neste país chove um mundo frio

neste país chove um mundo frio. passo uma parte da manhã à espera de alguém que aparece um pouco tarde. ouço o debate do parlamento sobre o orçamento de estado. a pessoa aparece finalmente. parte da conversa é sobre isso. o mundo frio que chove neste país e em cada uma das nossas casas, às vezes literalmente. depois vou à minha vida que não sendo grande coisa é a única que tenho e onde chove raramente um mundo frio, apesar do país.

entro na estação dos correios da avenida. aveiro. estou aqui para levantar uma encomenda. olho em volta. há dois velhotes que talvez venham levantar a reforma. há uma mãe velha e um filho, já homem, deficiente. e estou eu. chove um mundo frio na estação dos correios da avenida. a chuva fria cai lentamente enquanto eu pouso os olhos nos olhos dos dois velhos e nos da velha mãe e do seu filho, já homem, deficiente. ao mesmo tempo a minha cabeça lembra-me, num alheamento que reparo depois ser insuportável, as coisas pequenas da minha vida rotineira, que não é grande. as compras que preciso de fazer. entre as quais o perfume que acabou esta manhã. acordo de repente do alheamento – espécie de mecanismo involuntário contra aquilo em que os meus olhos reparam, ali em volta – e ordeno à cabeça que se concentre na estação dos correios da avenida. aveiro. o filho da velha mãe, já homem, balbucia coisas que não compreendo com um cd na mão que aparentemente reúne os êxitos de 2014 do nacional-cançonetismo-pimba. a velha mãe entende o que eu não posso ou sei.

o cd reunindo os êxitos de 2014 da música pimba nacional faz-me reparar melhor na estação dos correios. outras vezes reparei o mesmo. à minha volta os últimos livros, êxitos, dos escritores pimba portugueses, amontoam-se indiferentes, lado a lado com os cd’s, com as esferográficas, os cadernos cor-de-rosa destinados às meninas e os jogos educativos destinados aos meninos. a estação de correios da avenida, aveiro, parece uma loja de bricabraque. e hoje – como outras vezes em que reparei no mesmo – não entendo. nos balcões os funcionários põem carimbos, arrumam encomendas, indiferentes ao mundo que chove frio ali mesmo à sua frente. um deles pergunta a um dos velhotes se não quer comprar a lotaria. a estação dos correios da avenida, aveiro, parece uma loja de bricabraque num voo da ryanair. e eu que outras vezes reparei no mesmo fico amontoada como os livros dos escritores pimba, um pouco perplexa por ninguém me levar dali, deste país onde chove um mundo frio.

já me esqueci das compras e do perfume quando a velha mãe arrasta o filho, já homem, deficiente, até um dos balcões. o homem continua a ter na mão o cd com os êxitos de 2014 da música pimba portuguesa. a mãe pergunta ao balcão se não há aquele cd com as músicas daquela festa da tvi. eu não sabia que havia cd’s com músicas daquela festa da tvi e interesso-me pela resposta. havia. já houve. acabaram. os livros dos escritores pimba permanecem amontoados e perplexos, comigo.

a velha mãe, com o filho pelo braço, pergunta quanto custa o cd que o homem tem na mão. dezassete euros e cinquenta cêntimos diz o funcionário atrás do balcão. a mãe diz ao filho ‘de outra vez’. o filho balbucia qualquer coisa, na sua linguagem que apenas a mãe compreende e saem os dois com um mundo frio a chover sobre eles. eu levanto a encomenda. ninguém me pergunta se quero comprar a lotaria. agarro no pacote que me dão e saio para o país onde chove um mundo frio todos os dias. sim. tenho de me lembrar das compras que tenho de fazer e do perfume que acabou esta manhã como se fosse imperioso comer e perfumar-me, mesmo assim. como se nada disso se dilua nas gotas do mundo frio que chove neste país, todos os dias.

ontem à noite, na verdade hoje, a madrugada já ia alta, pus-me a ouvir um discurso de um espanhol a quem as sondagens em espanha atribuem a vitória nas próximas eleições. gostei tanto do discurso. temos de saber falar com as pessoas. disse ele. falar a linguagem das pessoas, mesmo daquelas que falam uma língua que apenas as velhas mães compreendem. temos de saber ouvir as pessoas, mesmo aquelas que não compreendemos. disse ele. eu deitada no meu sofá, eu deitada na minha vida rotineira, aplaudi-o sozinha muito alto, tão alto como ia altíssima a madrugada. não sei se o rapaz espanhol ganharia as eleições em portugal. parece-me uma pessoa muito solar. uma pessoa como não há muitas neste país onde chove um mundo frio, o dia todo, mesmo que não chova, todos os dias.

entrei no carro e era isto que o paolo conte cantava no cd que não comprei na estação dos correios da avenida, aveiro, mas numa discoteca sofisticada numa esquina da piazza della repubblica, florença, onde não havia velhotes de olhos tristes a embrulharem o papel da reforma nas mãos enrugadas e onde não havia a velha mãe entendendo solitária a língua do seu filho, já homem, deficiente. ‘comunque pioveva anche un mondo freddo là’*. era apenas um pouco menos triste.

 

*no entanto, também lá chovia um mundo frio.

Comments

  1. Fernando Torres says:

    Esta canção faz hoje 30 anos que foi gravada!

    É tão icónica!

  2. José Peralta says:

    Bravo ! Excelente !

  3. José almeida says:

    Excelente crónica.

    “C’é tempo….”


  4. obrigada!

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