Crónicas Desportivas (3) – o brilharete de João Sousa em Miami

«O João obrigou-me a jogar. Forçou-me a aumentar o meu jogo bastante no segundo set porque ele estava a jogar bem. Posicionou-se mesmo em cima da linha e apanhou a bola muito cedo, de forma eficiente, coisa que eu não estava à espera. Pensava que ela ia jogar mais recuado no court»

«O João criou-me grandes dificuldades, especialmente quando jogou a favor do vento. É um bom jogador, muito talentoso e rápido. Serviu bem mas eu depois comecei a ler-lhe melhor o serviço e a entrar no ritmo».

Foi assim que Novak Djokovic resumiu o seu desempenho, tecendo rasgados elogios ao tenista português (actual 38º da hierarquia mundial) na partida referente à 3ª ronda do Masters de Miami (prova que vale 1000 pontos para o ranking ATP) na qual o sérvio venceu por 6-4 e 6-1.

Ainda não foi desta que o vimaranense bateu um dos ases da modalidade. Por falar em ases o sérvio, jogador fortíssimo no plano mental, conseguiu ao nível do serviço ir do 8 ao 80 em poucos segundos, ora cometendo duplas faltas quando se sentia mais folgado ao nível de resultado, ora fazendo ases na disputa de pontos de break a favor do português.

João Sousa mostrou-se ao mais altíssimo nível no 1º set. Sofrendo um break no 7º jogo de serviço, conseguiu contrariar o fortíssimo plano mental de Djokovic quando o sérvio dispõe de um break, tentando imediatamente matar “mentalmente” o adversário com uma vitória no seu jogo de serviço, ao vencer-lhe o seu jogo de serviço no 8º. Pelo meio, João Sousa conseguiu “desbaratinar” Djokovic ao anular por completo os momentos nos quais com as suas pancadas inside o sérvio tentou colocar um ritmo altíssimo na partida, quer através de direitas descruzadas inside in quer através um ou dois amortis de altíssimo nível nos quais, o  sérvio, na sua velocidade de deslocação no court foi “buscar e respondeu”, ora através de meia dúzia de pancadas inside in\smash que deixaram o sérvio pregado no tapete. Existiram inclusive momentos da partida nos quais Sousa, com rapidíssimas pancadas de fundo de court mandou no plano ofensivo do jogo e obrigou o sérvio a fazer maratonas na linha de fundo para defender os pontos.

No 2º set, Djokovic teve que imprimir mais velocidade e maior criatividade no critério de escolha e decisão de lances do seu jogo para conseguir suplantar o tenista português que, logo no primeiro jogo de serviço do set conseguiu cometer a proeza de virar um 0-40 para ponto, feito que não está ao alcance da grande maioria dos tenistas de topo.

A João Sousa falta, a meu ver, uma esquerda mais eficaz (pede-se portanto que seja capaz nas pancadas de esquerda de conseguir responder e de não cometer tantos erros não-forçados), uma melhor resposta aos serviços adversários e uma pontinha de mais clarividência na decisão de jogadas. Se melhorar durante o presente ano a sua esquerda, estou convicto que poderá trazer mais títulos ATP para Portugal e que poderá dar o salto em definitivo para o top-20 do ranking mundial.