A morte por asfixia do Serviço Nacional de Saúde; a droga, a indústria do álcool – um breve relato.

Ontem, conforme a marcação previamente acordada com o Hospital de São Teotónio em Viseu, dirigi-me ao serviço de cirurgia para executar uma operação cirúrgica de pequena escala. Preparado que estava por antecipação, cheguei ao hospital 1 hora antes da hora acordada. Do ponto em que me encontrava pude espreitar durante horas a fio o lufa-lufa das urgências através das vidraças. O que previsivelmente me iria demorar umas 3 horas entre espera, intervenção (a um quisto na zona do cóccix) e alta clínica acabou por demorar 6 devido a um conjunto de circunstâncias extraordinárias ocorridas durante o dia de ontem no referido hospital.

As urgências estavam como sempre abarrotadas de pessoas, principalmente idosos. Durante as 4 horas em que pude observar o serviço apercebi-me do ambiente em que diariamente trabalham dezenas de profissionais de mão cheia, diga-se a bom da verdade: existe uma falta notória de pessoal (apesar do hospital já contar com 4 médicos estrangeiros; contudo existem especialidades em que o médico de serviço não tem mãos a medir para a afluência que se regista), de espaço para colocar os doentes (os corredores principais das urgências estavam abarrotados de macas e pessoas literalmente empilhadas em cadeiras de rodas; havia filas de macas até a sala de TACs; apesar de já existir um projecto, as urgências do Hospital de Viseu precisam muito de ser ampliadas porque o hospital, central a praticamente 3 distritos, já não tem capacidade de resposta para a enorme afluência) e de meios para intervir nos casos mais complicados.

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As urgências e os cortes no SNS

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Pedro Castro Rodrigues

Nunca faço posts a sério. Hoje vou fazer.

Há 6 anos que sou médico. No meu primeiro ano era escalado 4 vezes por mês para fazer urgências. Há uns anos por vezes comecei a ser escalado 3 vezes. Este mês estou escalado para fazer urgência 2 vezes.
Mesmo que quisesse fazer mais, não me deixavam.

Porquê? Porque para reduzirem os gastos com a Saúde há cada vez menos serviços de urgência. Actualmente em Lisboa há apenas 2 serviços de urgência abertos 24 horas 365 dias por ano (São José e Santa Maria). Nestes serviços fazem urgência os médicos destes hospitais e agora também os dos outros serviços de urgência que foram sendo fechados. Daí cada médico ser cada vez menos escalado para fazer urgências. Porque há menos serviços de urgência e quantos menos médicos lá estiverem, mais barato fica. Mas não há menos pessoas com problemas urgentes.

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SNS a rebentar, privados a lucrar

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Antecipando o que aí vem, o secretário de Estado da Saúde anunciou esta semana ao país que, em situações de ruptura, os hospitais públicos poderão enviar pacientes para o sector privado. Apesar das medidas preventivas que estão a ser tomadas, as dúvidas quanto à capacidade de resposta de um SNS alvo de múltiplos cortes nos anos de austeridade são muitas e preocupantes. E, perante a falta de investimento nos hospitais públicos, investe-se nos privados para resolver o problema. E porque não investir esse dinheiro no sector público? Simples: porque a agenda não é essa. Para eles está tudo bem. Quem disser o contrário é comunista.

Foto: Global Imagens/Natacha Cardoso@DN

Acabar com o SNS, esse desígnio da direita

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Se em 1979 o PSD social-democrata votou contra a criação do SNS, não há-de ser o PSD liberal, movido por uma agenda ideológica de obliteração do Estado Social e obcecado por privatizar tudo a qualquer preço, que pensará de forma muito diferente: o SNS (tal como este governo) é para suprimir o mais rapidamente possível. Mas anunciar a sua privatização seria gerador de forte contestação por parte da sociedade civil pelo que o esquema deve ser cuidadoso e gradual: primeiro o desinvestimento, com cortes em sucessivos Orçamentos de Estado que explicam em parte o caos, por vezes fatal, que se instalou nas urgências no Inverno passado. Faltam médicos, faltam enfermeiros, entretanto emigrados para o Reino Unido, e falta equipamento. Paralelamente, emerge o sector privado de saúde, que acumula lucros fabulosos com a mesma velocidade a que o SNS se vai desintegrando, com a benção de um governo que até conta com um Secretário de Estado da Solidariedade e da Segurança Social que foi em tempos lobista ao serviço de um grupo privado de saúde. Por fim, cereja em cima do bolo, nomeia-se um ministro da Saúde com a sensibilidade de um tijolo que, confrontado com a fragilidade de um SNS que vê pessoas morrerem após longas esperas em corredores hospitalares com condições terceiro-mundistas, afirma convictamente que os serviços de urgências funcionam muito bem e que quem diz o contrário são comunistas com agendas obscuras. É uma questão de tempo. Acabar com o SNS é um desígnio desta direita “teapartizada”.

Livrem-nos deste ministro por favor!

Leal II

São dias tristes para a saúde em Portugal: o Jorge sem médico de família, o sector privado a aproveitar a movida ideológica dos radicais que nos governam e que deixaram o SNS de rastos para obter lucros estratosféricos e um novo ministro da Saúde que ou não tem mínima noção do sector que tutela ou nos toma a todos por parvos. Para bem da saúde dos portugueses (física e mental), parece que está a prazo. [Read more…]

Da bondade dos desconhecidos


Quando comecei a subir a rua, o Vítor ainda não era o Vítor, mas um homem em queda. Eu ia apressada, muito apressada, e ao longe vi um corpo que se deixava abater. Poucas coisas impressionam mais do que o corpo de um homem caído no chão. Quando cheguei ao pé dele perguntei-lhe, reconheço que foi uma idiotice, se estava a sentir-se mal. Toquei-lhe no ombro, insisti, e ele abriu os olhos. Era difícil adivinhar-lhe a idade, cinquenta, sessenta anos, cabelo cortado muito rente. Balbuciava. Aproximei-me para perceber o que dizia e ouvi, distintamente: “Quero morrer.”

Foi nesse momento que apareceu outro homem, vinha a correr, ajoelhou-se logo junto ao corpo do homem deitado no chão, e começou a perguntar-lhe coisas simples, sorridente e com voz tranquila, como se levasse a vida toda a socorrer gente caída. Ouviu as mesmas palavras que me tinham sido ditas. Recordou ao homem cujo nome ainda não sabíamos que não há dificuldade na vida da qual não se possa fazer um degrau para um dia melhor. O seu discurso era comovedor, não porque parecesse capaz de fazer grande diferença àquele a quem se dirigia (e quem sabe? talvez fizesse), mas sobretudo porque era vibrante de esperança e fé nos outros. [Read more…]

Aviso aos filhosdaputa que nos governam

É bom que vejam a reportagem da Ana Leal, que ontem foi exibida pela TVI.  À partida estais-vos na tintas: são hospitais públicos, os privados florescem, é coisa para pobres.

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Mas há um detalhe, ó filhosdaputa. São serviços de urgência. Ora não há privados que cubram as urgências de um país, pelo simples facto que este lado do negócio apenas dá lucro em Lisboa e Porto e mesmo assim não cobre todas as necessidades. E depois os serviços de emergência médica não vos vão diferenciar se vos estampardes numa estrada, se tiverdes um ticoteco na rua, uma emergência, portanto.  Não estou a ver uma dessas equipas que vai às estradas, também eles trabalhando em péssimas condições, a pedir de imediato um helicóptero porque se trata do sr. ministro, ou a reconhecer no focinho coberto de sangue um secretário de estado. Vai daí, em caso de azar, e ninguém está livre dele, trigo limpo farinha amparo, ireis para estas urgências como os outros. E arriscais-vos mesmo a ficar numa maca entalada entre outras num corredor, a serdes assistidos por um enfermeiro para 30 doentes, a ter o único médico capaz de vos tratar ocupado com outros doentes. De nada valerá, depois, um secretário de estado gritar que os médicos e enfermeiros eram comunistas. De nada valerá para vocês, e muito menos para a vossa família.

Resta-vos, depois da razia feita sobre o Serviço Nacional de Saúde, uma hipótese, é claro: não sair de casa. Mas é aborrecida.

Nas urgências – uma história sem ficção

Era um dia frio, caía uma chuva miudinha, era véspera de Carnaval e estávamos nas urgências de um hospital público português.

Ao início da tarde, a sala estava cheia, uma mulher dormia, ocupando três cadeiras. A seu lado, deixara um saco de viagem e um par de sapatos de salto alto. O lugar-comum que nos diz que o tempo pára na sala de espera do hospital era confirmado pelo relógio na parede, detido nas 8h21 de um dia já talvez longínquo.

Uma vez passada a triagem, e tendo recebido a pulseira colorida que lhe dita quanto tempo pode dar-se ao luxo de esperar sem que isso lhe perigue a vida, o doente desaparece para dentro da sala de urgências e passamos a só saber dele através do serviço de informações. Ao longo das horas, as informações, sempre telegráficas, confirmam que o tempo é outro. “Ainda não foi visto pelo médico”. “Vai fazer análises”. “Está à espera dos resultados das análises”. “Vai fazer uma ecografia”. “Está à espera que o médico veja a ecografia”. “Está à espera de reavaliação.” Cada um destes breves boletins informativos pode ser intercalado por períodos de uma, duas, três horas.

Na véspera de Carnaval, uma anomalia ditou um boletim informativo intercalar: “Estamos sem sistema”. E sem sistema, significa que tudo pára. Os serviços de informação não sabem informar, os médicos não conseguem ver os resultados de análises e exames. O tempo fica suspenso. [Read more…]

A polémica com as urgências

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Pedro Parracho

Vamos então abordar o caso das urgências e a discussão que tem existido sobre os problemas ocorridos.
É prática corrente, responsabilizar o ministro. Esta situação é recorrente, porque é mais fácil para os partidos da oposição responsabilizar sempre o governo, em qualquer época, leiam-se os títulos dos jornais nos invernos de 2007 a 2011, é assim pelo facto de se considerar o ministro “patrão” dos hospitais. Por isso o caminho da discussão é sempre o mesmo: se algo não funciona é porque “faltam meios”.

Nunca é porque houve falhas de gestão, mau trabalho dos funcionários, falta de empenho ou simples incompetência. Aparentemente o ministro até tem de saber se as escalas de férias e folgas dos médicos estão bem feitas, e se estiverem mal feitas, apenas lhe cabe… contratar mais médicos.
É importante que os utentes se sintam como accionistas do SNS e que exijam profissionalismo e empenho nos profissionais de saúde, sempre que presenciarmos exemplos de má gestão, má prática, falta de bom senso, falta de empenho ou incompetência, devemos denunciar os mesmos, de forma, às mesmas não ocorrerem no futuro.

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O governo anunciou, de surpresa, que vai começar a drenar doentes das urgências públicas para os hospitais privados. Estou espantado, já que o que costuma acontecer é exactamente o contrário: sempre que um doente precisa de intervenção urgente e diferenciada, se está num hospital privado é, geralmente, despachado para os serviços públicos. Até o conspícuo Osório dos privados ficou espantado com o brinde, declarando que ninguém do governo lhe tinha dito nada. Pois é, perante a pressão mediática o governo, como é costume, atira lérias para o ar. E tanta vontade tem de servir os amos que nem repara que estes não têm meios de aproveitar a prenda.

Destruída a capacidade de resposta do SNS

Entram em cenas as urgências privadas. São agendas.

Idiotas que merecem esperar nas urgências

Não direi até à morte, porque depois nem se indignavam nem aprendiam. Ah, espera aí, já há urgências no privado e a ADSE paga.

A morte nas urgências da austeridade

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Enquanto o governo que optou por ir além da Troika continua a resumir a sua pseudo-reforma do Estado ao contínuo aumento de impostos e aos cortes em salários e pensões, a sociedade portuguesa apresenta-nos sinais preocupantes que colocam as franjas mais desfavorecidas da população em situações limite. Se os números da pobreza são mais que elucidativos, com o fosso entre ricos e pobres cada vez mais fundo, algumas situações que nos remetem para um passado distante ressurgem assustadoramente. Como é possível que milhares de boys partidários inúteis tenham ordenados superiores a 3 mil euros enquanto cada vez mais portugueses morrem literalmente de frio por não conseguirem pagar a contas da luz ou do gás?

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Da colecção O governo que destrói recursos humanos (4)

Hospital da Feira com tempos de espera inaceitáveis

Um homem não faz uma percentagem

Morreu um homem no Hospital de São José, depois de ter estado seis horas à espera de ser atendido. Não sei se terá morrido por ter estado seis horas à espera de ser atendido, porque nem sempre o que é posterior é consequência.

Recentemente, o tempo de espera nas urgências dos hospitais aumentou. Diante de uma frase destas, a única solução razoável é ser-se ingénuo e perguntar: mas uma urgência não implica, exactamente, que o tempo de espera diminua e rapidamente? Se isso não acontece, de quem é a culpa (quando algo põe em causa a saúde das pessoas, só se pode usar a palavra culpa)?

A verdade é que os profissionais de saúde continuam a fazer referência à falta de recursos humanos nos hospitais e centros de saúde. Recentemente, o Hospital de Amadora-Sintra foi autorizado pelo governo a angariar médicos recorrendo a manobras que oscilam entre o leilão e a negociação, quando qualquer hospital deveria ter pessoal suficiente para cobrir as necessidades e não dedicar-se a tapar buracos em ocasiões de maior aperto.

Não tenho a sorte de ter a certeza de que haverá vida para além da morte. Depois da morte, apenas a morte está garantida e antes dela nem a vida é certa. Acredito em poucos milagres ou talvez num único: a vida de cada indivíduo é sagrada e, portanto, a vida de uma única pessoa é uma religião. Se há gente a adoecer ou a morrer por incompetência, descubramos os incompetentes e não esperemos por castigos no Além, porque há o enorme risco de não existirem. [Read more…]

Dar alta a mortos

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O Correio da Manhã inclui na categoria “Insólito” a seguinte notícia:

 

No Hospital de Aveiro, os mortos entram pela Urgência, são sujeitos a triagem e depois de admitidos “têm alta”.

Em primeiro lugar, os mortos são pessoas com direitos, incluindo o de se abster nas eleições. Que os mortos entrem pela Urgência parece-me óbvio, uma vez que é do interesse de todos que não se fique à espera que entrem em decomposição. Parece-me uma medida ainda mais virtuosa do que aquela que elogiei há dois anos. [Read more…]

O Miño é Lindo

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El tren llega a Valencia de Miño.

Sábado el 10 Abril 2010.