Postcards from the U.S. #7 (New York)


‘Sun, Moon, Simultaneous’ or ‘It is all true’

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‘The city that doesn’t sleep’, como cantou (entre outros) – e eu já o disse no postal número 2 – o Sinatra*, a cidade sobre a qual já vimos todos demasiados filmes, como diz Brendan Behan, no livro ‘Nova Iorque’, editado em Portugal pela maravilhosa Tinta da China, na coleção coordenada por Carlos Vaz Marques, de que sou absolutamente fã (mais da coleção, mas dele também, vá). A cidade que tem o dia e a noite ao mesmo tempo. Sun, Moon, Simultaneous, como no nome do magnífico quadro de Robert Delaunay que vi hoje no MoMa (Museum of Modern Art). Delaunay era, no entanto, francês e o quadro não se refere a Nova Iorque. Nova Iorque. É como uma feira de luxo. Mais que isso. É o ‘melting pot’ do mundo. Tudo isto é ainda Behan quem nos diz. E tem razão. As luzes e as sombras. A frenética atividade e todo o vagar do mundo. As misturas. As contradições. O sol e a lua em simultâneo.
 
De maneira que não é difícil fingir ser um ‘new yorker’. Aliás, mais do que não ser difícil é, muitas vezes, recomendável que atuemos como se fossemos daqui. Na verdade, somos todos daqui, de várias formas. Até aqueles que nunca aqui vieram. Sim, os filmes, demasiados, que já todos vimos sobre a cidade tornam-na tão nossa como se nossa fosse, tão familiar e dominável. Aconteceu-me hoje na Grand Central Station (a que se deve chamar Grand Central Terminal), mal entrei, essa familiaridade. Reconhecia tudo, ou quase tudo. O relógio, os candelabros, as bilheteiras, as escadarias este e oeste, as janelas, o teto azul como se fosse o céu. North by Northwest, de Hitchcock; Cotton Club, de Francis Ford Coppola; Amateur, de Hal Hartley; Revolutionary Road, de Sam Mendes, para citar apenas alguns dos meus preferidos.

 
Também o modo como cheguei ao Grand Central Terminal, na East 42 st com a Park Avenue, foi aboslutamente nova iorquino. Quando saí do hotel, dirigi-me para o Madison Square Park, just ‘a few blocks away from the hotel’, andei de volta do Flatiron Building, que tem a fama de ter sido um dos primeiros arranha-céus de Nova Iorque, Foi desenhado por Daniel Burnham e inaugurado em 1902. Em 1902 era, com os seus 22 andares, um prédio alto. Agora não passa despercebido, não pela altura, mas pela forma original que tem. A seguir admirei a Metro Life Tower, um edifício muito bonito vizinho também vizinho do Madison Square Park. Na Park Avenue, um quarteirão adiante da Madison Avenue, apanhei, na East 23 st o metro para a Central Station. Apanhei o metro sem hesitar, tal como apanhei hoje todos os meios de transporte que tive de utilizar. Apanhei a linha 6 para a Uptown, evidentemente, nesta primeira viagem do dia.
 
Depois de ter contemplado e admirado, a partir de várias perspetivas a belíssima estação, fui pela 42 st até ao Chrysler Building, ali bastante perto. Idealizado por William Van Alen e inaugurado em 1930, este edifício permanece o 60º mais alto do mundo. É lindo, com a sua torre ’em camadas’ que se ilumina à noite. Do Chrysler Building voltei para trás, para a Madison Avenue, com a East 43 st, para apanhar o autocarro (apanhei o M1) que me haveria de levar ao MoMa, no número 11 da West 53 st, se entrarmos por este lado (há outra entrada na West 54 st, por onde saí). Cheguei lá sem problemas, o que só se explica por não ser complicado circular de transportes públicos em Nova Iorque. Basta ter um Metrocard devidamente carregado, ter um mapa dos autocarros e do metro e saber as moradas dos sítios onde se quer ir. Até para uma desorientada como eu, Nova Iorque apresenta poucos obstáculos nesta matéria. Manhatan é basicamente uma grelha com as avenidas principais na vertical e as ruas na horizontal. Pelo menos, na maior parte da ilha é assim. Cometi ontem ou antes de ontem um erro quando referi que da Ponte de Brooklyn a vista sobre Nova Iorque era sublime. A vista continua a ser sublime, não foi esse o meu erro. O meu erro foi em ter chamado Nova Iorque a Manhatan e apresentar Brooklyn como não fazendo parte da cidade de Nova Iorque. Nova Iorque (já regressarei ao MoMa) é composta por cinco ‘distritos’: Manhatan, Brooklyn, Staten island, Queens e Bronx. Depois, cada um destes distritos se pode dividir em bairros. Eu, por exemplo, estou no NoMad, no Midtown. Mas há aqueles que toda a gente pelo menos já ouviu falar: West Village, Greenwich Village, Tribeca, Soho, Little Italy, China Town, Upper West Side, Upper East Side, Harlem, entre muitos outros.
 
Mas voltando ao MoMa. São duas da tarde quando lá chego e tenho fome. Como qualquer coisa no café. Peço um expresso e um bolo de chocolate que, quando chega à mesa, parece uma obra de arte. O casal que almoçava na mesa ao lado da minha levanta-se e pára diante de mim. A mulher diz ‘so pretty’ e eu respondo que sim, que é um bolo lindo. Ela diz: ‘not the cake… I was reffering to your blouse. So nice!’. Agradeci-lhe. De facto a blusa é bastante bonita, com umas mangas originais. Já é a segunda vez que nesta viagem, desconhecidos me elogiam as blusas. Por acaso (ou se calhar não) ambas são da Lanidor. Não ando à procura de patrocínios mas, repito, se porventura alguém desta marca portuguesa de que sou cliente habitual me estiver a ler e me quiser contratar para vestir (mais) das suas roupas nas viagens que faço, está completamente à vontade. Prometo fazer a publicidade que agora faço, ou seja, vestir as roupas e passear com elas.
 
Depois do episódio da blusa a que achei, naturalmente, graça, fui ver o museu que era para isso que ali estava. O edifício é bastante bonito, sobretudo no interior. Tem um jardim de esculturas igualmente bonito, silencioso e agradável. Mas o que me levou ao MoMa não foi obviamente o edifício, mas a sua coleção que inclui obras desde 1880 até à atualidade, reunindo pintores, escultores, fotógrafos, como Cartier-Bresson, Basquiat, Picasso, Van Gogh, Mondrian, Kandinsky, Munch, Gris, Cézanne, Klimt, Kupta, Delaunay, Man Ray, Duchamp, Lichtenstein, Matisse, Mondrian, Warhol, Klee, Twombly (que tanto adoro), etc etc, you name it. A coleção de ‘picassos’ é verdadeiramente impressionante. Diante das ‘Demoiselles d’Avignon’ junta-se uma verdadeira multidão (enfim…), tal como diante de ‘Starry Night’ de Vincent Van Gogh. Eu, embora aprecie estes dois pintores, prefiro parar em frente dos dois Cy Twombly que estão, neste momento em exibição no MoMa. Aprecio igualmente, e muito, a exposição temporária ‘It’s All True’, de Bruce Conner. Não conhecia e é também para isso que servem as visitas aos grandes museus.
 
Saio do MoMa quando este fecha (os museus em Nova Iorque fecham geralmente antes das seis, embora às sextas feiras e sábados o horário se prolongue até às nove da noite) e vou pela west 54 st até encontrar a 6ª Avenida (ou Avenue of the Americas) e viro á direita. Mal dobro a esquina vejo as grandes letras LOVE, no cruzamento seguinte. Uma escultura de Robert Indiana. Não é nada de especial, mas é um ‘landmark’, por assim dizer, da cidade. Tiro a fotografia da praxe no meio das letras e vou à minha vida. Mais precisamente apanho o metro, na 7ª Avenida com a West 57 st em direção a Canal st. Isto é mesmo ‘a piece of cake’. Saio em Canal st. para ver Little Italy e Chinatown. Não me aventuro muito por este último bairro, mas passeio pelas ruas de Little Italy. Basicamente ambos os bairros se vão misturando, à medida que os italianos mudam de bairro (e chegam agora também em muito menor número aos Estados Unidos) e os chineses (que continuam a chegar em grande quantidade) invadem as lojas entretanto deixadas vazias. No fim da visita a este bairro, quando já vai anoitecendo e o sol é uma mancha ténue a iluminar apenas algumas fachadas dos edifícios velhos, regresso ao hotel, apanhando o metro 6 em Spring Station. è preciso dizer que em Little Italy e em Chinatown as ruas não formam grelhas. Têm nomes e não números, mas estou a sentir-me tão ‘new yorker’ hoje que consigo não me perder. Chego ao hotel, depois de ter saído na East 28 st com a Park Avenue.
 
Mais tarde saio para comer um hamburguer manhoso na Madison Avenue, num bar onde entra uma mulher bem vestida, mas embriagada, que começa a falar aos gritos. Sai daí a um bocado acompanhada por um homem que não cheguei a perceber (mas também não é nada comigo) se já conhecia. Quando eu saio ainda estão os dois cá fora. Ela dirige-se a mim, a cambalear, com a voz muito alta e uma pronúncia muito americana ‘do you have a cigarette, honey?’ Tenho dado alguns cigarros a pessoas sem abrigos, se me os pedem, mas esta mulher não tem ar de precisar que lhe dêem cigarros, de modo que lhe respondo, com o meu melhor sotaque americano: ‘yes, I have it… but cigarettes are too expensive, you know?… I am sorry’ e volto-lhe as costas, acendendo eu mesma um cigarro. ‘In New York act like a new yorker’. That’s it and it is all true.
 
*A canção ‘New York, New York’, interpretada por Frank Sinatra, aqui: https://www.youtube.com/watch?v=CdUcp-6ot_c

Comments

  1. obrigado por estes postalinhos….recordar NY é sem duvida uma delicia …os cheiros, as vistas, os museus, as gentes, a parolada de comer um cachorro em times square…é isso mesmo…a cidade que nunca dorme faz parte de nós e nós dela..é para mim o sitio onde estive que mais em casa me senti..

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