À atenção de Centeno

NOS, MEO, Altice, Porto, Benfica, Sporting, cedência de direitos televisivos, publicidades nas camisolas, namings, 475,5, 500 milhões…

Gosto muito de futebol. Gosto muito de desporto. Passo horas em frente à tela a ver tudo o que posso e há 8 anos que escrevo diariamente num diário muito pessoal aquilo que vou lendo, vendo, sentindo sobre desporto. Vejo muito futebol (seguramente uns 10 jogos por semana), muito ciclismo, basquetebol, desportos de inverno, rugby e andebol. Tenho seguramente mais de 50 mil páginas nesses diários, lavra que, quiçá, dentro de algumas décadas poderei compilar em vários livros, ajudando as gerações vindouras a melhor compreenderem o fenómeno desportivo deste início de século.

Percebo e percebo muito bem que os níveis de consumo dos clubes desportivos atingiu um limiar de ruptura desde há 15 anos para cá. Hodiernamente, no mundo do desporto, quem manda é a cor do dinheiro. Para certas equipas obterem os resultados que desejam, resultados esses que depois terão a sua contrapartida em retornos financeiros de vária índole, terão que ir às suas bolsas cavar o mais fundo que podem para terem os jogadores. Para as marcas de material desportivo, ter o rosto de A, B, C ou D nas suas campanhas é sinónimo de money in the bank. Os operadores de televisão batem-se e rebatem-se para poderem ter em exclusivo os direitos de transmissão dos melhores artistas ou eventos desportivos, nem que para isso tenham que oferecer mais do que aquilo que podem oferecer. Claro está que a factura final dos excessos, de uma maneira ou de outra, vai cair na conta do telespectador.

Os clubes precisam de altas somas de capitais para se tornarem competitivos. Os operadores de televisão precisam dos clubes para terem um enorme retorno financeiro à sua actividade. Temos forçosamente milhões de assinaturas de um canal ou de uma operadora dão muito dinheiro a essa operadora, operadora que, para satisfazer as pretensões do clube, muitas vezes vai-se endividar à banca. Em Portugal, todos sabemos quem acaba por pagar todos estes excessos (das operadoras e da própria banca) no final. Nos últimos anos, estamos a ser chamados para pagar a dobrar: a assinatura de TV Cabo e o buraco deixado pelo calote dos empréstimos que são garantidos pela banca para financiar este tipo de operações. Os clubes valem-se do facto destas terem forçosamente que ganhar a batalha das transmissões para poderem ter um retorno considerável e ganhar batalhas à rival.
No entanto, não posso deixar de desconsiderar que, mesmo gostando imenso de desporto, não defendo os mais recentes contratos que Benfica, Porto e Sporting estão a celebrar com as operadoras de televisão por cabo. Os valores são imorais para um país onde um mero empregado de armazém que trabalha 8 horas diárias no duro ganha 600 euros enquanto um tipo cuja função é dar chutos na bola durante 2 horas por dia aufere 100 vezes mais. Na óptica dos clubes, os valores são imorais para quem, outrora, através do calote que deixou na banca, também ajudou a participar no enorme esquema de destabilização bancária pelo qual vive este país. Sou da opinião que este tipo de negócios deveriam ser taxados extraordinariamente (no mínimo 25% do seu valor) de acordo com uma taxa de luxo instituída pelo Estado, à semelhança por exemplo, do que o Estado Norte-Americano faz, em conjunto com a NBA, para todos os franchisings  da prova (leiam-se equipas da NBA) que gastam mais do que o tecto salarial previsto para a temporada desportiva (o tecto salarial das equipas da NBA é calculado da seguinte forma: média das receitas todas equipas nas últimas 5 temporadas, englobando os pagamentos dos salários dos 13 ou mais jogadores que são exigidos pela Associação que organiza a Liga). O desporto não pode, neste tipo de contratos, fugir de fininho e assobiar para o lado, quando, por exemplo, o Estado tem a imoralidade de cobrar valores astronómicos aos particulares em sede de mais-valias tributáveis em IRS as vendas de bens móveis e imóveis realizadas durante o ano.

Comments


  1. Muito bem, Concordo em absoluto.
    Já agora, por comparação, quem vende o seu apartamento, realizando mais valias ou quem herda um terreno e o vende para especulação tem à sua porta, no ano seguinte, um figurão chamado Fisco que soma os rendimentos de outras proveniências (englobamento) e aplica a taxa que resultar dessa agregação de rendimentos.
    Então, os clubes são diferentes? Não há moralidade para que quem recebe e quem paga não sejam “achados” e taxados como deve ser? 25% no mínimo, acho bem, à semelhança dos prémios do Euromilhões.
    Não há dinheiro, não há vícios.
    E também sou adepto muito frequente de tudo quanto é espectáculo desportivo (incluindo, claro, o futebol).
    Ser permissivo sobre este tipo de negócios só pode ser interpretado como incompetência e cumplicidade.
    Mário Centeno et alteri, abram os olhos.


  2. Então mas como é que ficarão os contratos com as empresas nos, meo, e outros de quem não tenha subscrito a benfica tv por exemplo?


    • A minha interpretação é que as tarifas de todos os pacotes subirão sem excepção. A resposta está no Post. Tudo será pago pelo utilizador\contribuinte. Ou na factura da operadora ou no resgate aos bancos que concedem crédito a este tipo de operações.


  3. À atenção de Mário Centeno? Tirando o caso do S.L.B. que pode negociar o contrato livremente, mesmo assim julgo que o mesmo entrará em vigor apenas na próxima época. F.C.P. e S.C.P. no que aos direitos televisivos diz respeito começarão a receber apenas na época 2018-2019, caso o actual governo dure a legislatura e Centeno ainda seja ministro, a coisa pode passar por ele, de contrário serão outros… Mais, não é tudo pago de uma assentada, claro que podem contrair empréstimos hipotecando receitas futuras, mas os montantes a pagar serão progressivos e no caso do S.C.P. chegam a 12 anos… Não sei se terá sido um negócio assim tão bom para qualquer dos 3, o tempo o dirá. Também os contratos com a Olivedesportos eram excelentes e hoje chegamos à conclusão que estão subvalorizados…
    Fazer já um contrato que define as receitas a obter por exemplo em 2025, quando o audiovisual está em evolução constante, antes disso teremos o 5G… Não sei, tenho reservas…

    • Nightwish says:

      As pessoas não têm dinheiro para o 3G, quanto mais para o que ainda não existe.


      • O 4G já existe faz tempo!Tem dúvidas quanto ao 5G?
        http://observador.pt/2015/12/25/5g-pode-chegar-2020-ha-barreiras-transpor/
        Mesmo que o artigo falhe, será uma questão de tempo. E quanto à falta de dinheiro, informe-se, mas deixo-lhe uma dica que vale o que vale, lembra-se da Nokia? Subestimou os Smartphones por dominar as comunicações GSM durante 10 anos aproximadamente. Atitude arrogante que se veio a revelar erro colossal. Hoje quando falamos em Smartphones pensamos logo em iphone vs Samsung, mas acredito que saberá que compra um aparelho desses com 50 Euros. E todos têm o seu para tirar fotos, aceder ao FB, Instagram, etc…
        E se quiser recuar um pouco mais, Bill Gates desvalorizou o potencial sucesso da internet…
        Certezas? Não tenho!!! (mas tenho pena…)

        • Nightwish says:

          Claro que vai haver um 5G, e um 6G e por aí fora até voltar ao um com outro nome qualquer.
          As minhas dúvidas são de um mercado que não se regula nem se deixa regular, junto ao arco de governação e ao euro farão da internet móvel uma coisa escassa por muito tempo neste país. E nunca, mas nunca será agradável ver desporto num telemóvel.
          Os telemóveis de 50€ ainda são uma merda.

          Os problemas da Nokia nunca foi não terem uma plataforma de smartphones, muito pelo contrário.


          • Pois Não. Foi a aposta gorada no Android, foi a porcaria da tentativa que eles fizeram em tentar equiparar um telemóvel a um computador (a partir de 2008 com aqueles mini-pc´s telemóveis que sugaram muitos recursos da empresa e não venderam porra nenhuma) foi a falsa ideia de que os Smartphones seriam um modelo a prazo insusceptível de gerar lucro a quem os produzisse porque rapidamente seriam sugados por uma tecnologia mais moderna, foi a porcaria da aliança com a microsoft e o erro que foi a colocação do SO Windows nos telemóveis deles (Os Lumia; autênticas bostas andantes) e por aí além. Foi um acumular de erros de decisão e estratégia que saíram muito caros.
            A Nokia era excelente até 2005. Bons telemóveis, excelentes sistemas operativos, telemóveis de guerra. Depois eclipsaram-se.

          • Nightwish says:

            A Nokia nunca chegou a apostar em Android. Tinham o Symbian (já nem sei como se escreve) para clientes empresariais, onde dominavam com um OS para baixos recursos, mas era uma droga para desenvolver aplicações e com o surgimento de processadores móveis mais rápidos eles sabiam que iam perder aplicações. Por isso, tentaram criar o Meego, mas sem lhe dedicar recursos suficientes por causa do poder interno da equipa Symbian, nunca sequer se decidindo quanto ao que queriam.do SO.
            O N900 estava atrasado e ultrapassado, mas ainda tiveram uma série de fãs durante algum tempo e uma aliança com a Intel, que depois alterou o Meego para Tizen. Decidiram que tinham que ser diferentes e fizeram um negócio com o diabo, quando ninguém queria um windows phone; ou continuavam o Meego dirigido a um mercado mais pequeno, ou saltavam para Android e continuavam a vender com base na qualidade do Hardware.
            A MS, obviamente, tomou partido e o CEO da Nokia, que tinha trabalhado na MS, voltou à casa mãe como se não fosse nada com ele.


    • O sector precisa urgemente de regulação. Quem a vai fazer não sei mas urge que seja feita por alguém. Andam muitos milhões a voar que muita falta fazem ao estado. Os clubes não podem alegar que, a tributação fiscal é elevada e que o IVA prejudica a ida das pessoas ao estádio porque encarece o bilhete para depois lucrarem de forma abismal com este tipo de negócios. Se o tem, o Estado tem que ir buscar às entidades que o tem em vez de ir constantemente buscar a quem não o tem.
      De resto concordo com o seu comentário António de Almeida. O contrato dá-se agora porque as sociedades estão falidas. Completamente falidas. Gastos exageradíssimos para as suas capacidades financeiras, principalmente em salários. Nunca na vida pode um Porto ou um Sporting pagar 5 milhões líquidos por um jogador ou 3 milhões líquidos mais objectivos a um treinador. A ideia dos clubes é facturar já e viver com o que o futuro lhes reserve. Assim foi por exemplo no tempo em que a Banca emprestava à grande. Essa factura teve e tem agora de ser paga.

      • Nightwish says:

        Não só podem, como pagam. No caso do FCP, compra bom e barato e vende mais caro, embora agora seja comprar mau e caro, mas isso também tem muito a ver com as agências de jogadores e se calhar nunca chega a pagar nem a receber quase nada.


        • O grande problema das vendas do Porto está efectivamente relacionado com as comissões que são pagas aos empresários. Não podes comprar jogadores como o Danilo por 12 milhões, valorizá-lo como ele foi valorizado como jogador e vendê-lo por 31 milhões com 8 milhões de comissões para intermediários. O mesmo se passou com o Alex Sandro. As boas vendas do Porto terminaram no Hulk. A partir daí foram más vendas porque os jogadores sairam para clubes menores a troco de menos dinheiro do que aquilo que valiam, excepto o James Rodriguez. No entanto, o valor pago pelo James também reflectiu o valor que de outro jogador que saiu na altura para o Porto não ter que dar uma grande fatia do bolo ao Sporting. Não sejamos, portanto, ignorantes ao ponto de acreditar que o truque não foi feito porque foi.

          • Nightwish says:

            E, no entanto, as contas não são más, por isso o dinheiro vai entrando, a menos que diga que as declarações à CMVM estão falseadas. O passivo está mais ou menos estável.
            E com a Doyen já nem se sabe bem o que se pagou ou não pagou, mas não é o que vem nos jornais.


          • Sabendo como funciona a CMVM em Portugal (parece um Pac-Man da informação que lhe mandam; e não falo apenas de clubes de futebol) já não ponho sinceramente as mãos no fogo por ninguém.
            São 17 milhões. Injustamente. Estava salvaguardado no contrato entre Doyen e Sporting que seria o clube a decidir o futuro do jogador e a negociá-lo se propostas aparecessem.O que a Doyen fez foi pressionar o jogador e o Sporting a vender. Primeiro com uma reunião à porta fechada com o empresário do jogador e com o Southampton, garantindo aquele clube que o Sporting não tinha como ceder à sua proposta. O Sporting rejeitou-a porque não satisfazia os seus interesses. Depois, o mesmo esquema com o United. Tudo sem o conhecimento do Sporting. Até ao dia em que, o corno, sempre o último a saber, recebeu uma proposta de 2o do United, estando contudo, o jogador já apalavrado previamente com o United. Como o contrato previa que o fundo não ingerisse na venda do jogador, não percebo como é que um país como a Suiça, com leis tão rígidas não preserva as salvaguardas que são assinadas. No mínimo, estranho… Contudo, a decisão ainda é passível de ir para os tribunais civis portugueses e europeus porque segundo o que sei, a FIFA e a UEFA só punem estatutariamente aqueles que recorrem para os civis por questões relacionadas com competições.

          • Nightwish says:

            Não sei de que jogador fala, mas sei que o mesmo se passa no FCP. Jogadores da Doyen é a Doyen que decide quando entram e saem.
            Não me parece bem, e é uma das razões porque não gasto grande dinheiro com a coisa.


          • A defesa do Sporting foi apresentada na seguinte medida que acabei de descrever. As notícias que saíram na imprensa, no Football Leaks (os documentos que eles publicam quase sempre são os certos e não é à toa que a Doyen anda fula com eles) assim o indicavam. Se é prática no Porto, desconheço. Não estou atento a pormenores dos negócios dos rivais do meu clube com fundos…

          • Nightwish says:

            Também só sei graças a portistas preocupados. Confesso que me rio com a ideia da virgem santíssima do futebol português se ter revelado igual aos outros (que choque!!!).


          • Poucos são os puritanos nas presidências de clubes desportivos. Se fosse para os encerrar atrás das grades, tinhamos que ir do Unidos de Fiolhais em Hóquei até à Liga de futebol.

  4. Nightwish says:

    O desporto profissional de desporto só tem o nome. Não percebo os benefícios fiscais. E se os clubes tiverem que falir que não se faça como a MFL.
    Dito isto, só paga quem quer, para quem é sensato que use streaming.

  5. Rui Moringa says:

    Isto é a indústria do futebol no seu melhor.
    O futebol, o verdadeiro, deve ser praticado e não assistido.
    Mas se gostarmos de assistir a uma boa jogatana de futebol há os clubes amadores e agora há também raparigas a jogar.
    Só paga “o espetáculo (?) quem é tolinho. Aquelas massas humanas, alinhadas pela polícia e alinhadas nas bancadas não passam de multidões alienadas.
    Divirtam-se


    • E os adeptos do Barcelona, aqueles que andam ultimamente a levar as bandeiras nacionalistas da Catalunha para o Nou Camp? Também são alienados? É uma visão muito redutora da coisa. Futebol e Política tem mais coisas em comum do que aquilo que o Rui pensa…