A receita da Fernanda


MRPP - O que é?

Há uns anos, em 2013, a Fernanda ia ser operada e receou já não acordar da anestesia. Por isso, preparou-se devidamente, escrevendo noite fora um dos seus textos mais pessoais, sobre Natália Correia e sobre mais uma catrefada de gente que viveu os loucos tempos do PREC.

A primeira vez que vi Natália Correia foi nos idos de 1959/60, pela mão de Vasco Lima Couto, poeta e actor que morreu novo. Foi num sarau literário num antigo clube perto do Rossio. Eu era então estudante universitária e os meus olhos deliciaram-se a conhecer outro poetas, outros escritores, que, viciada em leitura desde muito cedo, eu tinha lido. Não fui apresentada a ninguém, não tinha estatuto para isso, mas ainda assim fui brindada com uma briga homérica entre Lima Couto e Natália Correia que, incomodada com a irreverência do jovem do Porto, desfaleceu nos braços de Pedro Homem de Melo. Fiquei pregada ao chão. [Premonições, Fernanda Leitão]

Foi o João José Cardoso que nos deu a notícia.

“A nossa velhota vai ser operada. Vamos ver se safa”, disse-nos ele  com aquele seu jeito de pretender não dar importância às coisas a que mais valor dava. Passados uns dias as Cartas do Canadá estavam de volta, mas o texto inacabado foi sendo adiado. Outras histórias, porém, iam saindo da pena daquela que foi das primeiras mulheres (a primeira?) a dirigir um jornal em Portugal. Como escreve Inês Serra Lopes, “a Fernanda estava há muitos anos no Canadá mas acompanhava o que se passava em Portugal com uma capacidade de análise ímpar.” Acrescenta ainda que “O Templário, seu jornal, goste-se ou não, foi um bastião pela liberdade, um jornal de luta.” E que luta, que acabou com 150 processos por abuso de liberdade de imprensa. Era um tempo em que a lei obrigava a pagar uma soma substancial por cada processo, para se ter o privilégio de esperar em liberdade. Ainda hoje vemos como quem tem poder financeiro facilmente intimida com a justiça, tenha ou não fundamentação. Imagine-se em 1975, naqueles tempos agitados.

A intensa actividade da Fernanda durante o PREC não se resumiu ao jornalismo no seu O Templário. Juntamente com outros jornalistas, foi co-autora de diversos livros durante o PREC, dos quais aqui se escolhem três, para além daquele que abre o post.

LUAR - O que é?

LUAR – O que é?
A razão de ser da série CADERNOS DE DIVULGAÇÃO deve-se à circunstância, simples e quase cómica, de todo um povo ouvir falar em siglas de movimentos, partidos ou associações, sem saber do que concretamente se trata. E assim se tecem conjecturas, se fazem especulações e se embarca em boatos. Exactamente, em boatos. Ouve-se dizer que o grupo tal é esquerdista, mas aventureiro, desonesto, ligado à CIA… Acredita-se que o movimento tal é contra-revolucionário porque contradiz as afirmações públicas de quem tem a voz mais audível… Propaga-se que a associação tal não é tão virgem de contactos com a outra senhora, porque não sei quê… Ora, para pôr as coisas no seu devido lugar e ficar todo o povo elucidado, não há como fazer uma informação exaustiva e, sem medo nem arrogância, dizer a VERDADE. Depois que cada cidadão escolha livremente com quem quer dialogar ou em que, em definitivo, não quer trocar palavra. Só isto. FERNANDA LEITÃO – CARLOS PINA

 

Fernanda Leitão - Bilhetes Saloios do Templário

Bilhetes Saloios do Templário
De Fernanda Leitão Edições Liber Lisboa, 1975 123 págs. A autora, directora do semanário regional “O TEMPLÁRIO”, com sede em Tomar mas expansão nacional, escreveu inúmeros artigos de denúncia da situação política do período revolucionário pós 25 de Abril de 1974, conhecido também por PREC. Da polémica que os seus artigos suscitaram, resultou este livro onde os mesmos foram compilados e editados.

 

11 de Março: Autópsia de um golpe

11 de Março: Autópsia de um golpe
Edição e Propriedade da Agência Portuguesa de Revistas. Lisboa. 1975. Ilustrado em extra-texto com fotogravuras e caricaturas políticas.

Há tempos, a Carla descreveu as crónicas da Fernanda da forma mais certeira que conheço: “Têm aquela nostalgia que só a distância sabe filtrar na medida certa”. É um tom que transparece na forma como encarou a incerteza que a esperava depois da operação a que se ia submeter.

“Se não escapar, bebam um copo por mim e façam-me o grande favor de resistirem sem desânimo à mediocridade perversa que está a secar a alma da Pátria e a arruinar o seu património. Coragem para todos vós.”

E como se resiste melhor de barriguinha composta, partilhou uma das suas receitas favoritas, já que ela mesma se retratava como apreciadora de uma boa patuscada. Experimentem, pois não é só a alma que precisa de alimento.

Sopa alentejana

Numa malga almoçadeira, põe um bom punhado de coentros picadinhos e por cima, também picadinhos, dois dentes de alho. Por cima põe lascas finas de bacalhau cozido.  Põe por cima bocadinhos de pão tipo alentejano até encher a malga.

Prova a água em que cozeu o bacalhau para corrigir o sal, se for caso disso, e põe depois na malga, até ficar bem ensopado.  Ao lado, escalfa um ovo e põe no topo da mistura.  Com a colher, parte o ovo e vira tudo na tigela.

Bom proveito e vinho tinto.

Coragem para todos vós.

Comments

  1. Jesus says:

    Sou velhote reaças.
    Então não há azeite na malga?
    Ó que catrino.

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