Factos alternativos com camones dentro


Ana Cristina Pereira Leonardo

Era o PREC e eu recusei a borla de um americano. A preposição conta: era ele quem me queria pagar o almoço.

Ao pedir a dolorosa, o dono do modesto restaurante disse-me que já estava pago e apontou para o américas que lá do canto mais sombrio da sala me esboçou um corpulento sorriso. Respondi com um esgar e declarei, com o radicalismo próprio da juventude desses tempos, que nem pensasse, o camone que fosse pagar almoços à tia dele, para a terra dele, era o que mais faltava, morte ao imperialismo e bem feita que se engasgasse com as espinhas, os meus almoços pago-os eu e nesta altura da conversa já tinha voado para o Chile, passado pelo Vietname, a Argentina em espera, o americano encarnado em agente da CIA em Lisboa, pinta de torcionário em pré-reforma, e no fim quem ficou a ganhar foi o galego, embolsou a soma de dois bitoques e duas sobremesas, o comer pago a dobrar, bendito PREC mais o camones go home, à distância talvez o homem fosse apenas um velho engatatão em férias mas como dizia o Nixon, até os paranóicos têm inimigos reais, o que não era o meu caso (talvez só um bocadinho), nem decerto o caso do outro americano que conheci em Marrocos a estudar os macacos-de-Gibraltar nas montanhas do Atlas, sozinho, ele, os macacos e a neve no Inverno, a mulher que se descobrira lésbica regressada a casa

Bye bye love / Bye bye happiness, hello loneliness / I think I’m-a gonna cry-y

escondido nas montanhas e escondido dos seus conterrâneos no hotel em Chefchaouen, o sonho (azul?) dele era ser canadiano, envergonhava-o ser gringo décadas antes de Trump, já pedira a nacionalidade N vezes mas os canadianos não tinham falta de especialistas em comportamento animal, muito menos de macacos-de-Gibraltar, antes fosse ele canalizador ou pedreiro, ouvia Leonard Cohen em cassetes e relia “O Amante de Lady Chatterley” contemplando anacronicamente as montanhas tantos anos após Paul Bowles ter seguido o conselho de Gertrude Stein e desembarcado em Tânger, americanos há muitos portanto, Deedee Wanwinkle, por exemplo, que fugiu com o filho do Utah e do marido violento para Las Vegas, perdido o dinheiro na roleta azarada de um casino e «agora faço tudo menos sexo», ou o grupo de excursionistas yankees que, em trânsito no aeroporto de Lisboa nos idos também do PREC, agradeceram efusivamente o caloroso acolhimento que não lhes era dirigido mas a camaradas albaneses de voo coincidente no horário, A Internacional cantada a plenos pulmões, ora nem mais, e que, duros de ouvido, confundiram decerto com cânticos havaianos. Bons tempos!

Uma versão desta crónica foi publicada no Expresso de 28 de Janeiro de 2017

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