Fazer política é outra coisa

Paulo Portas está há 16 anos à frente do CDS. Nesse período esteve várias vezes no Governo e em cargos de responsabilidade. Para aceder a tudo isto prometeu vezes sem conta a Reforma do Estado. E afirmou-a como prioritária. Pois, mas ao fim de 16 anos, o máximo que conseguiu foi um texto em letras gigantes e um PowerPoint com meia-dúzia de slides.

Paulo Portas é exímio na arte da lenga-lenga e na capacidade de fazer headlines, mas isso não me impressiona nada. O país está como está, e perdeu oportunidades atrás de oportunidades, muito por culpa de maus políticos como Paulo Portas que nunca souberam colocar o país à frente da sua circunstância pessoal.

Muitos elogiam-lhe a capacidade estratégica e de análise política. E fervilham em artigos, onde defendem que o anúncio da sua saída da presidência do CDS só pode querer dizer uma coisa: o “estratega” Portas acredita que o Governo de António Costa está para durar. Esquecem-se de dizer que a simples existência do Governo de António Costa, a capacidade que este revelou para juntar à sua volta a esquerda do parlamento, é uma violentíssima derrota eleitoral e política de Paulo Portas. De todos, talvez ele seja o que mais perdeu, pelo que, esta sua atitude (ainda se verá se irrevogável ou não) talvez seja somente o reconhecimento de que está num beco sem saída. O que para um mestre de estratégia e análise não é grande elogio.

 

Muitos também antecipam que com isto Paulo Portas está a fomentar uma renovação à direita, e vislumbram nisso algo de muito positivo. Sonham com mudanças no PSD, renovação de rostos e de equipas – parece que já há pessoas a fazer contas. Paulo Portas ensaia isso, deixando algo que talvez renda (na perspectiva dele) no futuro: diz que está a dar o palco aos mais novos, que tem agora um partido com pessoas (já não é um partido de um homem só) e quer dar ideia de uma saída “limpa”, sem “influenciar” ou “minar” o futuro.

Nada de mais errado. As mudanças que são urgentes têm o sistema partidário como pano de fundo, e a forma como elegemos e responsabilizamos quem gere o interesse público. Essas mudanças não se limitam a pessoas, nomeadamente a pessoas que têm percursos de vida iguais aos que agora estão de saída. Na essência, os partidos estão aprisionados por interesses de todo o tipo e não serão capazes de promover políticos capazes de romper com o que verdadeiramente tem impedido este país de se desenvolver: a teia de cumplicidades que os partidos do arco da governação desenvolveram, e alimentam, desde o 25 de Abril. Com resultados desastrosos, acrescente-se.

Paulo Portas foi eficaz a viver e a desenrascar-se nesse mundo.

Fazer política é outra coisa. Tem de ser o resultado de uma prática idealista – querer mudar o mundo -, sem deixar de ser pragmática e realista. Tem de ter um propósito maior e impacto na vida dos cidadãos. Tem de ter risco, antecipação, estratégia, visão, estar com os pés bem assentes na terra, mas ser sempre guiado por um comportamento ético irrepreensível. A política não pode valer a pena pelo que retribui a quem a exerce, mas antes pelas modificações e transformações de que formos capazes. Tem de ser exercida por uma maioria de pessoas que têm da sua circunstância pessoal um desprendimento muito evidente. Fazer política é ter a vertigem do risco e viver como se pensa, sem pensar como se viverá.

Aquilo que Paulo Portas fazia (faz), e era bom nisso, não é política, mas antes lidar com a complexa máquina de compadrios, com as suas próprias alternâncias e tradições, em que se transformou o regime. Fazer política é outra coisa.

Comments

  1. Abel Barreto says:

    Esse senhor é um dos piores exemplos que se pode dar como político, ou, dito de outra forma, é o melhor exemplo dos políticos que nos têm aparecido pela frente e que apenas agem de forma interesseira, rasteira, no sentido de beneficiar a sua corte de apaniguados.
    Não consigo perceber como uma mãe pode ter um filho como ele e outro como o irmão, o Miguel Portas.

    • Etel Diogo says:

      Bem…exemplo idêntico e este só mesmo o Aníbal, ou talvez ainda pior, porque na por lá esteve mais anos. Simplesmente metem nojo!

  2. Rui Moringa says:

    “Não consigo perceber como uma mãe pode ter um filho como ele e outro como o irmão, o Miguel Portas.”
    É um mistério da biologia e da educação e do ensino-aprendizagem.
    Perante as mesmas circunstâncias as nossas reações serão necessariamente diferentes. Mesmo perante uma contingência que ponha a vida em risco há diferentes reações.
    Na Natureza também há “comportamentos” parasitas e comportamentos predadores…
    Quanto a este portas não vale a pena perder tempo com ele. Vai de saída? Que vá para o raio que o parta.

  3. Socialista sempre. says:

    Parabéns pelo artigo. Já agora a P J . podia prende-lo para o investigar e saber onde param os documentos dos submarinos .

  4. tancredo says:

    A fazer política e a fazer despesa. Foram os sobreiros, foram os submarinos, E o Palácio do Farrobo como ficou, ou ainda não saiu de lá? Ele que vá mas é para “onde Judas perdeu as botas!”.

  5. martinhopm says:

    Um apelidam de ‘catavento mediático’. O outro ‘fala oralmente’. E este? Pelotiqueiro sem quaisquer escrúpulos que apenas age em função do seu interesse e talvez no dos seus correligionários. É aquilo que de mais execrável por aqui passou. Paz à sua alma! Quanto a ‘renovar a direita’. Qual? A União Nacional? Já convidou o Francisco Assis?