Ninguém é perfeito, mas nem todos abusamos da imperfeição

cimpor 2001

Tirei esta fotografia em 2001, são os portões da Cimpor, em Souselas, tentávamos bloquear a entrada dos primeiros resíduos industrias tóxicos que ali iriam ser utilizados como combustível gratuito, num processo conhecido por co-incineração.

Foi uma luta inglória. Do outro lado estava um secretário de estado e depois ministro do Ambiente apostado em aplicar as técnicas neoliberais de combate político, à velha moda tatcheriana os cidadãos de Coimbra foram acusados de não passarem de uns nimbys (termo popularizado por Nicholas Ridley, secretário de estado de Margaret Thatcher), e a batalha quando perdida afirmou um político bem falante, firme, implacável, que escolhera a cidade onde estudara três anos (e que ficou a odiar profundamente por razões meramente passionais) como cobaia, José Sócrates de seu nome. O Zé.

Do lado da minha cidade a reacção foi conduzida de forma infeliz, num combate desigual, que esqueceu dois aspectos fundamentais: a localização da Cimpor já era em si um problema (como os ecologistas locais denunciaram ainda na década de 70) e mais do que uma questão ambiental era de um negócio que falávamos: a fábrica ia receber combustível gratuito e uma série de benfeitorias (que verdade se diga diminuíram mesmo a poluição que já levávamos).  Fomos muito poucos os que questionámos o óbvio interesse económico, e levantámos suspeitas sobre a eventual corrupção do político que assim aparecia aos olhos dos portugueses como uma estrela cadente.

A falsa estrela brilhou. A partir de 2005, seguindo as mesmas pegadas neoliberais, afrontou as corporações, não as dos colégios privados ou dos negociantes da saúde pública, não as dos donos de Portugal, mas as dos alvos fáceis que se poderiam tornar obstáculos às privatizações do costume: professores e profissionais de saúde em particular. A terceira via blairiana tomava conta de Portugal, abrindo caminho a um Passos Coelho de ainda superior quilate, ambos muito atentos reverendos e obrigados à vassalagem a Frau Merkel.

E no meio disto o mesmo rasto, tão claro no processo Cova da Beira como obscuro na licenciatura domingueira e nas trapalhadas do Freeport.

É um facto que pelo meio houve medidas positivas, tantas que tenho dificuldade em me recordar de alguma que aos costumes não respeite.

Agora que o brilho se apagou, e revelando-se meteoro aterrou numa penitenciária, acusado de corrupção, branqueamento de capitais e fuga ao fisco (mas não de enriquecimento ilícito a que o seu partido sempre se opôs) regozijo-me, sim. É a face mais oculta da casta política portuguesa, gente que nada fez na vida excepto ascender na própria carreira, ludibriando quem ainda não percebeu que temos um regime corrupto, exclusivamente preocupado com a defesa dos interesses de uma minoria e a facilitação dos seus negócios.

Ontem Teixeira da Mota recordava numa televisão que após a prisão de Costa Freire (o primeiro ex-responsável político português a quem tal sucedeu) muito se discutiu sobre a Justiça portuguesa, dos procedimentos às condições penitenciárias. Ocorre agora a tanta gente (que esteve no governo) revoltar-se contra o excesso de prisão preventiva, a treta do segredo de justiça e outros procedimentos que estarão a afectar um ex-primeiro-ministro, cidadão igual aos outros, convinha não esquecer embora ele se tenha distraído a esse propósito.

Ainda bem, pode ser que reformas prossigam, aberto este  precedente creio que no actual governo haverá gente preocupada e que sabe muito bem correr agora o risco de vir a ocupar a mesma cela.

Durante décadas PS e PSD alternaram no poder ao serviço da casta, nas administrações e na protecção mútua nos negócios mais privados, das luvas às testas de ferro tantas vezes familiares. Quebrado esse acordo de cavalheiros (alguém acredita que anos atrás a CGD teria denunciado um movimento anormal nas contas de um ex-primeiro-ministro?) o dominó irá caindo, peça a peça, a sede de vingança anda à solta. Foi assim na Grécia, tem sido assim em Espanha, será o mesmo em Portugal. Muito pior do que o caso dos vistos gold está para explodir, enquanto se irá tornando insuportável Ricardo Salgado permanecer em casa, sendo certo e mais que sabido que esse processo prescreverá.

Aos tribunais cumpre julgar criminalmente. Aos portugueses politicamente, e são frágeis,cada dia que passe mais desfeitas as dúvidas sobre a forma como José Sócrates enriqueceu. Como o serão sobre a natureza dos dois partidos que ainda a semana passada se preparavam para restaurar as mordomias dos seus, crime apenas travado porque a reacção social foi rápida e o Bloco de Esquerda oportuno.

Agora é natural que 2 588 312 portugueses estejam um bocado deprimidos, uns mais que outros. Como tantos já estavam por terem acreditado em Passos Coelho. Muitos ainda acreditam na inocência do menino de oiro, outros sempre acreditarão, a maioria espero bem que vá, passado o choque, colocando os pés no chão.

Calma, toda a gente se engana. Aproveito para confessar que faço parte dos 155990 que votaram no Miguel Esteves Cardoso em 1987. Ninguém é perfeito, mas depois de ver o caminho que Paulo Portas (que aí formalmente testou uma carreira política) seguiu, noutra não caio. E numa coisa concordo com Passos Coelho: os políticos não são todos iguais, a Sócrates e a ele.

É verdade, conheço tantos nos partidos de esquerda, BE e PCP e mesmo no PS, que nunca ganharam um tusto com a sua militância em prol do que entendem ser o bem comum, em matéria de honestidade até em partidos de direita ainda um ou outro se encontra, dedicados à política enquanto serviço ao povo e à República sua emanação; os diferentes existem, sempre existiram, combatendo os que dele se servem.

É altura de percebermos todos em quem não se deve voltar a votar. E a convencermos a esquerda de que somos alternativa, e ganhar é possível: nunca os ventos foram tão favoráveis, e escusamos de ficar à espera que alguém vá buscar Cavaco Silva à Aldeia da Coelha para lhe perguntar sobre as suas acções do BPN.

Comments

  1. Nuno Valério says:

    Caro João José Cardoso,

    Tenho, como quase sempre tive, muito gosto em ler a maioria dos seus textos no Aventar, tanto que nunca me predispus em tecer considerações opostas sobre os mesmos.

    Todavia, permita-me colocar-lhe as seguintes questões, que com toda a certeza merecerão da sua parte o rótulo de potencialmente inocentes:
    1. “O Bloco de Esquerda oportuno” (11.º parágrafo): desde 2005, onde é que esteve o BE? onde é que esteve a respectiva proposta de revogação dos retroactivos salvaguardados pelo 1.º governo de José Sócrates?

    2. E, porque carga de água, no seu penúltimo parágrafo, tão “oportunamente” não aponta a tantos e diversos militantes do PS, em matéria de honestidade?

    Atentamente,

    Nuno Valério


    • Meu caro, tem razão no segundo ponto, ao rever o texto acrescentei os partidos e o sentido original perdeu-se; já acrescentei.
      Quanto ao primeiro, por acaso a semana passada andei a consultar os diários da AR respeitantes a essa discussão, e o BE tal como o PCP tinham propostas de revogação completa das subvenções. De resto o PCP votou contra a lei original.

  2. AntónioF says:

    Gostei de ler o seu texto, contudo, o mesmo ficaria mais completo, como legenda à imagem, do resultado eleitoral da freguesia de Souselas nas eleições de 2005.


    • A estrondosa vitória do PS nessas eleições seria realmente uma boa legenda, mas não quero melindrar os meus concidadãos, que devem estar ainda mais traumatizados que os restantes eleitores de Sócrates. Embora tenham sem dúvida sido beneficiados com a co-incineração, pela colocação dos filtros de manga que reduziram, e muito, a vergonha exposição ao cimento em que viviam. Agora quanto a consequências cancerígenas é que já não teria essa certeza.


  3. Que ninguem acredite no optimo partido,pois este não existe,


  4. Não estou particularmente convicto que exista uma diferença real entre esquerda e direita. São slogans que se atiram para atrair um determinado público, acaba por ser quase uma opção estética.

    Não estou particularmente convicto que mesmo existindo uma esquerda e uma direita não se rejam todos pelas mesmas “regras” partidárias já que o sistema quem surgiram e operam é o mesmo.

    Não estou particularmente convicto que mesmo que exista uma esquerda e uma direita e que sejam de alguma forma diferentes, que o tipo de quadros que formem não seja exactamente o mesmo.

    Penso que não estarei isolado na minha falta de convicção.

  5. Alexandre Carvalho da Silveira says:

    Podia subscrever este excelente texto excepto nas referências que faz ao BE e ao PCP. O BE nunca “pôs a mão no prato” porque nunca governou nada, e a excepção de Salvaterra de Magos não correu bem.
    Normalmente nos partidos do “arco da governação” o saque é individual, vamos dizer; já no PCP é colectivo, é para o partido.
    Salvo nos tempos da reforma agrária, em que aquilo foi um fartar vilanagem.


    • Eu não me referi nem ao BE nem ao PCP enquanto partidos. Afirmei, sim, que a maioria dos seus militantes faz política sem qualquer interesse em se beneficiar a si próprio.
      E acrescento que os seus eleitos mantêm o seu vencimento de origem.


  6. A porcissão ainda vai no adro .O que me parece importante seria aprofundar no período de tempo actos possiveis de terem sido sujeitos a desvios de má conduta e possiveis pessoas coniventes.Esperemos que as investigações continuem pois isso é que é importante,logo outros factores só servem para alimentar a comunicação social e Épouco desculpável para os que desconhecm o proverbio«quem cabritos vende e cabras não tem de algum lado lhe vem».

  7. Pedro says:

    Eu lembro-me que íamos todos morrer de cancro, a começar pela malta de Souselas. Mas então… afinal o que se devia ter proclamado era “a eventual corrupção do politico”? Pois, esse cartaz nunca vi por aqui. Lá está, a malta de Coimbra não se organiza bem e depois dá fiasco.


    • 1 – ainda faltam uns anos para se ter noção das consequências da co-incineração. E já agora, entretanto nem todos os resíduos são queimados, uma grande parte é reciclada, exactamente como sempre deveria ter sido.
      2 – importa-se de ir fazer o seu luto, por ter apoiado um homem de direita, corrupto, para outro lado?

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