Obrigada por este bocadinho, François!

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145 mil exemplares vendidos em 4 dias (de uma 1ª tiragem de 200 mil)

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Valérie Trierweiler na noite da eleição de François Hollande, em Maio de 2012

[Resumo do 1º capítulo]
Valérie (Val) era feliz junto do seu François, organizando almoços de caridade e promovendo o bem em redor dela com a ajuda, designadamente, do seu chefe de gabinete – um antigo jornalista da RFI. Até que outra mulher (há sempre outra) lhe tirou o marido e o descanso. Interrogado certa tarde no apartamento conjugal, na sequência de algumas notícias que o davam como adúltero (um fotógrafo paparazzi apanhara-o a sair de motorizada pela manhã, da casa dessa outra mulher), François confessou: que sim, que andava a dormir com outra há um mês. Val conteve-se para não gritar com ele nem partir loiça, e propôs-lhe que fizesse sem mais demoras uma declaração pública pedindo-lhe desculpas e comprometendo-se a não voltar a ver essa outra mulher. Sucede que François estava afinal a mentir, e que já andava naquilo há mais tempo. Há quanto tempo François? perguntou Val. Há três meses. Não, há seis. Não, desculpa, há nove. Um ano, na verdade, disse finalmente François, antes de voltar para o seu gabinete. Val fica ali feita parva no apartamento e a sua tarde de trabalho vai para o galheiro.

À noite, François volta para jantar e Val vai dar com ele de joelhos no quarto, a cabeça entre as mãos. Como é que vamos fazer? pergunta perdido de todo. Durante o jantar, Val pergunta-lhe onde está afinal o presidente exemplar, que anda naquela vida durante a noite enquanto as fábricas fecham, o desemprego aumenta e a sua popularidade baixa todos os dias? Val pensa primeiro no desastre político, embora mantendo a esperança de vir a salvar a sua relação. Val não consegue engolir nada, quase não toca no jantar. François come e depois deixa-a entregue ao seu tormento, para voltar para o gabinete, onde o que há mais é dossiers à espera dele. Val decide então ir ter com o secretário-geral do Eliseu, que a recebe de braços abertos, nos quais chora pela primeira vez. Nessa noite, François toma um sonífero e Val não prega olho. Às cinco da manhã, cheia de fome, dá consigo em frente ao televisor a comer os restos do jantar e a ver os primeiros telejornais do dia. Em todos os canais, a notícia de abertura é a mesma: François anda a pular a cerca.

Aquilo é demais, e Val decide tomar vários comprimidos para dormir. Daí a umas horas é hospitalizada. O responsável pela sua segurança desde a eleição de François está por ali perto vestido de enfermeiro, é ele que fará a triagem das visitas. Na imprensa, só se fala naquilo, na primeira-dama hospitalizada, coitada, e os conselheiros de François advertem-no para a necessidade de encurtar a estadia de Val no hospital, pois não serve a boa imagem do presidente dos franceses. Ultrapassada a proibição médica de ver François, Val recebe o marido no hospital. Os dez minutos acordados por indicação médica transformam-se numa hora. François anuncia-lhe que se manterá afastada de toda e qualquer actividade pública. Não pode ser, insurge-se ela, apesar de estar cheia de tranquilizantes, a tensão baixíssima. Ai pode pode, responde-lhe ele com firmeza. Vinte anos de cumplicidade, ao lado dele em todos os grandes momentos, primeiro como jornalista (a sua preferida) e depois como sua mulher, esfumam-se nuns poucos dias. A dose de tranquilizantes aumenta, para que Val não tenha ideias. François conhece-a, bem sabe do que é capaz (de conduzir cinco horas de enfiada apenas para o ir ver, por exemplo).

Val é levada para a Lanterne, residência alternativa presidencial desde 2007, sita em Versailles. Os «jornalistas» acampam por lá durante essa semana. Val recebe mensagens de reconforto de Carla Bruni, de Claude Chirac, de Alain Delon (!), e nenhuma da equipa no poder, parece impossível que as pessoas sejam mesmo tão ruins. Nem Manuel Valls lhe telefona. Daí a uns dias François aparece para conversarem. Encontram-se num salão onde a mulher de Malraux, ministro da Cultura de De Gaulle, tocava piano. François senta-se num sofá, Val noutro, a distância antevendo o que aí vinha: François anuncia-lhe a separação, irrevogável, hélas. Val sente-se anestesiada. François acaba por ficar para dormir – noutro quarto, hélas. Val dorme mal, tem pesadelos, sonha com o marido nos braços da outra, acorda num pranto. No dia seguinte, combinam um encontro para quinta-feira. Ah, as quintas-feiras, o dia de Val e de François, tornados amantes numa quinta-feira, que era também o dia de se encontrarem entre 2005 e 2007, e ainda o dia de uma canção famosa do Joe Dassin: «Souviens-toi, c’était un jeudi…».

No dia marcado, Val e François encontram-se no apartamento de Paris, almoçam juntos, e ele lança a conversa da questão material, diz-lhe que não se preocupe, que há-de receber muitas propostas de trabalho. Ele sabe que o ordenado de Val como «jornalista» na Paris-Match não chegará para fazer face às despesas, ela tem três filhos a seu cargo, muitas despesas, uma imagem a manter. O dinheiro nunca a moveu, mas receia a precariedade, os dias em que já não puder trabalhar, a pobreza na terceira idade. A memória das privações na casa familiar emergem. O olhar triste da mãe no dia em que perdeu o porta-moedas num supermercado (onde tinha dinheiro para dar de comer aos filhos durante vários dias). Não, cair na pobreza jamais. François pede-lhe que abandone a ideia de escrever um livro sobre o que se passou, que simplesmente assuma a separação publicamente, que siga em frente. Val diz-lhe que nem pensar nisso é bom, que a ruptura fôra provocada por ele, e exige-lhe a pronta devolução da cópia da chave de casa que ainda tem em seu poder. A guerra declara-se entre Val e François.

Apesar disso, o malogrado dia de anunciar a separação chega mesmo. Val é perseguida por uma horda de «jornalistas» entre Versailles e Paris, no dia em que tira as suas coisas de todos os espaços presidenciais. Em Versailles, despede-se do casal de jardineiros agarrada a eles, choram todos. Já em Paris, François lê-lhe o comunicado que se prepara para tornar púlico atráves da Agência France Presse. Val enfurece-se com o laconismo da frase em que fica anunciado o fim da sua vida em comum com ela. Inesperadamente, François tenta beijá-la, propõe-lhe que passem uma última noite juntos. Val nem acredita no que ouve, as lágrimas inundam-lhe a face, e felizmente um empregado entrega-lhe um maço de lenços de papel, de que ela usa e deita fora vários até se recompor minimamente. Val sente-se nesse momento como um desses kleenexes, o kleenex de François, que ele usou e agora pretende deitar fora (assim mesmo o descreve). Momentos depois, François manda-lhe um SMS a desculpar-se por tudo e diz-lhe que ainda a ama. Fazia sentido, aquilo? Por amor de Deus, pensa Val.

Uma vez chegada a casa, tenta manter-se afastada da tevê e da rádio, mas o seu telefone não pára: a notícia chegou a todos, a todo o lado, até mesmo à imprensa internacional. Decide então ver um filme, procura entre os DVDs algo que possa distraí-la do pior momento da sua vida. Infelizmente sai-lhe uma tragédia, e a noite será atormentada. No dia seguinte, Val parte para a Índia com uma equipa de Action contre la faim.

Comments

  1. Rui Moringa says:

    Vidas desgraçadas em cima de mentiras, sustentadas à custa de muita propaganda.

  2. el portela says:

    Ás tantas é por esta e por outras que os homens andam a casar uns com os outros.

  3. Anasir says:

    É triste vir lavar a roupa suja em público…


  4. Em república devia ser proibido o estatuto de 1ª dama ou 1º cavalheiro. O estado francês devia exigir o pagamento da residência em Lanterne. Que o presidente partilhe a cama e o comer com uma mulher a expensas do estado, vá. Deixando de a partilhar, a senhora ou o cavalheiro que paguem a pensão. Quanto ao livro, a vida dos meus vizinhos é muito mais interessante. Não compro.

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  2. […] em serviço para a sensacionalista Paris-Match, os notáveis do partido socialista francês) e narrativa testemunhal diarística. Uma espécie de memórias antes do tempo delas (Trierweiler não tem ainda 50 anos […]

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