Funerais de Sá Carneiro e Mário Soares


funeral
Miguel Teixeira

– o “culto” do disparate numa comparação infeliz

Tenho assistido com alguma perplexidade e até surpresa à comparação da afluência do povo aos funerais de Francisco Sá Carneiro e Mário Soares, comparações que são absolutamente disparatadas e desfasadas no tempo e na situação política. Essas comparações têm-nos chegado através de “sites” ligados à Direita radical que não perdoam a Mário Soares o apressado processo de “descolonização”(embora como se tem visto nos últimos dias através de vários testemunhos à Direita, cito Ribeiro e Castro, ex. Presidente do CDS, é injusto ele ser unilateralmente responsabilizado) e ainda por comentadores radicais como João Miguel Tavares.
Em primeiro lugar, devo dizer que considero o Dr. Francisco Sá Carneiro um dos vultos maiores da nossa democracia, que lutou incansavelmente por um Portugal mais justo, tolerante e solidário. Fundou o PPD, um partido de centro esquerda, que pediu inclusivamente adesão à Internacional socialista, situação que alguns mais jovens poderão desconhecer. Sá Carneiro foi um homem que ajudou a construir o Estado Social e as conquistas dos trabalhadores no pós 25 de Abril, referindo nas suas intervenções, algo que poderá fazer “corar” alguns ex. governantes, quando afirmou, “que os subsídios de férias e Natal são impenhoráveis e inalienáveis” (fim de citação). Daí que eu tenho uma enorme admiração e apreço pelo percurso e legado político de Sá Carneiro, antes , na Assembleia Nacional, onde corajosamente foi criticando o governo da situação, solicitando uma transição para a democracia e depois do 25 de Abril como Primeiro-Ministro e líder do PPD, na luta pelo Portugal que temos hoje. Foi um enorme Estadista, um dos 4 maiores da nossa democracia no pós 25 de Abril, no tempo em que se fazia e encarava a política com espírito de missão e generosidade. Dito isto, acho disparatado e ridículo que se comparem o número de pessoas que assistiram a ambos os funerais.
Sá Carneiro era Primeiro-Ministro, um político no ativo, quando tragicamente faleceu num acidente aéreo, que me convenço que foi atentado. Tinha acabado , cerca de dois meses antes de vencer as eleições legislativas com maioria absoluta, com a AD. A população de uma forma global da esquerda à direita, o país ficou em “choque”, compreensivelmente com o trágico desfecho do Primeiro-Ministro no exercício do cargo e veio para a rua prestar-lhe a última homenagem. Os jovens, mesmo aqueles com tenra idade (10, 15 anos), numa altura em que só havia um canal de televisão a chegar a dois terços do país (RTP 1), sabiam quem era Sá Carneiro, porque nos meses que precederam a sua morte, entrava-lhes diariamente em casa, através da TV. Ora não é comparável, não pode ser, um funeral nessas circunstâncias, em que o povo tinha da política e dos políticos uma ideia substancialmente diferente do que tem hoje, com o funeral de um ex. Presidente da República com 92 anos e que há longos anos deixou o exercício do cargo de Presidente. Se tivesse morrido, por exemplo em 1996, quando deixou Belém, alguém consegue imaginar como seria o funeral de Soares? Depois há outro erro intencionalmente grosseiro que tenho observado em algumas análises.
Como é possível ignorar-se que à hora do funeral parte significativa do país está a trabalhar. O país está de luto, mas que eu saiba no dia do funeral de Soares não foi feriado nem fim de semana. E depois, há alguns que se preocupam com o número de pessoas que assistiu ao funeral como se isso fosse relevante ou sinal de maior ou menor apreço pela personalidade e percurso de vida de Mário Soares. Nem isto tem nada a ver com a capacidade de mobilização do PS ou a falta dela. As pessoas que vieram para a rua assistir e homenagear oex. Presidente foi porque quiseram de forma voluntária e espontânea, homenagear um homem cuja ação política foi central na construção da democracia. E houve muitos milhares como eu que estiveram a trabalhar, vivem a centenas de kms da capital mas reconhecem a importância e o legado de Mário Soares, no combate à ditadura, na luta pela liberdade, na construção da democracia e na adesão à União Europeia. O povo português sabe muito bem quem foi Soares, pelo menos os que têm mais de 35 anos. Para os que não sabem ou desconhecem ou persistem em estado de negação, aconselho uma consulta à imprensa Internacional dos últimos três dias subsequentes à sua morte. Comecem pelo “Washington Post”, passem os olhos no “Le Monde”, no “El País, ou no Financial Times. Está lá tudo. Em resumo: Viva a liberdade.

Comments

  1. ZE LOPES says:

    Uma achega para os adeptos do campeonato nacional dos funerais: no funeral de Sá Carneiro e acompanhantes as escolas estavam fechadas há vários dias. Sei porque dava aulas nessa altura e até me entraram pela sala adentro vários dirigentes locais da JSD a ordenar-me que a aula terminasse (não foi só na URSS ou na China que a “jovem guarda” funcionou…). E houve tolerância geral de ponto, pelo menos na função pública. Tudo se fez para que o funeral pudesse dar a volta aos resultados negativos que se adivinhavam através das sondagens e, principalmente, de quem tinha comparado a mobilização da AD com a de Soares Carneiro, no terreno.
    Operação falhada, de resto!

    • Pedro says:

      Lembro-me bem, era eu estudante de liceu. Isso e os jotinhas de gravata preta, em piquete à porta da escola…. As situações são incomparáveis.

  2. anónimo says:

    De facto, quem tem direito a um “funeral de estado”?
    Qual o formalismo inerente à distinção? Jerónimos? Panteão? Stabat Mater? Guarda de Honra? Luto nacional? etc.
    Não parece ético, ser a corporação do estado a decidir honrar os próprios estadistas. No meu entender é ao povo que deveria competir a decisão.

    Por mim fiquei maravilhado com o Bach.
    É preciso morrer alguém “importante” para a RTP nos dar boa musica, ainda por cima, executada pela “prata da casa”.
    Não é caso para desejar que morram mais pessoas “importantes”, mas, a gente que suporta este estado e cria a riqueza deste país, não tem direito à cultura sem ser nestas ocasiões?

    Compara-se Dr Soares com Dr Carneiro, e então o Dr Cunhal, não merecia ter tido as honras de estado? E os membros do MFA? Não são Pais da “democracia” e da “liberdade”? Não contribuiram para a revolução, queda do fascismo, fim da guerra colonial, independencia daqueles povos?

  3. Maria says:

    A fotografia aqui publicada é do funeral do Marechal Tito, Jugoslávia, 1980.

  4. O Sá Carneiro “enorme Estadista”, é capaz de ser um bocadito exageradito, não? Esteve afastado do país, por doença, nos periodos mais críticos após o 25.A e foi depois PM durante menos de um ano. Poderia ter sido, sim, se não fosse a sua morte trágica.
    O Soares, seja antes, seja depois da revolução, tem um curriculum como estadista a que o Sá Carneiro nem chega perto.

    • Rui Naldinho says:

      Meu caro. Tudo aquilo que diz é tão óbvio, que seria desnecessário eu ou qualquer outro dizê-lo.
      Mas, como saberá tão bem ou melhor do que eu, há um certo sebastianismo na direita em relação à figura de Sá Carneiro, tal como existiu no período dos Filipes, na III Dinastia, relativamente ao último rei da II Dinastia, D. Sebastião, isto por não podermos considerar o Cardeal D. Henrique, regente, como o último Rei de Portugal.
      Esta figuras que morrem precocemente deixam em parte da população, até por serem “jovens”, em especial nos seus simpatizantes, uma forte veneração, que ultrapassa o racional, como se com elas a salvação do pais estivesse garantida, e nada daquilo que nos rodeia interferisse nas nossas vidas.

      • Também. Mas a questão é mais que a direita tem que ter o seu Grande Estadista, dê por onde der. O Salazar, bem, parece mal, pelo menos à direita mais civilizada. O Cavaco? Acho que nem a direita… Resta o Sá Carneiro.
        Por acaso, a grande esperança antes do 25.A, entre a direita liberal, nem era o Sá Carneiro, mas sim o Pinto Leite, o chefe da ala liberal, que morreu cedo.

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