Postcards from the U.S. #8 (New York)


«My eyes could clearly see, the Statue of Liberty sailing away to sea…»*

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Fui agora lá abaixo fumar um cigarro que ainda não será o último. Do outro lado da rua uma mulher sem abrigo preparava-se para dormir. Assisti, deste lado da rua, envergonhada, aos seus preparativos. Deste lado da rua passavam entretanto jovens bem vestidos, nos seus fatos armani ou boss, nos seus vestidos donna karan ou calvin klein, com os seus sapatos jimmy choo ou louboutin e as suas carteiras ferragamo ou louis vuitton. Não me senti envergonhada ao observá-los e isto faz-me pensar, como sempre, no facto de apenas a pobreza extrema nos intimidar quando a vemos, nós os ‘remediados’. No entanto, não sinto também qualquer desejo de ser como os jovens que passam deste lado da rua, ou seja, ter aquelas coisas. Comprá-las. Não há neste momento nada que deseje ter. Nada que deseje comprar. Isso tranquiliza-me. Sobretudo numa cidade como Nova Iorque, não querer nada, não desejar ter nada além daquilo que já se tem, é um paradoxo, quando tudo nos apela ao consumo, quando tudo é desenhado para nos despertar desejos.
 
Sei que muitas pessoas vêm a Nova Iorque fazer compras. Não penso comprar nada, além da comida, dos transportes, dos bilhetes para museus e sítios, de um ou dois presentes para quem está do outro lado do mar, e, bom, um ou dois livros e alguns maços de tabaco. Não desejo nada, além disto. É simples nada desejar. E, já o disse, é tranquilizadora esta dimensão de que nada, neste momento, nada material, me faz falta. Na verdade, bastam-me estas ruas, este skyline, estes clubes de jazz, estas pequenas livrarias, o céu, algumas nuvens brancas, ter olhos para reparar nas coisas e nas pessoas.
 

As pessoas são muitas e muito variadas em toda a parte e Nova Iorque é o local onde percebemos melhor do que em qualquer outro essa diversidade e a sua maravilha. Tudo se mistura e tudo faz sentido. Este lado de cá da rua e o lado de lá, onde já deve ter adormecido a mulher sem abrigo, debaixo dos seus plásticos. Hoje de manhã ela não estava lá. Mas estava, já a dormir, ontem à noite e no dia anterior e no dia antes desse. Tenho reparado nela. Sem saber, até hoje, que era uma mulher. Não que isso faça diferença, para o caso. Ou talvez faça alguma, já que não é tão frequente vermos mulheres sem abrigo, como vemos homens. Mas de manhã, quando a cidade se apresenta lavada, sem os montes de lixo do entardecer, a mulher desaparece do seu sítio, junto ao posto de correios. Como hoje de manhã, quando saí. Ela já lá não estava. Reparei nisso ao mesmo tempo que reparei nas duas jarras enormes repletas de girassóis que alguém fazia entrar no hotel. As jarras de girassóis lá estão, na receção, reparei agora nelas, também.
 
Quando saí, hoje de manhã, já não era muito cedo. Apanhei o autocarro M5 para South Ferry. Fui com muita atenção a tudo até chegar ao meu destino, o Battery Park, um pouco abaixo de Wall Street. Ainda tinha um bilhete para o barco que vai até à Liberty Island e à Ellis Island. Não o ia deitar fora e, apesar de já ter andado de barco na Upper Bay, onde se encontram os dois rios, East e Houdson, antes de entrarem no mar. O barco é, aliás, a melhor maneira de ver o skyline da cidade e eu era capaz de ficar para sempre a contemplar esta paisagem. Creio que não me cansaria nunca dela. Creio que me surpreenderia sempre e infinitamente a sua incrível beleza, o seu perfeito desenho. Os rios quase a entrar no mar, misturando-se, estavam de um azul muito brilhante, o céu estava de um azul perfeito. Foi um passeio de barco absolutamente irrepreensível. Voltei a ver a estátua da Liberdade, carregando a sua chama que dá esperança ao mundo. Ou, pelo menos, deu aos milhões de imigrantes que chegaram, por barco, há muitas décadas, a Nova Iorque.
 
A Ellis Island recebia os imigrantes, seleccionava-os (embora poucos, nesses tempos, tenham sido mandados para trás), punha-os de quarentena, se necessário. Hoje, os edifícios que vemos nos filmes sobre os imigrantes que chegavam à América (em The Godfather II, de Francis Ford Coppola ou, num filme que vi recentemente, Brooklyn, de John Crowley) são um museu que retrata precisamente o período entre 1892 e 1954, em que mais de 12 milhões de pessoas chegaram à América entrando por Ellis Island, depois de verem a estátua que lhes garantia a esperança.
 
Enquanto viajava de barco, hoje, sob o sol que se refletia nas águas, não me saiu da cabeça a música American Tune*, de Paul Simon (que a cantou também com Art Garfunkel) e murmurei muitas vezes (algumas provavelmente de forma audível, mas que interessa isso, se ninguém me conhece?):
«And I dreamed I was dying
I dreamed that my soul rose unexpectedly
And looking back down at me
Smiled reassuringly
And I dreamed I was flying
And high up above my eyes could clearly see
The Statue of Liberty
Sailing away to sea
And I dreamed I was flying»
Na verdade, se a olharmos desde o porto em Battery Park, ou desde a baía, à medida que dela nos aproximamos, a estátua parece que vai largar amarras e avançar, navegando, para o mar, acompanhando os muitos veleiros e outros barcos que vemos no horizonte a passar por baixo da Verrazano Narrows Bridge. Não há muitas palavras para descrever o que vemos, quando vemos isto.
 
Saí do barco muito tranquila e cheia de uma felicidade daquelas que seria impossível partilhar com alguém. Daquelas que não se quer partilhar. E não sei dizer melhor que isto. Ao atravessar o parque na direção oposta da que havia tomado umas duas horas e meia antes, reparo numa caricatura do Woody Allen, extremamente bem feita. A senhora que faz os desenhos pergunta-me se quero fazer uma. São só 5 dólares, acrescenta. 5 dólares não é dinheiro nenhum, penso eu, e digo que sim, mas que quero uma caricatura como aquela, uma caricatura ‘woody allenish…’. Ela ri-se e diz que sim. Eu tiro os óculos de sol e ponho os outros, para que ela tenha o trabalho mais facilitado. Não sei se fiquei com um ar ‘woody allenish’, nem sequer se fiquei muito parecida comigo, mas a verdade é que adoro o desenho.
 
Com a caricatura devidamente emoldurada debaixo do braço continuo caminho pelo Battery Park até Bowling Green, onde apanho o metro. Apanho o 5 e saio por isso na estação do City Hall para mudar para o 6. Parece-me que toda a vida fiz isto, apanhar autocarros e metros em Nova Iorque, quando saio na East 28 st com a Park Avenue e avanço para a Madison, para virar à esquerda e depois à direita e entrar na rua do hotel. Venho deixar o desenho. Não posso caminhar por Nova Iorque com uma caricatura minha tamanho A3 debaixo do braço, está bem de ver. Entro e saio do quarto rapidamente. Vou para a 5ª Avenida onde avanço um quarteirão para sul e na West 26 st apanho o M1. Saio na West 10 st com a 5ª Avenida e avanço para o meio de Greenwich Village. Gosto deste sossego, destas ruas e casas bem arranjadas. com as suas escadinhas, as suas janelas e escadas de incêndio. Dou de caras com a Three Lives & Company, no número 154 da West 10 st e fico maravilhada. É uma pequena livraria, linda de morrer. Entro. E quero trazer todos os livros, claro, especialmente os da Flannery O’Connor por causa das capas (de resto, em casa, tenho os livros dela traduzidos, naturalmente). Compro três livros e apenas um deles é para mim. Dou de caras com um livro de Eça de Queirós, entre o Philip Roth e a Herta Muller e espanto-me. Pergunto à rapariga, cuja profissão invejo, se não tem mais autores portugueses. Pesquisa no computador e diz Fernando Pessoa. Respondo ‘e Saramago? E António Lobo Antunes?’. Diz que não tem, agora, mas já teve e que é difícil encontrar traduções de autores portugueses.
 
Embrulham-me os livros que não são para mim em embrulhos perfeitos e que apetece não desembrulhar nunca (se eu os recebesse não os desembrulharia nunca!) e eu saio para a rua com o meu saco. Sento-me em frente, num banco à volta de uma árvore. Fumo um cigarro e olho de novo para a livraria. Penso que a minha vida podia ser esta: ter uma livraria pequena, cheia de livros com capas bonitas, em Greenwich Village, Nova Iorque. E aprender a fazer embrulhos bonitos. Podia até arranjar um cão, levá-lo a passear pelas ruas cheias de árvores e bicicletas. Comprar comida biológica nas mercerias do bairro, beber vinho tinto nas esplanadas bonitas. Carregar sacos de roupa para a lavandaria mais próxima e ficar a ler um livro enquanto a roupa se lava e se seca. Podia depois ir comer um gelado ao BigGay, ali na esquina, a seguir enfiar-me no Smalls e ouvir jazz enquanto bebericava uma Blue Moon. Ou ser amiga do empregado do Village Vanguard e ele deixar-me entrar, só por um bocadinho, para ver o clube de jazz que sempre quis conhecer. Ele havia de me perguntar se é verdade que em Portugal há uma livraria com mais de cem anos e eu havia de lhe responder que sim e explicar-lhe onde é.
 
Seria a habitante perfeita desta cidade. Vejo muitos filmes e sei como é. Se tivesse três vidas – como seria natural ter, se a vida fosse perfeita como nos filmes – uma delas queria gastá-la aqui. Entre a livraria e os clubes de jazz. Se tivesse três vidas haveria de gastar outra a ser o que sou agora, também gosto da minha vida e apenas lamento que seja a única que terei. A última vida das três poderia gastá-la a dormir debaixo das estrelas à noite e a desaparecer de manhã ou a correr o mundo, navegando como a estátua da Liberdade, em direção ao mar.
 
*Paul Simon and Art Garfunkel, ‘American Tune’, aqui: https://www.youtube.com/watch?v=EWEkBxeu1wo

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