Azul (muito escuro)

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Tem-se discutido na União Europeia o projecto Crescimento Azul, a que alguns chamam já “mar azul” que, com aparente acerto, proclama : “A inovação na economia azul: materializar o potencial de crescimento e de emprego dos nossos mares e oceanos”. Lemos os propósitos enunciados a propósito desta “Estratégia Marinha” em relatórios e deliberações já publicados e, num primeiro olhar, aquilo parece excelente. Mas, depois, arrebitamos as orelhas. É que um dos efeitos das práticas políticas dominantes na UE, sobretudo na última década e meia, foi o de nos alertar para as armadilhas desta retórica.”Crescimento Azul: Oportunidades para um crescimento marinho e marítimo sustentável”? Quem não concordaria, há uns anos? E mais: “Considerando que o conceito de Economia Azul abarca um amplo espectro de sectores de actividade económica ligados aos mares e aos oceanos, incluindo sectores tradicionais e sectores emergentes, como sejam os seguintes: pescas, aquacultura, transportes marítimos e fluviais, portos e logística, turismo e náutica de recreio e de cruzeiro,construção e reparação naval, obras marítimas e de defesa da orla costeira, prospecção e exploração de recursos minerais (offshore), prospecção e exploração de recursos energéticos (offshore), biotecnologia, entre outros;…”.

E ainda – quanta generosidade! – : “Considerando que o desenvolvimento da Economia Azul pode impulsionar fortemente o crescimento e o desenvolvimento económico, bem como a criação de emprego, em especial nos países e regiões costeiras e insulares e nas regiões ultraperiféricas;…”
Pois. Estas e muitas outras propostas discutidas e a discutir no Parlamento Europeu brilham em generosidade, boas intenções e, não duvido, qualidade científica. Mas agora, tal como estão as coisas,confesso a minha profunda desconfiança. E só me ocorre: os sacanas querem tirar-nos das mãos o governo das nossas próprias águas! Onde antes se liam boas ideias, agora, nesta Europa dilacerada e em lutas por hegemonias, imaginam-se propósitos nada azuis, até bastante pardos. O desatino neoliberal e as pulsões imperialistas envenenam, até, os melhores propósitos. E nós pensamos como o velho troiano: “temo-os mesmo quando nos dão presentes”. Mas, desgraçadamente, sabe-se o que aconteceu a Tróia por aceitar o dito presente. É que há sempre traidores ou idiotas prontos a trazer o cavalo de pau para dentro das muralhas.

Comments

  1. João Soares says:

    Cem por cento de acordo.Serão de certeza os idiotas a trazer o cavalo.Os traidores actualmente exigem pronto pagamento e em dinheiro vivo.Não é verdade senhor doutor Vital Moreira ?

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