Carta do Canadá – A morte que dói

Acabo de saber da morte súbita de Nicolau Breyner. Dói-me a alma. Não é fácil ver desaparecer os artistas que amamos como se fossem do nosso sangue.

Vem-me à memória aquele rapaz que, mudo e emocionado, levantava um cartaz num recital dos Três Tenores em Buenos Aires. “Não morras Pavaroti”, dizia o cartaz. Quando amamos o teatro, o cinema, as artes plásticas, a música, a literatura, é o que apetece implorar aos que se distinguem. Daí a considerá-los imortais vai um passo. E garantido enorme desgosto quando eles partem. Foi assim que me senti tantas vezes: Rommy Schneider, Yves Montand, Edith Piaf, Jaques Brel, Ingrid Bergman, Chagal, José Régio, Jorge Barradas, Almada-Negreiros, tantos e tantos mais. Mas também por eles estou grata à TV e ao cinema que perduram a sua obra e a lembram de vez em quando.

Agora, o Nicolau. O actor que dominava a profissão sem ser enfadonho, agarrando o público. O humorista que sentia prazer em fazer rir, em aliviar o fardo da vida ao próximo, sem precisar, para ter graça, de ser ordinário, vulgar, insultuoso da religião e opções dos demais. Era um senhor e popular por isso de ser amado pelo povo que se revia nele. Porque, para além do palco, era um homem generoso, leal, escorreito de carácter. Um alentejano puro sangue.


Lembro especialmente uma noite, em 1975, no espaço duma dicoteca falida para os lados do Hotel Ritz. O país estava cheio de slogans partidários, de canções guerreiras. Malta nova, já se sabe, reinava com tudo. Todas as noites, um grupinho instalava-se no Botequim, da Natália Correia, porque era lá que desaguava o Conselho da Revolução depois de reuniões endiabradas que davam securas aos seus membros. Saciada a sede, desatavam-se as línguas, e por isso a clientela era muita e certa. O meu grupo era duma pontualidade britânica: Carlos Pina, Ana Maria Adão e Silva, Jorge Feio, Maria de Jesus Facco Vianna, Lino António. Uma noite, Nicolau Breyner passou por lá para dar um recado: meninos, amanhã à noite quero-vos na Rua Rodrigo da Fonseca, número tantos, para um show à porta fechada. Na noite seguinte, a fila à porta indicada era coisa que se visse. Entrámos, todo o mundo se sentou, em cadeiras enquanto as houve, e pelo chão fora. A seco, porque o bar já não existia. Solene, com aquela cara de maroto inesquecível, o Nicolau anunciou que nos ia contar a História de Portugal desde o princípio. Começou pela tareia à Dona Teresa lá para os lados de Guimarães, a teatrada do Egas com o baraço ao pescoço, e por ali fora, até passar pelo Infante D. Henrique a quem, no dizer do Nicolau, a mãe, que era inglesa, tinha comprado uma capeline para ele não torrar a cara com o sol do Algarve. A malta ria que tombava. Até que, às tantas, se ouviu um estrondo seco e se apagou a luz. E apagou-se por uns minutos, o que deu muita fungadela de riso, muita boca foleira. Finalmente, a luz voltou e o Nicolau, com a cara mais séria do mundo, explicou: “acabou a longa noite fascista”. Este era um slogan particularmente querido do PCP, verdadeiro sem dúvida, mas repetido até à náusea, a propósito e a despropósito. O prédio estremeceu com as gargalhadas. E foi por isso que o Nicolau quis o show à porta fechada, sabido que era de todos que o PCP de Cunhal e o Copcon de Otelo não tinham senso de humor, não sabiam rir, e não se ensaiavam nada para terem lá aparecido, muito à séria, a bater na malta para salvar a revolução. Foi por se tomarem tão a sério que perderam o comboio, o que só prova que de todo não conheciam o povo traquinas e trocista que somos.

Adeus, Nicolau. A esta hora, calculo, já Deus se riu e o Céu está numa festa.

Comments

  1. Pedro says:

    ok… eu só não percebo é porque haveria o COPCON ou o PCP de invadir um espetáculo onde o Nicolau Breyner fazia umas rábulas que metiam o Afonso Henriques.

    • Manuel Nogueira says:

      Julgo que é pelo facto de o COPCON e o PCP terem tão pouco sentido de humor para piadas políticas como o fleitão tem para piadas religiosas.

      • Pedro says:

        É a fleitão… quer então dizer que tiveram de fazer essa rábula à porta fechada, clandestinamente, com medo de serem presos…. a Laura Alves, em comparação, teria sido despachada para a Sibéria. Os criadores de mitologias devem achar que somos todos parvos.