise», apesar de a dimensão dessa «crise» ressaltar bastante pequena no seu texto, focado nas coisas domésticas do Bloco de Esquerda (que interessam pouco a generalidade dos […]

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