O fim da geringonça

Geringonça 1

O plano era para quatro anos e a sintonia era absoluta. Não havia caras nos cartazes e Portugal estava à frente. A simbiose era tal que os dois partidos pareciam fundir-se num só e em Belém morava uma espécie de anjo da guarda movido a bolo-rei. Tudo era belo e a maioria absoluta estava ao virar da esquina.

Poucos meses após as Legislativas, assistimos hoje aos dias do fim da geringonça. A de direita, claro, que ela também existe. Perdão: existia. Triturada pela democracia representativa e órfã de Cavaco, a geringonça de Passos e Portas assiste, acantonada à direita e ainda refém do discurso do golpe de Estado, ao desmoronar de parte da imprensa colaboracionista e ao fim da era Paulo Portas à frente do CDS-PP. Em Gondomar fala-se de democracia-cristã e disparam-se tiros de fogo amigo contra o mesmo Carlos Costa que Passos Coelho tanto se esforça por defender. Na São Caetano limpa-se o pó da social-democracia, que em breve voltará para a gaveta, e nas jornadas parlamentares do PSD ouvem-se profecias apocalípticas dos amanhãs bancarrotistas que cantam.

No Parlamento, as bancadas da direita recusam-se a apresentar propostas de alteração ao OE16. Um documento mau, dizem eles. Um documento mau que recusam tentar melhorar, levando alguns dos seus eleitores a questionar-se sobre o que estarão eles lá a fazer. Os que podem, como Maria Luís, fazem-se à vida. A maioria limita-se a levantar o braço quando assim lhes dizem para fazer.

Porém, no ministério da propaganda, há ainda quem procure branquear os dias do fim desta geringonça. É o caso do incontornável arquitecto Saraiva, esse seríssimo cronista da direita radical que se debruça sobre temas tão essenciais como o número de namoradas de uma apresentadora de TV ou os sinais externos de homossexualidade que um macho da envergadura do arquitecto Saraiva não deixa passar sem a devida reprimenda. No seu mais recente artigo de opinião dedicado a engraxar, com a virilidade que lhe é conhecida, os mocassins de Pedro Passos Coelho, Saraiva envereda pelo discurso mais ressabiado, insistindo na habitual negação da democracia representativa:

Nas legislativas, o princípio é outro: vota-se em partidos políticos e em programas – e, de caminho, no líder partidário que se deseja para primeiro-ministro.

E insiste:

A afirmação de que das eleições saiu uma maioria de esquerda também não é verdadeira.

Pois não. O facto do número de deputados dos partidos de esquerda, que chegaram a um acordo pós-eleitoral de apoio ao actual governo, ser superior a metade do hemiciclo é apenas uma ilusão de óptica. Por falar em ilusões, diz Saraiva, sobre o seu adorado Passos:

Olha-se para ele e parece que ainda está ali o primeiro-ministro.

Exacto Saraiva: parece. Mas não é e, tenho um pressentimento, nunca mais será. Mas se te consola, não vem mal nenhum ao mundo achares que ele parece. A mim, por exemplo, parece-me uma versão direita radical de José Sócrates. E a Salazar também lhe parecia que ainda mandava no país depois de cair da cadeira. Mas nem tudo o que parece é. Talvez isso explique o destilar de ódio, neste registo que tem tanto de fanático como de patético:

Como os talibãs, a maioria de esquerda, depois de tomar o poder, começou a derrubar implacavelmente o que estava feito, não deixando pedra sobre pedra.

Sim, dá pena. A cassete que encrava, o discurso que se infantiliza e o ódio que se apodera do discurso da direita radical. São os dias do fim da geringonça. O barco afunda e os Saraivas tocam violino. Tenhamos dó.

Comments

  1. Ana A. says:

    Espero bem que esta geringonça continue no futuro, porque tenho muito receio, que à falta desta, surja a outra que já nos atormentou tempo demais (PSD/PS)!

  2. tekapa23 says:

    Mas que chorrilho de disparates ! Os ‘jornalistas’ não deviam beber quando escrevem…