Assunto nosso

Já tenho idade suficiente para lembrar-me que houve tempos, e não tão remotos, em que se morria decentemente, que é como quem diz em casa, rodeado da gente com quem se tinha vivido, e morrer era uma coisa normalíssima, que acabaria por acontecer a todos e que não requeria medidas excepcionais, além dos paliativos possíveis. O quarto do doente não era território tecnológico, como o é agora a enfermaria do hospital, com máquinas a apitar e enfermeiras a interromper a sopa para medir glicoses e temperaturas, e médicos sempre cheios de pressa porque lhes pedem que se desdobrem em vários e que rematam tudo com um vamos ver isso, vamos ver isso, para logo se sumirem pela porta.

O quarto do doente era o quarto de toda a vida, o seu, com a colcha herdada de uma tia solteirona, o Cristo na parede, a foto do casamento, a cama onde a quase viúva se sentava ao lado do marido a fazer tricô, com os netos que entravam a pedir dinheiro para um gelado, o filho a contar à mulher a discussão com o patrão, e o doente era um moribundo mais ou menos conformado, mais ou menos paciente, ora tinha um feitio dos diabos ora era um santo, que ia pedindo que lhe chegassem coisas, ou que já não abria os olhos nem sabia quem era, e a quem se tentava amenizar os dias que lhe restavam. [Read more…]

Mário Soares

Sobre a coerência política de Mário Soares, a recordar este texto de Clara Ferreira Alves

Foi hoje

Estiveste bem, UNESCO, o cante alentejano já é património imaterial da humanidade, com louvor e distinção. Agora é rir com a nossa extrema-direita e as suas piadolas de oportunidade latifundiária. Faz parte.

Coisas que me ocorrem às 3 da manhã

Sabem o que é irónico? Irónico é pensar que ao longo dos anos, Oeiras tornou-se no alvo das piadas de humoristas, comentadores políticos, analistas e afins que abertamente criticavam ou gozavam com os eleitores do concelho que repetidamente votaram em Isaltino e nos seus sucessores. Irónico é perceber que não vimos nem metade das piadas, dos comentários sarcásticos, dos artigos tipo, “oh meu deus o povo é tão estúpido” quando Soares abraçou Isaltino e disse para toda a gente ouvir que o que lhe aconteceu foi uma injustiça. Não me lixem. A elite política de Soares a Portas (nem venham com a história dos partidos que não há paciência) e uma parte da elite “intelectual” portuguesa funcionam dentro da ideia de que há uma justiça para uns e uma justiça para outros. Funcionam assim porque no fundo, o povo, como os eleitores de Oeiras, eram ignorantes e atrasados enquanto Soares é o pai de Democracia e um iluminado que nós temos no mínimo de “respeitar”. A relação das classes “pensantes”, políticas, académicas, literárias etc. com o povo sempre foi má porque o “povo”- essa massa homogénea de pessoas que vota no Isaltino e vai aos saldos ao Pingo Doce no 1 de Maio – desaponta. Mas o povo também são eles.

A fonte e o mal

Agora que o poder judicial está sob desafio, era bom que não houvesse confusões quando se fala em corrupção e lixo jurídico. Não esqueçamos que é o poder legislativo, com maiorias determinadas, agentes determinados, leis determinadas, intenções determinadas, que produz as leis que permitem fazer negócios e transacções públicas e privadas que, sendo formalmente legais, podem ser abjectamente imorais e éticamente contaminantes. Confunde-se legalidade com legitimidade.

A conformidade com a lei ostentada por muita da acção e decisão dos governos, não garante nada senão uma obediência ao, em tempo, prescrito e aprovado que pode, ela própria, ser intolerável para qualquer cidadão com um mínimo sentido de decência. É política, pois, aquilo de que falo. E as leis podem ser boas, más, mas nunca neutras, pelo que a tensão entre elas traduz uma conjuntura do conflito social. Não nos espantemos, então, que também as mais brutais agressões sociais e os mais moralmente repugnantes negócios públicos se fundem e suportem nas leis da República, elaboradas e aplicadas por maiorias devidamente legitimadas pelo consentimento eleitoral.

Quem analisar, brevemente que seja, a arquitectura contratual de uma PPP à portuguesa, percebe imediatamente do que estou a falar. A corrupção está, frequentemente, na lei. É sistémica. E tem actores,autores e mandantes. É essa uma fonte do mal. Ou do Mal, se quiserem. Ou, dito de outro modo, é a luta de classes, pá.