O drama venezuelano


A ideia nem era má. Tirar (um bocadinho) aos ricos para dar aos pobres, construir casas para sem-abrigo, escolarizar os bairros de lata. Só que não chegava. Chávez chegou ao poder pela via democrática, foi reeleito duas vezes, a última das quais com números esmagadores, mas nunca teve hipótese nenhuma contra o sistema. O sistema que não gostou de ver a oligarquia venezuelana tomada de assalto por nacionalizações e reformas agrárias. O sistema que não queria mais pólos potencialmente perturbadores para a pax americana. O sistema que tinha (e tem) um império mediático, falível mas extremamente poderoso, que usou para minar a opinião pública. Que desempenhou um papel-chave num golpe de Estado falhado em 2002, patrocinado por Washington, onde à data fazia a lei George W. Bush, esse grande democrata que nunca oprimiu ninguém. Tudo isto, e o muito mais que poderia ser referido, não pode ser ignorado. Tal como não pode servir de justificação para tudo.

Sobre se o modelo funcionaria num mundo ideal, onde a lógica predatória que impera na economia internacional não existe, é discussão que deixo para os economistas. Li diferentes opiniões, da mais extrema das esquerdas ao neoliberalismo mais selvagem, e não encontro respostas para todas as minhas dúvidas. No limite, seria tão legítimo lutar por uma economia menos competitiva e mais amiga da maioria, como lutar por uma alternativa baseada numa liberdade que não termina onde começa a dos restantes. A escolha, em democracia, está no povo. E o povo escolheu a alternativa de Hugo Chávez, de forma inequívoca, por três vezes.

Tal como escolheu Nicolás Maduro, ainda que de forma tangencial. Acontece que Maduro acabou por perder a maioria na Assembleia Nacional e o caldo entornou. Após uma polémica decisão do Supremo, controlado pelo regime, que absorveu os poderes do parlamento venezuelano, e que acabaria revertida, ainda que tarde demais, o protesto saiu às ruas e os rostos do velho regime souberam canalizar a revolta.

Perante um levantamento popular, instrumentalizado por uma oposição com recursos e amigos poderosos, e alimentado pela debilidade económica de um Estado totalmente dependente das exportações de petróleo, em forte queda desde 2011, motivo que ajuda a explicar a escassez de alimentos e produtos de primeira necessidade que vemos pela televisão nos supermercados venezuelanos, o regime madurista não esteve à altura da situação. Tornou-se nocivo. Fez presos políticos e armou milicianos. Viu a economia afundar-se e a pobreza a inverter a trajectória da década anterior. Fomentou atropelos democráticos. Regressa, aos poucos, à Venezuela que Chávez derrotou em 98, que reprimiu e matou centenas durante o Caracazo, e vê a sua popularidade cair a pique. E o sistema aproveitou a deixa para o abater.

É muito triste, aquilo que está a acontecer na Venezuela. Ver aquelas pessoas, em filas intermináveis para conseguir arroz ou uma aspirina, em permanente sobressalto com os confrontos diários entre as duas facções que dividiram o país, é uma tragédia que choca e que não tem justificação. Mas quem somos nós, parceiros económicos de sauditas absolutos e angolanos cleptocratas, súbditos de uma superpotência que invade e bombardeia a bel-prazer, para dar lições de moral ao regime venezuelano? Quem somos nós, que incendiamos o Médio Oriente e armamos tantos dos terroristas de hoje, para apontar o dedo a quem quer que seja? Não fazemos nós negócios com os regimes mais sanguinários de África? Não andamos nós a vender empresas públicas e dívida soberana a ditadura chinesa? Não nos esforçamos nós para garantir que os oligarcas russos mais canalhas tenham acesso a todos os luxos que nos orgulhamos de exportar? Pobre povo venezuelano, entalado entre uma ditadura de esquerda e uma oposição fascista, a lutar por pão e medicamentos ao som de tiros e propaganda.

E o que fica de tudo isto? Um sonho que morreu, um regime repressor, uma oposição oportunista sem escrúpulos, um povo cheio de fome e medo, uma economia de rastos, uma democracia que deixou de o ser e os abutres financeiros do costume, a voar em círculos sobre as plataformas petrolíferas venezuelanas. Se as eleições fossem hoje, as possibilidades de Maduro perder o sufrágio seriam reais. Não é à toa que a oposição tanto se esforça por antecipar as eleições. Mas o que vem a seguir, infelizmente, não augura nada de bom. A ditadura do dinheiro já provou não ser melhor que qualquer outra. O povo, esse, continuará a sofrer e a pagar a factura da ambição e da ganância.

Foto: Meridith Kohut/New York Times

Comments

  1. Xavier says:

    Vê lá se deixas as fraldas intelectuais onde andas. O resultado da Venezuela deve-se ao socialismo autoritário. Ponto. Ditadura do dinheiro? Neoliberalismo selvagem? Então vamos ver os países onde estão esses “monstros”. EUA, UK, Alemanha, Suíça, Canadá, Australia. É preciso mais? E onde estão os países onde esses ‘anormais neoliberais’ não estão? Nos maravilhosos países desenvolvidos Coreia do Norte, Cuba, Venezuela, Cambodja,…
    Por mais esforços intelectuais que faças essa é a realidade. Socialismo e riqueza são incompatíveis. O que se passa na Venezuela deve-se a pessoas que pensam como tu. Cresce.

    • Rui Naldinho says:

      “O resultado da Venezuela deve-se ao socialismo autoritário. Ponto.”
      Xavier não bebas vinho a “martelo”, que te faz mal!
      Bebe antes do bom, que ficas melhor.
      A Venezuela, como grande parte dos países da América Latina, são governados à décadas por um bando de corruptos, que se sucedem uns aos outros. Vira o disco e toca a mesma música. Aliás, o Chávez ganhou umas eleições livres, quando ascendeu ao Poder, caso não saibas. E depois voltou a ganhar outra vez. E sabes porquê? Porque todos aqueles que governaram a Venezuela nos últimos cinquenta anos antes dele, eram corruptos. E ele não conseguiu fugir a essa sina, dos seus antecessores. É uma espécie d virose.
      Sabes onde é que há países socialistas que tem índices de desenvolvimento e crescimento económico, de fazer corar de vergonha os países que tu nomeaste?
      Dou-te só dois. Mas há mais. A China e o Vietname. Mas sabes qual é a chave do sucesso deles. Trabalho sem direitos, salários baixos, miséria da porta da casa até ao emprego, apoio social zero, saúde de terceiro mundo.
      No entanto são governados por comunistas, pá!
      Mas destes tu se calhar já gostas. Porque o teu problema não é o Partido. Se forem estes até servem! O importante para ti, é haver “pretos ou chinocas” para trabalhar por nossa conta. De preferencia que não reclamem muito.

      “Ditadura do dinheiro? Neoliberalismo selvagem? Então vamos ver os países onde estão esses “monstros”. EUA, UK, Alemanha, Suíça, Canadá, Australia. É preciso mais? E onde estão os países onde esses ‘anormais”

      Comparar o EUA com a Venezuela é o mesmo que querer comparar o Tondela com o Real Madrid.
      Já agora porque não comparaste a China com os EUA, cuja dívida deste último, está nas mãos dos “comunistas Chineses”.
      Não te dá jeito?

      • Rui Naldinho says:

        … Governados há décadas, ….

      • xavier says:

        Caro Naldinho,
        Passe o insulto inicial, e o facto de escrever “à decadas”, digo apenas 3 coisas rápidas:
        – Desculpa a corrupção do Chavez porque os anteriores também o eram, é isso? Boa!
        – Fala de China e Vietname como casos de países comunistas desenvolvidos? Sério? Vietname é dos países mais pobres e desiguais do mundo, há semelhança de todos os países comunistas e ditatoriais, onde uma elite política controla a riqueza e deixa o resto do país na miséria. A sua riqueza advém também da sua entrada na OMC, essa organização neoliberal! Dispenso esses regimes que querem ser as duas coisas e cuja preocupação menor são os seus cidadãos (conceito inexistente nesses países).
        – Não percebi o último argumento. Apenas quis dizer uma evidência: desenvolvimento económico, social, cultural, com reduzidas desigualdades sociais apenas existem em países com democracias liberais, com mercado livre, com liberdade de livre iniciativa e possibilidade de acumulação de capital.

    • Paulo Marques says:

      E como ficaram a Nicarágua, o Chile, a Rússia, o Irão, Cuba e todas as outros 81 golpes de estado do capitalismo?

    • Ferpin says:

      Tenho por norma tratar quem não conheço aqui da mesma forma que o trataria se fosse uma conversa ao balcão do café. Há no entanto gente que aproveitando o anonimato da internet, exibe a sua falta de educação num tratamento grosseiro e desabrido para com os outros de que o tratamento altaneiro por tu é só um detalhe. Se falasse para mim num local público, sem me conhecer, da forme que se exprime aqui, parafraseando Eça, dava-lhe duas bengaladas. Como não dá, não lhe direi o que penso do chorilho de asneiras que proferiu.

  2. Paulo Só says:

    João Mendes, concordo com a sua visão sombria. O drama da Venezuela, é aquilo que faz a sua fortuna: a chamada doença holandesa (do petróleo) da qual ela não consegue se liberar desde os anos 40, passando pelo Andres Perez. Importam até alfaces de Miami. Quem as pode pagar, claro. Na realidade a situação atual espelha as duas Venezuelas que vêm cohabitando: a dos miseráveis e as dos imigrantes enriquecidos. Curiosamente no entanto ninguém se preocupa com a situação em outro país “vítima” do petróleo: a Nigéria. Ainda há dias a polícia pôs fogo a um bairro de lata, de onde os moradores tiveram de fugir pelo mar, em barcaças improvisadas. Mas quem liga a isso? São pretos, e o petróleo é das companhias ocidentais, dos nossos países desenvolvidos e democráticos. Quanto ao comentário do amigo Xavier, que eu não conheço e por isso não trato por tu, só lhe respondo para aproveitar. Porque os países “comunistas’ estão a desaparecer, e em breve vai ter de achar outro culpado para a miséria do mundo. E um substituto para o pensamento pronto-a-vestir, e para a boa consciência fast-food.

    • Xavier says:

      Caro Paulo, não sou tão optimista quando refere que o comunismo está a desaparecer. Todas as experiências de comunismo trouxeram miséria. Os países que se libertaram do comunismo e consolidaram democracias liberais, com comércio livre apresentam índices de crescimento e desenvolvimento económico e social assinaláveis. Preciso de apresentar exemplos? Quem não vê isto é que tem pensamento Pronto a vestir, caro Paulo.
      Lamento se ofendi a sensibilidade do autor ao usar o tratamento tutuano.

      • Paulo Só says:

        A minha sensibilidade não feriu, mas acho mais saudável manter certa cortesia e formalidade neste site, como na vida de todos os dias. Quanto ao cerne da questão, e deixando a Venezuela de lado, há casos e exemplos para tudo. Até o Butão e o seu índice de felicidade, que dispensa a eleição democrática do chefe de Estado. A nível global o que se vê é dos anos 70 para cá, ou seja depois do choque do petróleo e do tandem Thatcher-Reagan, uma enorme concentração de riqueza: o capital é hoje remunerado ao nível do que era no começo do século XX em detrimento do trabalho. Isto obviamente sobretudo por causa da China, dado o seu peso demográfico, que não se pode dizer que deva o seu sucesso ao capitalismo, ou se o deve é porque soube primeiro dar saúde e educação aos seu trabalhadores, como a Coreia do Sul e os países de leste europeu, que em muito domínios deixaram Portugal com seus analfabetos capitalistas/salazaristas a chupar no dedo. As coisas são complexas, não há receitas prontas que sirvam para todos. Aliás falando da China por minha parte lhe digo que dispenso esse desenvolvimento, à custa de uma ditadura feroz.

        • xavier says:

          Concordo com o conteúdo de quase todo o seu texto excepto quando diz que “há casos e exemplos para tudo”. Não, não há uma experiência de país comunista que se revelasse democrático e criador de riqueza e bem estar. Os índices de felicidade não revelam nada, pois é um indicador subjectivo, mas reconheço que desconheço a metodologia de construção de tal indicador. A China, principalmente a partir da entrada na OMC, julgo que em 2001, com a abertura do seu mercado bens e capitais, lá está, demonstra crescimentos notáveis. É um player mundial. Mas partilho a sua visão de que a repressão dos trabalhadores para a obtenção do fim anunciado é dispensável. A China conserva o pior dos dois mundos.

          • Paulo Só says:

            Desculpe, mas é bom ir devagar com o andor. Em termos de saúde e educação Cuba e muitos países ex-socialistas têm ou tinham índices muito superiores a muitos países “capitalistas”. O Brasil por exemplo é uma vergonha estava (e está voltando) quase ao nível do Haiti.

          • xavier says:

            Sou profissional da saúde e posso dizer com segurança que o sistema de saúde cubano é um mito.
            É verdade que têm alguma preocupação nos cuidados primários e que os indicadores de taxas de mortalidade infantil são semelhantes aos dos países desenvolvidos. Há uma forte aposta nos cursos de medicina há algumas especialidades onde são muito bons. No entanto, os médicos cubanos são os primeiros a querer sair do país. Basta falar com os que chegam a Portugal.
            Quanto aos cuidados de saúde e às condições hospitalares, deixo aqui alguns links, das centenas que estão disponíveis.
            Não conheço bem o sistema de educação cubano.
            http://www.abc.es/internacional/20130317/abci-falso-mito-sanidad-cubana-201303161813.html
            http://runrun.es/runrunes-de-bocaranda/runrunes/9211/un-cable-de-wikileaks-que-muestra-la-%E2%80%9Cverdad%E2%80%9D-de-los-hospitals-en-cuba.html
            https://panampost.com/belen-marty/2015/10/06/inside-the-cuban-hospitals-that-castro-doesnt-want-tourists-to-see/

          • Paulo Só says:

            Eu me referia aos índices de saúde do povo cubano comparados com os restantes da América Latina. Que são muito claros. Pode ser que tenham melhorado em alguns países como Chile e Costa Rica, ou mesmo no Brasil. Mas até há pouco tempo eram claríssimos. Obviamente Cuba não deve ter dinheiro para comprar muitos equipamentos médicos mais sofisticados, Mas quem tem acesso a eles na AL? Por outro lado a junk-food, fertilizantes e outras porcarias “modernas” devem estar a fazer a sua aparição na Ilha com a progressiva abertura do país, portanto é normal que os índices de saúde piorem. Acrescento que nos restantes países da AL, as médias são enganadoras, dado o abismo na distribuição da renda, que só vem se agravando, mesmo no Brasil de Lula, ao contrário do que se diz.

  3. Ditaduras de esquerda são más. Já as de direita são boas. E vice-versa, já agora. Assim parece ser algum argumentário, como por exemplo o dos blogs e comentadores de direita, que tanto post fazem sobre a Venezuela, mas nem uma linha escreverem sobre a Turquia e a Hungria. Ou passando uma esponja sobre o que foi Pinochet. Não. O mal do mundo reside em Cuba e na Venezuela.

  4. Volta e meia gosto de passar por aqui, mas sinceramente … a pinga deve ser da boa, hoje gosto desta: “A ideia nem era má. Tirar (um bocadinho) aos ricos para dar aos pobres…”, mas onde é que eu já li (vi e vivi) sobre isto…no século passado? Há mais tempo?

  5. Antonio Rodrigues says:

    Parece que os EU têm a maior dívida do mundo. Até já devem o Sol e o Solo. E também o Dó dos não sei quantos milhões de miseráveis para os quais eles (governantes) não estão Lá, pois só pensam em Si. Mi(séria) e dinheiro, tudo bem batido, condimentado com algum sangue, dá umas Bolas de Berlim ou qualquer outra capital do Neoliberalismo, para dar de comer aos venezuelanos, coitados, que já navegam à Ré da civilização. A música como se sabe, é sempre a mesma Os cantores é que se vão revezando

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