Arons de Carvalho, o paladino da independência

José António Cerejo

Alberto Arons de Carvalho, vice-presidente da Entidade Reguladora da Comunicação Social, ex-secretário de Estado, ex-deputado e ex-dirigente do PS, publicou há dias um artigo no PÚBLICO em que defende com unhas e dentes aquela coisa a que vice-preside. Não me passaria pela cabeça contraditar o insigne professor e teórico da comunicação social, paladino da sua independência e especialista em questões de ética e deontologia.
Mas ocorre-me contar uma história que diz mais sobre o senhor vice-presidente e ilustre académico do que todos os tratados que já produziu ou venha a produzir.
Faz agora 22 anos, o então vice-presidente da Bancada Parlamentar do PS e candidato a secretário de Estado da Comunicação Social, lugar que viria a ocupar poucos meses depois, agarrou no telefone e falou com um dos editores do PÚBLICO. Pouco depois, não fosse a mensagem perder-se no caminho, ligou para um dos directores do jornal, José Manuel Fernandes, e repetiu aquilo que tinha transmitido ao editor.
E o que disse então o senhor vice-presidente daquela coisa que, noticiou ontem o Expresso, decidiu não investigar os indícios de interferência de Sócrates na nomeação do actual director do Jornal de Notícias? 
Ao que bufou o senhor, na condição de delator/mentiroso, um jornalista do PÚBLICO, de seu nome José António Cerejo, estaria empenhado, nas páginas do jornal, numa campanha pessoal contra a presidente da Câmara de Sintra, a sua correlegionária Edite Estrela.
Explicou o deontólogo que o tal jornalista, ao serviço da secção de informação local, andava a publicar notícias desfavoráveis à sua amiga porque ela lhe tinha embargado uma obra numa aldeia do concelho. Revelando um total desprezo pela verdade e pela decência pessoal e política, adiantou que o jornalista estava a construir uma clandestinamente, sem licença camarária, e que perseguia a autarca apenas por ela ter feito cumprir a lei.
Sucede que a obra em causa, a recuperação de uma pequena casa em ruínas, estava concluída há quase um ano, tinha projecto aprovado pela Câmara de Sintra há quatro, licença de construção emitida há dois e licença de utilização desde há vários meses.
Informado da calúnia pelo seu director, e da descarada tentativa de condicionamento de que estava a ser alvo por parte do deputado, o denunciado dirigiu-lhe uma carta pessoal, que ainda hoje conserva.
Datada de Fevereiro de 1995, a missiva, que nunca teve resposta, foi acompanhada de cópia do alvará de licença de utilização.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Sem colocar em causa as razões que lhe assistem num caso pessoal entre si e o “paladino da independência”, o qual não discuto, trazer à liça, ainda que de forma colateral, o nome de José Manuel Fernandes, só pode dar para rir.
    Se houve um comissário político do PSD no Público durante anos, ele chamou-se José Manuel Fernandes.
    Se você como jornalista nunca deu conta disso, das duas uma, ou andava distraído ou fazia parte do clube dele, e aí, era natural que não se apercebesse.
    Mas bastava ler o Público para nos darmos conta da forma enviesada como ele escrevia as suas narrativas.
    Portanto, meu caro, entre Arons de Carvalho e José Manuel Fernandes, venha o diabo e escolha, qual deles o melhor!

    • Ricardo Ferreira Pinto says:

      Rui Naldinho, para rir é mesmo a afirmação segundo a qual José António Cerejo faria parte de algum clube ligado ao PSD.
      Só mesmo de quem não conhece o rigor, a frontalidade e a coragem de José António Cerejo, há mais de 30 anos, no combate aos poderes instituídos, fossem eles quais fossem. Basta olhar para os seus escritos sobre a Tecnoforma durante os anos do passismo.

      • Rui Naldinho says:

        Ricardo, eu sei o que José António Cerejo escreveu sobre a TECNOFORMA, se bem que 30 anos de carreira jornalística não se resumem a isso. Portanto deverá ter escrito algumas coisas mais. Que eu também tive a oportunidade de ler.
        http://www.publico.pt/destaque/jornal//empresa-de-que-passos-foi-gestor-ficou-com-a-parte-de-leao-de-fundos-geridos-por-relvas-entre-2002-e-2004-25379989

        https://dissidentex.wordpress.com/category/jose-antonio-cerejo/

        Apesar de se poder inferir do meu comentário, que eu o associo a um pretenso clube do PSD, nunca foi essa a minha intenção. Lamento ter induzido a esse raciocínio.
        Até porque isso nem era relevante para a questão colocada.
        O que eu pretendi dizer, foi só e apenas, que qualquer testemunho de José Manuel Fernandes para mim vale zero.
        Já agora, acrescento. Qualquer testemunho vindo de Arons de Carvalho, Estrela Serrano, José Manuel Fernandes, Carlos Magno, Paulo Dentinho, José Gomes Ferreira, David Dinis, entre outros valem zero.
        Acho que ainda tenho direito a ter uma opinião pessoal, mesmo que errada, sobre jornalistas que li já por diversas vezes, e aos quais nao dou qualquer crédito.

    • nuno says:

      Naldinho, Já lhe disse mais abaixo – no texto da ERC – que você diz coisas acerca de jornalismo que não batem certo com a realidade. E ajuda a criar a verdade alternativa que criticará. Cuidado com o que escreve pois conclui depressa demais a partir de pressupostos muito errados, como este de ver qualquer compatibilidade de Cerejo com Fernandes. Conhece Fernandes, não conhece Cerejo e raciocina em falácia concluindo mal e poluindo o debate. E de boas intenções está o jornalismo cheio.