O futebol ama a dor: apontamentos humorísticos e solidários


[André Camandro]

Fala-se tão pouco do futebol amador. Quanto a mim, é injusto que mereça tão pouca atenção de todos nós, como dos média, que persistem em ignorá-lo, quase como se de certas modalidades profissionais, como o atletismo ou o hóquei em patins se tratasse. Como disse, não é justo. Todos nós, os futebolistas amadores, mereceríamos certamente mais. Se não podemos competir com os profissionais no talento, ou no ordenado (no fundo, em quase nada), resta sempre algo em que, vou imodestamente assumi-lo, somos iguais: as lesões.

É verdade. Falo de lesões tão graves que nos mantêm longos meses afastados dos relvados. É o único plano, geralmente horizontal, em que podemos competir com Maradona. Claro que é uma vantagem, quando isto acontece, não termos um contrato ou um ordenado a perder. Mas não chega. Os danos morais são enormes, e atingem famílias inteiras. É para vos falar de uma dessas lesões, e do drama que se lhe seguiu, que escrevi estas linhas. No fundo, é uma homenagem. Ao amadorismo, à falta de talento, à inépcia pura, mas também à paixão, que poderia comparar à de um qualquer Garrincha.

O Pedro (nome fictício com que tento preservar a sua dignidade), que foi meu colega de escola e compete comigo em inabilidade futebolística pura, costuma acompanhar-me nestes jogos ao Domingo de manhã. Há muito que as nossas companheiras se habituaram, e mesmo agradecem, estas nossas ausências, a caminho da Azinhaga da Musgueira, em cujo campo passeamos a nossa falta de classe a cada semana.

Depois da gravíssima lesão que contraiu no Domingo passado, isto não voltará a acontecer durante longos meses, o que muito nos custa. Não no plano desportivo, é claro, mas à mulher do Pedro, já que ele tem agora uma razão factual para se escusar a partilhar tarefas em casa. O Pedro, tal como eu, interpreta com brilhantismo o clássico papel do “gordo à baliza”. Como eu, é magro que nem um espeto, e sofre de espondilose. Vale a metáfora.

É para a baliza que, invariavelmente nos encaminham. Quem sabe apenas o mínimo de futebol sabe que esta atitude é muito pouco inteligente. Atribuir aos mais inábeis uma posição de tamanha responsabilidade é algo que invariavelmente se reflecte no resultado, com grande prejuízo. É como atribuir a um Vítor Gaspar ou uma Maria Luís Albuquerque a pasta das finanças de um governo nacional. Ponham-nos a jogar mais à frente, que Diabo (não lhes fará mal começar no banco – de suplentes, entenda-se).

Foi, como referi, no passado domingo que isto aconteceu. Para azar do Pedro, o jogo ainda não tinha começado. Aliás, em rigor, o próprio aquecimento também não tinha ainda tido lugar. O Pedro encaminhava-se, com a sua costumeira resignação, para a baliza. Enquanto o Mário e o Vasco, equipados a rigor, discutiam qual das bolas seria mais adequada, o Pedro tropeçou, sozinho, sem bola, sem amparo, sem nada. Ainda agora estou para perceber como é que aquilo aconteceu. Ainda fazia contas aos minutos que me calharia sofrer em campo e já o Pedro, depois de cair desamparadamente em cima do braço torcido, e imediatamente fracturado, se contorcia com dores, muito para além do Ronaldo na final do Euro, e sem direito a apoteose ou borboletas. Acima de tudo, sem final feliz. Ronaldo mereceu-o. O Pedro merecia muito mais do que teve.

Há poucos minutos, fui vê-lo a casa. Ainda parece o robocop, com aquela estrutura metálica grotesca a envolver-lhe todo o braço direito, em que resolveu assentar, irreflectidamente, os seus 90 kg de peso. Magro que nem um espeto, sim, mas o Pedro tem quase dois metros. Experimentem uma queda duma altura como esta para ver como ficam.

Posso dizer-vos que a qualidade do futebol praticado na Azinhaga da Musgueira já conheceu piores dias, com o afastamento dos dois “gordos” de serviço, o Pedro forçadamente, eu por resignada solidariedade. O dia virá em que aos amadores serão reconhecidos o mérito e abnegação em prol do desporto. Entretanto, e sem infra-estruturas que acelerem a sua recuperação, resta ao Pedro chá e algumas mezinhas, com que a mãe insiste em presenteá-lo. Como naquela casa, e em muitas que conheci, não reina a harmonia entre a companheira e a sogra, resta-me desejar a rápida recuperação do Pedro, a quem deito daqui um abraço.

Comments

  1. Está farto de ler sobre as historinhas desportivas do grupeto da peladinha lá no Bairro? Este post não me lembra nem sequer À Maria Cachucha? O Aventar perdeu imensa qualidade ao nível do comentário da actualidade desportiva? Venha ler o seu ex-aventador favorito em http://www.omeucadernodesportivo.wordpress.com. Onde? Em http://www.omeucadernodesportivo.wordpress.com, o novo blog desportivo que tirou 15 mil visualizações nos últimos 32 dias ao Aventar.

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