Quem percebe de Educação? Os gestores, claro! (3)

Carlos Guimarães Pinto (CGP), apesar de se ter sentido ofendido com as minhas críticas, ainda se deu, generosamente, ao trabalho de contestar um outro texto meu.

Nesse seu sofrido comentário, continua a não responder a nenhuma das perguntas que lhe coloquei em qualquer um dos textos anteriores e faz deduções que são, no mínimo, cómicas.

Desta vez, vem armado até aos dentes com gráficos que, no seu entender, são suficientes para explicar a realidade, gráficos cujos dados, aliás, dependem da informação transmitida pelos governos, que, como se sabe, são entidades absolutamente competentes, impolutas e desinteressadas.

Em primeiro lugar, continua a não resistir ao fascínio do “rácio” professor-alunos, “rácio” esse que é suficiente para concluir que há professores a mais. É claro que, mais uma vez, CGP não explica, por exemplo, de que modo são contabilizados os professores. No entanto, a decisão de contratar mais ou menos professores não se pode limitar à comparação com outros países, mas, para compreender isso, lá está!, CGP teria de estudar mais. Ou melhor: teria de estudar.

Depois, atira mais umas tiradas, declarando, por exemplo, que os professores passam pouco tempo nas escolas a desempenhar outras funções para além das docentes, (como se fosse possível saber isso com base nos dados que utiliza), que os professores ganham mais do que alguém com as mesmas habilitações (o que não é o mesmo que dizer que os professores ganham bem) ou que os professores não andam a perder poder de compra.

Finalmente, como se tudo isto não tivesse piada suficiente, ainda cria uma inexplicável relação de causa e efeito entre o poder dos sindicatos e o peso dos salários na Educação.

Ainda motivado por tanto disparate, resolvi passar os olhos pelo livro que CGP anda a vender. É claro que me fiquei pelo capítulo da Educação e é evidente que não o adquiri, porque, apesar do meu elevado poder de compra, falta-me dinheiro para inutilidades.

A leitura foi, obviamente, divertida, porque sou um fervoroso adepto do ensinamento que nos dita a substituição das lágrimas pelo riso. Deixo-vos três citações e respectivos comentários:

Uma boa parte dessa perceção [de que há turmas com muitos alunos] resulta de um empolamento mediático de casos pontuais (…).

Para quem se declara tão amigo dos números, uma expressão como “[u]ma boa parte” é demasiado ambígua. Depois, não perde tempo a demonstrar que tenha havido pelo menos um caso em se tenha verificado “empolamento mediático”. De qualquer modo, se os três foliões estivessem interessados em estudar o assunto, poderiam ter consultado algumas páginas de escolas, em que é possível ver o número de alunos por turma, e reunir uma amostra significativa que corroborasse a afirmação. O problema é que isso implicaria fazer algo em que não estavam minimamente interessados: investigar.

A partir dos 40 anos, os professores veem o número de horas semanais de aulas reduzido em duas horas a cada cinco anos.

Mais uma vez, os três histriões poderiam ter tentado consultar legislação actualizada que lhes permitisse não cometer este erro, uma vez que já não é assim há uns anos.

É do conhecimento geral que a melhor qualidade de ensino no país se obtém em escolas privadas, o que ficou comprovado nos últimos anos em que se iniciou a publicação dos rankings das escolas secundárias.

Mais uma vez, estamos na presença do pensamento simplista que reduz a avaliação das escolas ao lugar que ocupam no ranking. O mundo reduzido a listas e gráficos parece muito simples, sobretudo quando não se quer perceber que a questão do sucesso educativo é um bocado mais complexa. É curioso, a propósito, que tenha havido um estudo em que, por exemplo, se concluía que os alunos das escolas públicas estão mais bem preparados dos que os das privadas.

Não tenho a certeza se o Paulo Guinote estaria a fazer referência a este livro, mas, se sim, só posso concordar: olhar para a bibliografia é suficiente. De qualquer modo, já em visitas anteriores ao Aventar, CGP revelava uma enorme pobreza de raciocínio, no que se refere ao tema em discussão.

Este livro, pelo menos no que se refere a Educação, revela leviandade, má-fé ou ambas. Qualquer um dos três autores está, portanto, pronto para substituir Nuno Crato: temos matéria ministeriável. É só por isso que esta malta é perigosa para a Educação. Pela minha parte, estou a pensar seguir o exemplo dos três insurgentes e escrever um livro inteirinho sobre Biologia: afinal, vejo seres vivos todos os dias.

Comments


  1. Eu cá já os deixo a falar sozinhos… quem não sabe fazer nada, diz-se “empreendedor”.
    O livro e os escritos são ao nível de um qualquer trabalho mediano de uma licenciatura dos tempos em que não se davam canudos à relvas.

  2. carlota says:

    Eis um texto inteligente, e eficaz !
    Um bom fim-de-semana.

  3. Carlos Guimarães Pinto says:
  4. Carlos Guimarães Pinto says:

    Você fala em pobreza de raciocínio, mas o melhor que consegue é isto. O melhor que consegue para contrapôr números da OCDE é dizer os números não são o que parecem, sem explicar mais. É mandar-me estudar, sem dizer quais seriam exactamente as conclusões que resultariam desse estudo adicional. O melhor que consegue é criticar a origem e fiabilidade dos dados, sem contrapôr com dados mais fiáveis ou explicar porque é que não são fiáveis. O melhor que consegue é cair no ridículo de defender que os professores não ganham muito, o resto do país é que ganha pouco. Se o melhor que consegue é acusar-me de estar interessado em tacho ou ser o porta-voz de alguém (eu que estou há quase uma década fora do país e sem grandes intenções de voltar). Se o seu raciocínio não consegue ligar o peso dos salários e o aumento destes à força dos sindicatos, então a acusação de pobreza de raciocínio vinda de si soa cada vez mais a elogio.

    Mas eu, ao contrário de si, não acho que os seus erros venham de pobreza de raciocínio ou falta de inteligência. Derivam mesmo de estar a julgar em causa-própria. E é por isso que as suas opiniões, mesmo com algum conhecimento de campo, valem muito pouco nestas discussões. É tão imparcial e capaz de julgamentos imparciais como um qualquer Mário Nogueira ou Paulo Guinote.

    • António Fernando Nabais says:

      Como estou mesmo mesmo prestes a iniciar uma imerecida semana de férias durante a qual terei pouco tempo para ler e/ou comentar, aqui fica um telegrama.
      1 – os números da OCDE, independentemente da sua fiabilidade (duvidosa, como já muitos demonstraram), não são suficientes para explicar que se deve despedir ou contratar professores. Faz tanto sentido defender o despedimento de professores porque um país está acima da média como faria sentido outro país começar a contratar em barda porque os números indicam que está abaixo da média.
      2 – a questão salarial não é a mais importante, mas é evidente que a comparação, a fazer, não é com o “resto do país” e sim com os outros licenciados.
      3 – pelo meio da polémica, passou ao largo de muitas questões e insiste em fazer deduções que não lembram ao diabo. Gostaria, ainda, que explicasse como é que é possível gente alegadamente tão rigorosa publicar um livro em que faz referência a legislação desactualizada e que avança conclusões sobre o número de alunos por turma sem reunir dados que corroborem as suas afirmações (isto explica-se porque o livro, no âmbito da Educação, não passa de um conjunto de impressões ao nível de qualquer conversa de café).
      4 – como já afirmei, as escolas têm todo o interesse em utilizar instrumentos vindos do âmbito da gestão e da economia, mas em nenhuma área é aceitável ignorar completamente os contributos dos profissionais da área (e só um ignorante é que pode afirmar que os professores mandam no Ministério).
      5 – não me interessa se está ou não à procura de “tacho”. Quando disse que os três insurgentes são “material ministeriável” quis dizer que são suficientemente ignorantes para ocuparem o lugar, porque não destoariam.
      6 – a partir do momento em que decide que o oponente num debate nunca pode ter razão porque está a agir em “causa própria”, revela, no mínimo simplismo e fica, portanto, incapaz de debater. Por outro lado, você não passa de um crente nas virtudes absolutas do gestor-economista, essa espécie de super-homem que paira sobre o povo ignaro. É quase uma questão religiosa.
      7 – os verbos compostos de “pôr” não são acentuados no infinitivo e não existe a palavra “causa-própria” (existe a expressão “causa própria”). Qualquer licenciado tem obrigação de saber isto, independentemente de ser professor ou não.

      • Carlos Guimarães Pinto says:

        1. Os números da OCDE são um indicador e o melhor que existe. Se tiver melhores dados, de fontes mais reconhecidas, à sua disposição, estarei interessado.
        2. A comparação do gráfico é com outros licenciados, não com o resto do país.
        3. Algumas das deduções não lembram ao Diabo para quem não tem formação económica. Quem a tem entende porque é que alguém escohe enveredar por um curso com garantia absoluta de desemprego e precariedade nos primeiros 10 anos. Quem entende sistemas de incentivos, sabe fazer a ligação entre a força sindical de uma classe e a parte do orçamento do sector dedicada a salários. Em relação ao livro, os dados sobre a educação (para quem não leu, a educação é apenas um dos 10 temas do livro), comprovam aquilo que lá está escrito. Em geral as turmas não são grandes (estão na média da OCDE), mas deveriam ser menores porque o rácio de professor por aluno é elevado.
        4. Eu acho que só um ignorante pode pensar o oposto, mas se calhar achar que quem tem uma opinião diferente é, por definição, ignorante não é um bom início de discussão.
        5. Aplica-se aqui o mesmo que em 4.
        6. A verdade é que nunca vi um professor a defender algo na gestão educativa que o prejudique, mesmo que os números assim o indiquem. Por exemplo, a questão salarial nos professores do quadro é evidente. Dar-lhe-ia alguma credibilidade encarar alguns destes factos e aceitar que, possivelmente, os salários dos professores são altos para a realidade do país ou que, possivelmente, precisaremos de menos professores do ensino básico dada a queda da taxa de natalidade.
        7. Tem toda a razão.

        • André Leal says:

          Já lhe tinha deixado outros números no seu blog, CGP. Preferiu é ignorá-los… Relembro-lhos:

          – Investimento público na educação em Portugal em: 12,7% (2000) /11% (2010)
          – Percentagem de contribuição pública na educação em: 98,6% (2000) /92,6% (2010)
          – Percentagem de contribuição pública no ensino superior /2010: 92,5% (2000) /69% (2010)
          – Gastos anuais por estudante em USD e usando PPP em 2010:
          a) Ensino pré-escolar: 5977 (Portugal) /6762 (OCDE) /7085 (E21)
          b) Ensino básico: 5922 (Portugal) /7974 (OCDE) /8277 (E21)
          c) Ensino secundário: 8882 (Portugal) /9014 (OCDE) /9471 (E21)
          d) Ensino superior: 10578 (Portugal) /13528 (OCDE) /12856 (E21)
          – Variação de número de horas dedicadas a aulas por professor do ensino público:
          a) Portugal, ensino Primário: 815 (2000) /880 (2010)
          b) OCDE, ensino Primário: 780 (2000) /790 (2010)
          c) Portugal, ensino Secundário (baixo):595 (2000) /774 (2010)
          d) OCDE, ensino Secundário (baixo): 697 (2000) /709 (2010)
          e) Portugal, ensino Secundário (alto):515 (2000) /774 (2010)
          f) OCDE, ensino Secundário (alto): 628 (2000) /664 (2010)

        • Nightwish says:

          E nesses números da OCDE, apreendeu algo sobre os países nórdicos?
          E quando a qualidade representada nesses índices começaram a descer por aí abaixo daqui a uns anos, graças às cratonices todas, vai dar a cara pela destruição do ensino (público) de qualidade para todos ou vai ser mais um que vai fugir das consequências do aumento da desigualdade, da pobreza e da inovação em Portugal?

  5. Pedro says:

    Mas o que traz a mentalidade de gestão ao mundo da educação? Não mais do que despedimentos, diminuição dos custos do trabalho, cortes em recursos — e, se não encontrarem travão, aumentam (diria eu em causa própria) a máquina de administração e gestão e toda a parafernália de accountability, marketing e soundbites de exigência que pouco mais é do que uma forma de justificar a própria existência. Nada de propriamente educativo. Mas, claro, para isso basta obedecer a um qualquer governo, convenientemente assessorado por lobbies de gestores e economistas. Cada macaco no seu galho, com os professores (que, no fundo, mantêm o core business da educação funcionar) no fim da cadeia alimentar, como convém. Estamos em lados contrários e em guerra. Ao contrário do que nos querem fazer ver os “gestores”, esta não é uma questão de racionalidade económica. É ideologia, pura e dura. Trata-se de abater o custo do trabalho do professor em dinheiro e esvaziá-lo de valor simbólico, tornando-o num serviço barato e descartável. Não se pode esperar que os professores fiquem sentados a ver e a aplaudir.


  6. Dizia-me um professor de filosofia/psicologia que dava aulas no privado, que quando se sentavam em reuniões de fim do ano, com o director do colégio, este lhes lembrava que reprovar alunos era tratar mal os “clientes”…

  7. Dora says:

    O António Nabais deu-se ao trabalho de responder e fez bem e fê-lo com nível. Creio que não nos devemos calar e o devemos fazer com honestidade intelectual e com a experiência que fomos adquirindo. Mais, creio firmemente que o devemos fazer sem sobrancerias. A arrogância e o desprezo, a par com a sobranceria do “nem me dou ao trabalho de responder” são sinais pouco saudáveis.

    Por isso, cumprimento O Fernando Nabais. O mesmo não posso fazer do blogger Paulo Guinote. Lamentavelmente, troca argumentos por algo tão infantil como o foi postar de 1 foto do visado por este texto do Fernando Nabais, ao jeito de alguma adolescência no facebook, esperando likes.

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  1. […] como previ no final deste texto, a malta do costume (o António Nabais de forma honesta e directa no Aventar e o Paulo Guinote no seu habitual estilo dissimulado numa série de posts sem links) […]


  2. […] e ao que parece vai no terceiro texto por causa de umas coisas escritas por um tipo que, na falta de melhor, se afirma […]


  3. […] à espera que os pândegos insurgentes, blasfemos e observadores venham explicar que este atropelo ético resulta do imenso poder dos […]

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