Milagres


Sinto hoje a necessidade de manifestar a minha solidariedade aos meus amigos médicos – e, através deles, à comunidade médica em geral – pelo modo como, nestes dias, são e serão insultados em todos os tons pela crendice milagreira – que pouco tem a ver com a crença religiosa; séria, profunda ou cândida que seja – e seus parasitas profissionais. O desfile já começou. As histórias dos “desenganados dos médicos”, contadas em imaginários diálogos, completamente inverosímeis, em que os técnicos de saúde fazem sempre o papel de vilões sem alma, são obscenas.

Os familiares dos “milagrados” todos se empertigam e os repórteres aproveitam com aquela conhecida elegância ética, cada vez mais conspícua.

Mas, perguntar-se-à, a fé – religiosa ou outra, não quero enveredar por subtilezas filosóficas – não tem qualquer papel na superação dos desafios da vida? A fé que pode ajudar a suportar uma crise pessoal – de doença ou outra – é, sabemo-lo, humana e compreensível, mas a gratidão pelas nossas vitórias não pode excluir ninguém que nos tenha dado a mão. Não é esta a via da crendice milagreira e agressiva; para ela, o “milagre” fica entre o suposto beneficiado/a e o seu privilégio de ter sido escolhido pela divindade. Para ela, os médicos e demais técnicos de saúde são apenas empecilhos que se suportam enquanto a divindade faz o seu trabalho. Depois, mais depressa são desprezados ou ofendidos do que louvados.

Por mim, sobrevivente de coisas de prognóstico (muito) reservado, quero agradecer aqui a todos os que me trataram, que me deram a vantagem da sua ciência, do seu saber, da sua arte, da sua companhia. Aos que trabalham nos Hospitais da Universidade de Coimbra, sim, mas também a todos os que, no meu País, ajudaram a erguer um Serviço Nacional de Saúde que nos permite vencer doenças que, antes, nos derrotariam não só por falta de ciência mas, sobretudo, por falta de meios e recursos.

Os meus amigos crentes dirão que todos estes de que aqui falo fazem o trabalho de Deus, mesmo que sejam ateus.
Seja assim. Acreditai no que a vossa fé dita, é convosco, mas abraçai os que merecem a vossa gratidão e não os insulteis com a suposta exclusividade com que uma qualquer divindade vos privilegiou – sem cuidardes das razões porque a mesma divindade terá abandonado outros com mais merecimento que vós.

Um clérigo hoje, num programa de televisão, definia um milagre como uma “cunha que um santo a quem nos dirigimos mete a Deus”. Nós queremos, senão respeitar as religiões, respeitar os que nelas creem. Mas, por vezes, é difícil.

Comments

  1. Seria fastidioso neste local estar a explicar o que é um milagre ou o que se entende por ele e quem o faz: nós ou o santo. Mas dizer que quem acredita em milagres tem raiva aos médicos e enfermeiros é ignominioso. Sou católico, casado com uma profissional da saúde, já tive uma doença grave e agradeci aos médicos e ao pessoal de enfermagem o tratamento que me concederam. Acreditar em milagres ou não, em nada interfere nesta minha gratidão. Foram muitos os clérigos e homens e mulheres da Igreja que trabalharam para a Ciência e com a ciência. São muitos homens e mulheres religiosos que arriscaram e arriscam a vida para levar o conhecimento da ciência a quem precisa. Alguns morreram vítimas das doenças apanhadas daqueles a quem combatiam as mesmas doenças. Foi assim, por exemplo, com quem levou a vacina da varíola a quem mais precisava. Foi o filho de um clérigo quem a descobriu. Pasteur era um católico, profundamente crente e religioso. Ou eu o li mal, ou sinceramente nem sei como classificar o seu arrazoado. Concordo, no entanto consigo sobre a frase infeliz do clérigo sobre cunhas. Um cristão não pode acreditar em cunhas. É Cristo, fazedor de milagres, quem o diz quando afirma ao miraculado: “a tua Fé te salvou”, remetendo o mérito do milagre para o próprio beneficiado. É por isso que não é uma questão comercial nem de cunha.
    O milagre atua, acredita-se, onde a ciência já não tem resposta. É só isto o que quer dizer desenganado dos médicos, não é ingratidão. Ou acredita que a Ciência é omnipotente?
    O milagre é (deve ser) tão só o maravilhamento (raiz etimológica) perante a vida e a natureza. A Ciência é a manifestação maravilhosa da inteligência humana, e por isso, ela mesma um milagre.

    • Não foi nada do que me atribui o meu ponto. A minha nota tem um alvo muito preciso. Fica aqui a sua perspectiva, mas não me sinto interpelado, logo, nada tenho a dizer.

    • Luís Neves says:

      É um arrazoado.

    • Luís Neves says:

      Por acaso os médicos (alopáticos farmacêuticos) acreditam em milagres. Não se trata bem de acreditar. Basta eles terem alguma experiência profissional para já os terem visto acontecer.
      O que eles não sabem é fazê-los.
      E não será tanto por não saberem ou por não serem capazes. É mais por (além de não saberem) não quererem saber e (até) terem raiva de quem saiba.
      Obviamente não é um problema individual deles.
      Agora…
      …se alguém quer fazer um broche (em público) aos médicos (alopatas farmacêuticos) que o faça. É uma questão, por assim dizer, de fé. Respeita-se. No entanto quero lembrar que há uma coisa que está na lei e se chama “direito de escolha” e que em lado nenhum, na CRP ou na Lei que instituiu o SNS, consta que este deva estar por inteiro vinculado à alopatia farmacêutica. Alopatia farmacêutica hoje em dia altamente corrompida, diga-se.
      Sou só uma pessoa que foi educada a ir ao médico (convencional, farmacêutico) a quem aos 48 anos diagnosticaram uma doença (que já tinha há 28) considerada crónica, degenerativa e incapacitante e que se encontrava já numa fase de evolução avançada e sem tratamento convencional possível. Bom ou mau. Acrescento que todos os tratamentos convencionais para a minha doença são maus. E, salvo uma honrosa excepção, podem matar. Como mataram a adolescente de Cascais. Não foi a falta da vacina do sarampo. Foi o imuno-supressor para a psoríase.

  2. É o Povo crente em milagres que nos ensina a capacidade do maravilhamento já tão alheada das nossas mentes racionais. É o Povo, que não fazendo caso de hierarquias e de igrejas, atribui santidade e milagres a um homem de ciência, não crente e suicida: Sousa Martins. Porque o Povo se maravilha até com aquilo que nos entedia.

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