Ódio em nome de Deus

A comunidade islâmica do Canadá está receosa. E tem razão para o estar depois dos crimes cometidos por simpatizantes dos radicais islâmicos no Quebeque e em Otava. Martin Couture-Rouleau, de 25 anos, ao atropelar dois soldados num parque de estacionamento na província francófona, tendo morto um deles, e Michael Zahaf Bibeau, de 32 anos, ao abater a tiro o soldado que fazia a guarda de honra do Soldado Desconhecido, na capital federal, invadindo depois o parlamento, tendo no final sido ambos abatidos a tiro pelas forças de segurança, quebraram uma maneira de viver nacional feita de respeito pela diversidade e pela tolerância. Segundo país maior do mundo, depois da China, apenas com 35 milhões de habitantes, ocupando lugar de destaque entre os países com melhor qualidade de vida, o Canadá é um país onde têm vivido em harmonia, respeito e dignidade, pessoas oriundas de 190 países. É um país feito por imigrantes, onde tem sido possível respirar em paz e segurança. Ao contrário do melting pot americano (ou mesmo brasileiro), o multiculturalismo praticado pelo Canadá saldou-se pela positiva na inteira liberdade com que cada grupo étnico pode ter as suas escolas, clubes, religiões e culturas.

Tudo isto aliado ao facto de o povo canadiano ser simpático, afável, generoso e comunicativo, fez do Canadá um oásis de bem estar e um destino apetecido de todos aqueles a quem os governos dos seus países trataram mal.

Na verdade, o Canadá, que é de seu natural discreto e modesto, tem sido uma grande aldeia onde as pessoas se sorriem e saúdam, ao cruzarem-se nas ruas, mesmo sem se conhecerem.

Nas escolas do Canadá o civismo é transmitido de forma natural. Considero uma experiência forte ter passado pelas escolas canadianas nos meus primeiros anos de estadia neste país. Ali, alunos de todos os extractos sociais e raças aprendiam, de par com a língua, a viver serenamente uns com os outros, a saberem dos seus deveres e direitos. Lembro nitidamente um dia em que todas as mulheres estudantes foram convidadas a encher um vasto salão para ouvirem informação e ensinamento ministrado por um advogado, uma assistente social e um chefe da polícia. Tratava-se de alertar para a violência doméstica, severamente punida no Canadá, e de ensinar a preparar um kit para o caso de fuga, sozinhas ou com filhos, locais e números de telefone onde se dirigirem, informar sobre os abrigos que as receberiam, as profissões que podiam aprender, os serviços jurídicos com que podiam contar. Lembro igualmente outro dia em que a aula foi de ensinar os imigrantes a defenderem-se de senhorios desonestos e invasivos. E tudo isto com a maior abertura, sem que o professor anglo-saxónico puxasse a brasa à sua sardinha.

Mas também lembro aquele rapaz de Haifa, na Palestina, muito moreno e de olhos claros, que falhou umas aulas e apontamentos e me pediu ajuda nas vésperas de um teste, a quem eu pude dar todo o material de que dispunha, explicando-lhe uma coisa ou outra. Safou-se bem no teste e e veio ter comigo nestes termos: “Nunca mais me vou esquecer que tu me ajudaste. Se algum dia o teu povo precisar de ajuda, diz-me que eu faço o que for preciso”. Achei tão exagerado que me permiti perguntar: “E que podes tu dar ao meu povo?”. Sem pestanejar, respondeu: “Arranjo armas”. Senti-me gelar, mas não perdi a compostura: “Armas, donde? De Israel?”. Que não, garantiu-me, mas sim da (então) União Soviética. Pensei num relâmpago “eles afinal estão cá dentro”. Com o tempo viria a saber que também cá está a máfia italiana, a máfia chinesa, a máfia russa e a máfia judaica, todos a fazer pela vida de modo subterrâneo. E, portanto, achei natural que seja tão poderosa a Real Polícia Montada do Canadá (RCMP), feita de vários departamentos, do serviço de fronteiras ao criminal, da espionagem à contra-espionagem. Nem me impressiona nada saber que, discretamente, vigia o país de alto a baixo. Não é uma pide rafeira e boçal, ao serviço de uma ditadura, invadindo casas, torturando pessoas, estragando vidas. Nem é uma secreta piroleira que rouba informação para vender a empresas, pelo caminho denunciando quem não é da cor do governo, como acontece em algumas democracias mal amanhadas. A RCMP é um instrumento de defesa nacional, igual à de vários países civilizados.

Mas a rede policial tem, pelos vistos, malha por onde passaram os dois criminosos acima citados, que trazia debaixo de olho por delitos comuns e declarada simpatia pelos radicais islâmicos, mas sem prever que podiam ser tão perigosos esses dois filhos do Canadá. Infelizmente, não serão caso único nem último. Estamos perante um facto consumado: jovens de vários países, moralmente aleijados, juntam-se ao grupo de assassinos que degolam, raptam, torturam, roubam armas, traficam droga, para erguerem um Califado. São, todos eles, nem mais nem menos, assassinos sanguinários que, para ficarem bem no retrato, afirmam que fazem o que fazem em honra de Alá. Para se encharcarem bem de sangue alheio e não meterem um bala na própria cabeça, em horas de reflexão, precisam desta muleta. Praticam o ódio em nome de Deus. Enganam-se a si mesmos porque, depois do que está à vista, não sei como é que alguém se pode considerar enganado por eles. Portanto, o destino desta seita está traçado. É uma questão de tempo.

As generalizações são sempre injustas. Temos de ser fortes e lúcidos, reconhecendo que há um elevado número de muçulmanos moderados, decentes, normais, que precisamente por sê-lo têm sido cruelmente perseguidos por aiatolas e talibãs, acabando por se expatriar. Também eles são vítimas dos radicais islâmicos. As maiores vítimas, sublinho, são as mulheres e as crianças, a quem os radicais escravizam, prostituem, vendem como gado. É de elementar inteligência e boa vontade, ajudá-los a retomar uma existência digna nos seus países de origem. Até agora, no Canadá, todos temos entendido isto. Mas crimes como os que ocorreram no Quebeque e em Otava, podem fazer as pessoas mudar de ideias. É o que a comunidade islâmica receia. É o que todos não desejamos que aconteça. Portanto, resignemo-nos à realidade: o Canadá passa a viver com mais cuidado e atenção.

Comments


  1. Desde pequeno me habituei a conviver com muçulmanos. Um dos meus amigos de adolescência, colega de liceu, natural de Moçambique, tinha raízes indianas. Através dele conheci outros em Portugal. Gente de paz, tolerante, uns mais moderados, outros um pouco mais fervorosos a defender as suas crenças, mas de forma alguma os posso apelidar de fundamentalistas. Mais tarde encontrei em África libaneses, indianos, paquistaneses, nigerianos, malianos, senegaleses, costa marfineses, guineenses e muitos outros. Também eles como eu, cidadãos que viajam, se cruzam em várias cidades, procuram comunicar e frequentemente se entendem. Concordo com o que diz, o Islão é uma religião tão pacífica como o cristianismo ou judeísmo. Em qualquer crença poderemos encontrar pessoas civilizadas e estabelecer pontos de contacto, graças ao muito que nos une.
    Mas também existe o outro lado, o extremismo, gente ignorante que se arroga no direito de estar certa, para eles o outro está errado, logo é um inimigo a combater. São algumas minorias com raízes no exterior das nossas fronteiras, mas também no interior. No Canadá não sei, mas encontro com frequência pelas redes sociais pessoas que apelam ao extremismo, utilizando uma violência verbal que francamente é lamentável. Gente que se acha superior ao outro porque é católica, talvez fizessem bem ler a Bíblia, digo eu que até nem sou crente, ou porque tem a pele mais clara, ou simplesmente porque nasceu em Portugal.
    E também temos o fenómeno de portugueses que se juntaram ao grupo terrorista denominado “estado islâmico”, esta semana houve até uma polémica com as declarações de Rui Machete. Há no entanto segundo li, algum cepticismo quanto à vontade genuína de regressarem às origens, pois tudo pode não passar de mais uma manobra de diversão…
    Sem dúvida temos que conviver com estes fenómenos extremos, no Canadá, Portugal, um pouco por todo o Ocidente, mas é fundamental firmeza e tolerância 0 com o extremismo Toda a espécie de extremismo, assim que passe das palavras aos actos, mas sem cair numa deriva securitária que prive a Liberdade às sociedades. Isso seria uma vitória do extremismo, a pior das soluções…

  2. Nightwish says:

    Espero que o Canadá não entre por histerismos e se lembre que o número de vítimas não justifica um teatro de segurança com o tamanho e custo (monetário e em direitos) do seu vizinho.

  3. Candido says:

    Amigo de cães que me assumo, um dia adoptei um cão que precisava de um lar. Não liguei a linhagem dele.
    Era um cão e eu gosto de cães.
    Era um cão ainda júnior.
    Dei-lhe banho, desparasitei-o, alimentei-o e arranjei-lhe uma cama onde o “Ingrato” dormia todo o tempo que entendia.
    Batizei-o de Ingrato, porque?
    Porque sempre que lhe dava banho, ele me molhava e tentava ferrar-me o dente. Dava-lhe comer e tinha de me afastar de imediato do recipiente, ou candidatava-me a uma valente dentada. Quando o levava ao veterinário, o clinico tinha de amordaçar o Ingrato para não ser atingido pelas suas mandíbulas.
    Via os outros canídeos das mais diferentes raças e tamanhos físicos serem observados pelo Vet. sem necessidade de “colete de forças”.
    Envergonhado e triste, dizia para com os meus botões: tive pouca sorte no cão que levei para minha casa.
    Ensinei-o que não devia enterrar comida no quintal, a qual o Ingrato mais tarde ia desenterrar e comer.
    Com que necessidade? … se ele tinha comida limpa em recipientes higienicamente a sua disposição?
    Comecei a perder a minha angelica paciência.
    Passou a estar preso a uma corrente, situação que ele não estava habituado.
    Mesmo “preso” ele destruía tudo no raio onde a corrente lhe dava liberdade.
    Comecei – contra os meus princípios – a castiga-lo fisicamente.
    Enrolei um jornal e era com este “pau” que lhe batia.
    Os meus vizinhos, todos eles pacientes, tolerantes, muito mais cândidos que eu, me censuravam dos “maus tratos” que eu infligia ao Ingrato.
    Pensei…. vou mandar o Ingrato embora, e acaba-se o meu martírio.
    Quando eu participei aos meus vizinhos a minha decisão, fui mimoseado com os piores adjectivos humanos possíveis.
    Alguns deles ate já nem me cumprimentavam como era habitual.
    Triste sina a minha…. fiquei com o Ingrato.
    Só que o bichano apercebendo-se de que estava a ser “vencedor” ( ele era cão mas inteligente) um dia partiu a corrente a que estava preso, e fornicou a cadela da minha mais paciente e tolerante vizinha.
    A dona da violada em tom colérico, ordenou-me que prendesse o cão, ou altear os muros do quintal para evitar violações não desejadas, ou…. em ultima decisão “desfazer-me” do Ingrato.
    Comprei uma nova e mais forte corrente de ferro.
    O Ingrato lembrou-se de começar a ladrar a qualquer hora da noite.
    Fui chamado ao manager do condomínio.
    Este administrador disse que eu tinha de despachar o cão pois os vizinhos precisam de descansar e não toleravam o ladrar do Ingrato.
    Perdi a minha angelica postura.
    Disse PORRA!!!!!! quando eu queria ensinar o Ingrato a ser social chamavam-me intolerante, quando eu castigava o Ingrato acusavam-me de racista e cruel !
    Imagine-se…. eu que ate gosto de cães, sejam eles rafeiros ou perdigueiros.
    Agora que o Ingrato invadiu o conforto e segurança dos meus vizinhos, veem estes berrar aqui el-rei?
    Puta que os pariu a todos. Disse eu alto e com som bem audível.
    Aguentem o ladrar e os ataques de sexo do Ingrato.
    Vocês são muito mais mais racistas do que eu, quando lhes toca na pele.
    Esquecem-se que quem nasceu lagartixa, não chega por muito que queira a jacaré.

  4. Josand says:

    Deve corrigir: “Segundo país maior do mundo, depois da China” por
    “Segundo maior país do Mundo a seguir à Rússia”
    Canadá: 9 984 670 km²
    Rússia: 17 124 4422 km²
    China: 9 596 961 km²

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.