Irlanda a crescer 7.8% em 2015

Dublin, Ireland (17592569702)

Dublin, Irlanda

Em 2015 calcula-se que economia irlandesa tenha crescido 7.8%, ultrapassando até mesmo a China. Isto é visto como um caso de sucesso de recuperação da crise de 2008-2009 [sic].

Mas será mesmo?

Antes de tentar dar pistas quanto à resposta a esta pergunta vale a pena fazer notar o modo como os factos são distorcidos. Falam no artigo que linquei na “crise de 2008-2009”, quando a crise, tanto nos EUA como na Europa, é contínua desde 2008, com fracos sinais de recuperação, fabricados por enormes programas de impressão de dinheiro (eufemisticamente chamados quantitative easing). Além disto, se nos guiarmos pelas noticias que têm saído nos últimos meses, a economia prepara-se para mais um período de recessão global mais ou menos generalizada.

A Irlanda sofreu os efeitos de uma devastadora bolha imobiliária, da qual ainda não recuperou. Há problemas graves no sistema de saúde, o problema dos sem abrigo está pior que nunca, o índice de preços ao consumidor mantêm-se perto dos 0% – tudo isto são indicadores de uma recuperação não existente, ou quanto muito, incipiente.

A Irlanda também sofreu o “salvamento” da Troika, a receita não varia muito, aumento de impostos, degradação dos serviços prestados pelo estado, etc. Há também sempre algumas medidas peculiares, por exemplo, para o caso da Iralanda, temos, entre outras, o pagamento da água consumida.

Talvez seja por isto que a vitória fugiu ao Fine Gael, parece que o moto da campanha “Keep the recovery going” (mantenha a recuperação em movimento) não foi bem recebido pelos irlandeses (é também irónico pensar numa recuperação de uma crise que supostamente acabou em 2009!).

É justo perguntar que tipo de recuperação é esta que não é sentida pelas pessoas.

A verdade é que muita da recuperação a que assistimos deriva do facto de muitas multinacionais aproveitarem condições fiscais muito vantajosas oferecidas pela Irlanda. Em troca da passagem dos resultados para a Irlanda, as empresas beneficiam dos chamados sweetheart tax deals. A coisa funciona de uma forma muito simples, as empresas criam centros de resultados na Irlanda que facturam as sucursais no exterior, transferindo desta forma os lucros, no todo ou em parte, para a Irlanda. Como os impostos são aplicados sobre os lucros e como os impostos são menores na Irlanda do que nos países onde resultados são gerados, o resultado final é pagar muito menos impostos. Ou seja, a Irlanda funciona como paraíso fiscal para estas empresas. O PIB aumenta, mas as pessoas não ganham nada com isso.

Vale notar que esta política de baixos impostos para as corporações na Irlanda tem tido também resultados positivos dado que algumas industrias de manufactura se têm deslocalizado para lá. Isso não é, no entanto, suficiente para fazer grande diferença para a vida das pessoas, para já não falar no facto de não ser justo para os outros países. Para piorar as coisas o desenvolvimento que tem havido tem-se concentrado em volta da capital, estando a província largamente ausente desta “recuperação”.

Tendo em conta o anterior parece que esta recuperação não é assim tão espectacular. Eu chamar-lhe ia antes a correcção de uma economia que foi forçada a salvar bancos em 2011.

Comments

  1. J.Pinto says:

    Na irlanda:
    – A economia cresce
    – O desemprego diminui (está abaixo da média da UE)
    – Os salários são elevados
    – O emprego sobe
    – A dívida diminui (num ano diminuiu mais de 10 pontos percentuais)
    – A receita fiscal aumenta (apesar dos impostos baixos…)
    – O saldo da balança comercial é positivo e cresce cada vez mais.

    Pena é que a nossa economia não faça a mesma “correção”.

    • joão lopes says:

      presumo que isso sejam “factos”,portanto não discutiveis,sequer,e lendo o post.de helder guerreiro,ate parece que estão ,um a falar de marte e outro a falar de plutão.mas existe pelo menos um Facto,onde Portugal bate aos pontos a irlanda:o sol.quem quiser,ou puder que vá trabalhar para a irlanda,mas nem esta esta assim tão recuperada,nem chuva Permanente convida a uma vida agradavel em Dublin,pelo contrario,o que se vê é homeless e uma quantidade de alcoolicos por metro quadrado,como só…nos paises de leste.

    • Nightwish says:

      – A economia cresce
      Graças ao investimento das empresas americanas que sofreram muito menores quebras de consumo causadas pela austeridade
      – O desemprego diminui (está abaixo da média da UE)
      Emigração
      – Os salários são elevados
      Os salários de IT são, porque continuam mais baixos do que na América. O resto…
      – O emprego sobe
      Emigração
      – A receita fiscal aumenta (apesar dos impostos baixos…)
      Efeitos do investimento do estado feitos nas últimas décadas para atrair investimento estrangeiro na área de tecnologia
      – O saldo da balança comercial é positivo e cresce cada vez mais.
      Porque o mercado das maiores empresas não é um a aplicar austeridade, portanto não tem que lidar com um consumo tão horrível

      • J.Pinto says:

        E…….a Irlanda está melhor ou pior do que Portugal?

        Querer comparar o imcomparável é completamente irreal. Justificar o aumento do emprego (leiam bem, emprego) com a emigração é surreal. Ou seja, na sua opinião a emigração serve como justificação para a diminuição do desemprego e para o aumento do emprego. Boa….

        • Nightwish says:

          Está melhor graças ao investimento e intervenção do estado a contrariar a política europeia.

  2. Afonso Valverde says:

    Não percebo nada de economia e, por isso, estou a salvo das críticas que me possam lançar.
    Mas, contudo, sei o que é crescimento. é crecer. O crescimento da economia significa que a Irlanda está a enrtiquecer, ou seja, tem mais dinheiro, mais matéruias primas, mais ouro, etc. e em sentido contrário não deve4 tanto aos credores.
    A pergunta que se impõem é? Oque têm eles que nós não temos? Apenas sabedoria e melhor organização da sociedade: Educação, formação, sistema de justiça, leis laborais e outras?
    O que produzem e vendem ao exterior? As matérias primas para eles são mais baratas do que para nós?
    Estou aborrecido de tantos dados sem tradução para a vida real das pessoas.
    Se o capital, em rendas, abocanha mais do que o crescimento económico, a sociedade torna-se mais desigual. É basicamente isto que defende Pikety que é um economista do capitalismo.
    Portugal não estará mais rico porque os donos de Portugal não são os portugueses mas o estado chinês (curisamente comunista?!), alguns angolanos, alemães, ingleses, americanos.
    Não tarda até os refugiados que querem apenas fixar-se em Lisboa tomam com dos negócios de bandeja que é isso em que estão transformados os portugueses (garçons).

    • Nightwish says:

      Teve investimento do estado para atrair capital de uma zona económica não suicida e que, portanto, continua a crescer. Ao contrário do outros, 4 anos não chegaram para acabar com os efeitos desse investimento, graças também ao governo.

    • J.Pinto says:

      Por isso tudo é que está melhor. Lá os governantes, governam, pensam no longo prazo, não pensam apenas em eleições. Sabem que, numa economia global, a atração de investimento é importante. Por isso, não se importam de ter IRC a 12,5%. Bateram o pé à troica e preferiram baixar o SMN do que aumentar o IRC de quem investe lá. Aqui é ao contrário…..As leis laborais são adaptadas às necessidades das empresas (e dos trabalhadores) e conforme as exigêncas de uma economia de mercado (aqui pensamos mais em direitos adquiridos). Aqui, uma PME com um ou dois trabalhadores, que mal consegue vender para pagar salários do seu único trabalhador, leva com um PEC de mais de 1000€. Imagine o que aconteceria se uma pessoa (singular) que não tem rendimentos fosse obrigada a pagar IRS….

      • Alexandre Carvalho da Silveira says:

        Em relação ao exito da Irlanda versus a navegação em águas turvas que é a politica portuguesa, há um facto que foi decisivo na maneira como a Irlanda saíu do ajustamento: o Tribunal Constitucional Irlandês declarou que não se iria pronunciar sobre quaisquer medidas que o governo tomasse para sair da crise e isso foi meio caminho andado. Como sabemos por cá os juizes do Ratton, decidindo em causa própria o que só por si é uma aberração, condicionaram negativamente a actuação do governo levando o país para onde ele está hoje: crescimento anémico, desemprego ainda nos dois digitos, e o principal problema, a insuportável despesa publica, está por resolver.
        Resta-nos olhar para a Irlanda e inventar tretas para os excelentes resultados que eles estão a alcançar.

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