Da bondade dos desconhecidos


Quando comecei a subir a rua, o Vítor ainda não era o Vítor, mas um homem em queda. Eu ia apressada, muito apressada, e ao longe vi um corpo que se deixava abater. Poucas coisas impressionam mais do que o corpo de um homem caído no chão. Quando cheguei ao pé dele perguntei-lhe, reconheço que foi uma idiotice, se estava a sentir-se mal. Toquei-lhe no ombro, insisti, e ele abriu os olhos. Era difícil adivinhar-lhe a idade, cinquenta, sessenta anos, cabelo cortado muito rente. Balbuciava. Aproximei-me para perceber o que dizia e ouvi, distintamente: “Quero morrer.”

Foi nesse momento que apareceu outro homem, vinha a correr, ajoelhou-se logo junto ao corpo do homem deitado no chão, e começou a perguntar-lhe coisas simples, sorridente e com voz tranquila, como se levasse a vida toda a socorrer gente caída. Ouviu as mesmas palavras que me tinham sido ditas. Recordou ao homem cujo nome ainda não sabíamos que não há dificuldade na vida da qual não se possa fazer um degrau para um dia melhor. O seu discurso era comovedor, não porque parecesse capaz de fazer grande diferença àquele a quem se dirigia (e quem sabe? talvez fizesse), mas sobretudo porque era vibrante de esperança e fé nos outros.

Levantámo-lo do chão, tentámos mantê-lo equilibrado, perguntámos-lhe o nome. Do outro lado da via rápida estavam as urgências do hospital, mas como chegar ali? O Vítor cambaleava, alcoolizado, sem forças, e queria que o deixassem no chão. Eu estava a caminho das urgências, ansiosa por chegar lá, e embora não visse como poderia fazê-lo, a tentação de fugir e deixar o Vítor e os seus problemas para trás não me largava. Comentei-o com o meu parceiro de socorro, o Daniel. Contou-me que também estava a caminho do hospital, para visitar a mulher e o filho recém-nascido. Apesar disso, amparava o Vítor, que se agarrava a ele e já não o queria deixar ir embora.

– Estou aqui, amigo, conte-me o que lhe aconteceu na vida para ficar assim.

Do outro lado da estrada, as urgências a que não conseguíamos chegar, muito menos com o Vítor. Estávamos os dois presos a este homem, o Daniel que queria ir ver o seu filho, eu que queria ir ver o meu pai, qual dos dois tinha melhor justificação para ir embora?

Combinámos um plano. Eu ia às urgências, encontrava alguém a quem contar a história, ficava a saber se tínhamos de ligar para o INEM ou se alguém poderia ir buscá-lo, afinal era só atravessar a estrada. O Daniel ficava com o Vítor, e eu ligava-lhe assim que tivesse notícias. A ideia foi do Daniel, claramente o mais generoso de nós, que me ofereceu maneira de ir embora sem levar um peso na consciência. Fiz tal como ele sugeriu, e a primeira pessoa que encontrei foi o segurança que guarda o acesso às urgências, um homem gigantesco, de braços musculados, que reconheceu o Vítor assim que eu comecei a contar a história.

– É a quarta vez que o INEM o traz hoje mas ele foge sempre. Os senhores têm de chamar o INEM, ninguém pode sair daqui para ir buscá-lo.

Telefonei ao Daniel e contei-lhe tudo. Ficou, como eu, desiludido. Esperávamos, de forma um tanto ingénua, que chegar ao hospital fosse o final feliz possível, isto é, que a intervenção de um profissional de saúde pudesse ser o início da solução para os problemas do Vítor, que haveria de vir um psiquiatra falar com ele, que daí seria encaminhado para um assistente social, que uma rede de apoio poderia traçar o melhor caminho para ajudar este homem. Agora nem sequer sabíamos se o Vítor aguentaria por ali o tempo suficiente para chegar a ser consultado. Quem poderia ajudá-lo? Um médico que conseguisse deitar-lhe a mão antes de fugir? A polícia? Um padre? Dois desconhecidos, como nós?

Despedimo-nos ao telefone. O Vítor, suponho, deu novamente entrada nas urgências. Quando saí não o encontrei. Fiquei a pensar nele e fiquei a pensar no Daniel. A bondade dos desconhecidos, essa a cujo braço se agarrava a pobre Blanche DuBois, é a humanidade no seu melhor. O Daniel estava ansioso por ver a mulher e o filho, tinha nesse facto uma desculpa perfeita para fugir dali, ninguém poderia censurar um pai impaciente por pegar no seu recém-nascido ao colo, mas deteve-se e ficou porque achou que havia ali um desconhecido que ainda precisava mais dele, naquele momento, naquela beira de estrada, mesmo em frente às urgências, mas muito longe delas.

Com os melhores desejos para o Vítor, este texto é para o Daniel, que me deu uma bela lição naquela tarde.

Foto: Carla Olas

Comments

  1. João Paz says:

    Obrigado Carla Romualdo por mais este soberbo retrato de humanidade.

  2. José Galhoz says:

    Não perco uma crónica da Carla Romualdo. Quem não lhes liga é morcão, viva onde viver. Um lisboeta.

  3. João Soares says:

    Quem ler este “SEU” texto não deixará certamente de assimilar para si próprio um pouco do gesto solidário do Daniel,mas também da bondade inata que a Carla possui ,e por muito que
    tente não consegue esconder dos “SEUS” leitores.
    Um grande abraço meu e do Vítor.

  4. Excelente retrato de humanismo, Carla Romualdo! 🙂
    Eu só gostaria de saber quem foi a grandessíssima besta quadrada, e se for preciso, repito-o novamente, porque não tenho quaisquer “pruridos” em dar a cara…mas dizia eu, que ousou postar um NÃO GOSTO, neste seu texto.
    Será claramente um “alguém” que sustem uma qualquer alergia ao humanismo e/ou à solidariedade social, ou quiçá, às pessoas que padecem do flagelo do alccolismo?!
    Se não gostou, desafio o personagem a, ao menos ter a dignidade de argumentar, ainda que depreciativamente, a sua perspectiva.
    Ah!…Seria seguramente um nome a memorizar numa futura ida às nossas Urgências Hospitalares públicas.
    Obrigada, por este seu gesto solidário Carla Romualdo.

    Beijinhos

    Paula Pedro

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